O Pó alemão

Sitri

O gramado estava úmido. No dia anterior havia chovido. Mas mesmo assim, ali se sentou. Cruzou as pernas uma sobre as outras, esticou os braços, o seu corpo relaxara, mas seus olhos procuravam por algo, não paravam de se mexer, em nenhum momento. Muitos falavam que era um turista vindo da Europa, mais precisamente da Alemanha. Podia ser, mas ele fugia totalmente do estereótipo alemão loiro dourado com os olhos cor de azul, na verdade, era baixo, ruivo, cheio de sardas e usava óculos quadrado, o que dava a ele um ar de imbecilidade. Pra mim, parecia que ele era um psicopata de um filme trash. Quando olhei diretamente nos olhos dele, alguns dias atrás, e ele olhou nos meus, desejei que aquilo nunca tivesse ocorrido, foi apenas por um instante, mas isso me pesou como se toneladas de nostalgia tomasse minha mente com aquele olhar. Desde então, nunca mais o olhei fixamente.
Era ali, ao lado do Relógio do Sol, que todo dia ele se sentava no mesmo horário e ficava com o corpo imóvel, porém com os olhos correndo para tudo que era lugar naquele Parque. Falava apenas alemão, nenhuma outra língua, os poucos na cidade que tentaram se comunicar com ele, haviam misteriosamente desaparecido em questão de dias. E os olhos dele, corriam cada vez mais pelo Parque, por entre as pessoas, algumas até deixavam de andar, pra não atrapalhar o passo apressado do seu olhar.

***

Quando acordei numa noite, o relógio me dizia que era duas e trinta e três da madrugada. Por algum motivo, tive o ímpeto de ver se o alemão estava sentando no mesmo lugar. Vesti minha roupa e para minha surpresa, lá estava ele, na mesma posição. Com receio, fui me aproximando, tomando o cuidado de não olhar fixamente pra ele, queria saber qual era o mistério que aquele turista trazia para a cidade. Sentei em frente a ele, mas, não o encarei. Temia por isso, algo dentro de mim, dizia que o encarar fixamente poderia ser fatal. Sentei do mesmo modo que ele sentava, olhei para baixo. Foi quando ele quebrou o silêncio e para minha surpresa, o português dele saiu perfeito:
– Nós, seres humanos, podemos até escapar da Morte e de Deus. Mas, nunca escapamos do nosso passado!
Aquelas palavras me causaram calafrios. Voltei para casa apressado e não dormi naquela noite. Fiquei me questionando o que ele quis dizer com tais palavras. Esperei amanhecer para poder falar novamente com ele, mas quando amanheceu, ao procura-lo ao lado do Relógio de Sol, ele não estava lá. Caminhei pelo Parque, talvez tivesse em outro lugar. Mas não, ele havia sumido, e me deixado com uma dúvida. O que aquelas palavras queriam dizer? Precisava o encontrar.
Passou-se três dias e, enfim, ele apareceu. No mesmo lugar, com a mesma calma no corpo e a mesma obsessão nos olhos. Só que dessa vez, ao lado dele, havia azulejos. Pude reconhecer alguns, já havia visto no Aeroporto da cidade, no Instituto de Saúde Mental e até mesmo no Ministério das Relações Internacionais. Todos em volta dele, como se aqueles azulejos o protegessem de algo.
Eu sentei novamente em frente a ele. E dessa vez olhei-o nos olhos e ele retribuiu o olhar. Um calafrio tomou conta do meu corpo. Aqueles olhos inquietos se aquietaram quando encontraram o meu. Ele me ofereceu um azulejo e eu o peguei. O azulejo oferecido era do Instituto de Saúde Mental. Reconheci assim que peguei na mão. Ele subitamente pegou o meu outro braço. Colocou sobre sua perna. Retirou uma navalha do seu bolso e começou a rasgar minha pele. Cortava ela na forma horizontal. Eu não sentia dor e nem desejava retirar meu braço dali. E conforme ele rasgava minha pele, mais fundo ele adentrava a navalha em mim. Seus olhos nitidamente brilhavam. Foi quando percebi, que de mim, não saía nenhuma gota de sangue, mas apenas pó. Ao meu redor, pude notar a cidade inteira indo do concreto ao pó. Prédios, animais, pessoas. Tudo se transformava em pó.
– Repare – ele falou- do pó viemos e ao pó retornaremos!

Contagem:  631 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

A chave do personagem do conto é interessante: olhares e expressões estranhas, bizarras, que intimidam e causam calafrios. Suspeito que o personagem está mais para esquizofrênico do que de obsessivo compulsivo. Mas algumas expressões que o caracterizam valem um elogio, como o “passo apressado do seu olhar”. O enquadramento dos azulejos e a ideia de redução a pó tanto destes quanto do humano é uma ideia bem engendrada, que poderia ser melhor explorada se mais tempo houvesse. Vale fazer uma revisão mais cuidadosa, em expressões como “Cruzou as pernas uma sobre as outras” (quantas pernas ele tem afinal?); “Precisava o encontrar; Cortava ela”. Mas, Sitri, reconheço potencial em sua escrita!

Celso Bächtold

Gostei do conto! O epílogo até tem uma similaridade com o do livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, quando a Vila de Macondo estava sendo destruída por um tremendo furacão. Contém alguns pequenos erros, que poderiam ser resolvidos com uma revisão mais acurada, mas que não tiram o valor desse texto misterioso. Alguns trechos poderiam ser mais detalhados, fornecendo mais informações ao leitor, como o azulejo falso (imposto por esse Desafio), a sedução feita pelo alemão poderia ser descrita com mais calma, e a destruição de tudo poderia ser mais detalhada também, como no livro citado.

Paulo Fodra

O clima à la Lars Von Trier é instigante. Ideia muito interessante, mas com vários problemas de forma que vão roubando o brilho da narrativa: erros de concordância, acentuação, frases muito longas e mal pontuadas. Escrever é muito semelhante a esculpir. Depois de lapidar a forma bruta que o artista imaginou, é preciso refinar a peça até dar o acabamento.

Roberto Klotz

Tropeçou na abertura ao “cruzar as pernas uma sobre as outras”. Tem erros de concordância “passou-se três dias”. Precisa rever o uso dos pronomes demonstratvos da família do aquele (8 ocorrências). Aquele significa pessoa ou coisa antes referida ou distante do interlocutor e do ouvinte. Muitas vezes usado erroneamente como superlativo: ontem foi servido aquele jantar. Estava aquela escuridão, senti aquele medo. Use apenas quando você já descreveu a cena ao leitor. Aí sim, você pode se referir àquela cena. O fechamento é ótimo inesperado embora não tenha conexão como restante. Mas foi um diferencial para classificá-lo entre os 21 melhores do Desafio dos escritores DF.

Simone Pedersen

Conto impactante e com personagens ricos. O personagem é citado como obssessivo, mas sua obssessão não surge no conto, apenas senta-se no parque todos os dias e olha as pessoas. O ritual dos azulejos surge abruptamente, talvez um indício no início do conto, amarrasse a ponta. É preciso atentar para os elementos do desafio: cenário, personagem e objeto-chave.

Nota

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 7,0
Celso Bächtold 9,2
Paulo Fodra 7,5
Roberto Klotz 7,0
Simone Pedersen 9,0