O último trabalho

Ladrão de São Thomé

Joaquino chegava à repartição e se despejava numa cadeira tão ranheta quanto ele. Meio que dava bom dia às caspas que jaziam sobre o paletó, depois aliviava a braguilha, folgava os calçados e, pronto: passava o resto das horas despachando lições a Deus e o mundo em páginas apócrifas na internet – até, enfim, cumprir a razão de encontrar-se ali: apertar o “Enter” e enviar à gráfica o Diário Oficial da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

A rotina ficou mais atribulada quando os deputados, também cansados de tanto serviço, convocaram a população a propor projetos de lei. Para Joaquino, foi um chamado. Afinal, legislar sobre o Universo era, nas entrelinhas tortas, tudo o que fazia para preencher o período do expediente. Sob rara excitação, ele sacudiu as caspas, bebeu três levas de café e estalou os dedos antes de apresentar, de pronto, cinco projetos.

Começou propondo que todo cidadão fosse obrigado, sob pena de multa, a comunicar à Aeronáutica quaisquer objetos não-identificados no espaço aéreo da região. Dali exigiu que carroceiros colocassem fraldões nos cavalos, que todos os feriados fossem transferidos para as segundas-feiras, e chegou ao acinte de sugerir a extinção sumária da crase na língua portuguesa. Nenhum entrou em pauta, exceto aquele que, por fim, lhe era mais caro: a inclusão do Dia da Cartomante no calendário distrital, “tendo em vista a profusão de cartazes em nossa região, denotando, desta feita, toda a benfeitoria da classe responsável por precaver os cidadãos brasiliense de problemas vindouros”.

Chegou em casa tropeçando nos móveis, louco para contar seu feito à matriarca. Natalina Vivêncio Romano, a Donalina, murmurou com os olhos. Há algum tempo ela passava os dias sobre a cama, rodeada por restos de comida e guimbas de cigarros, diante da TV ligada à eternidade. E suspirava, entre solavancos de fôlego, lembrando o tempo em que o povo formava fila na porta de casa, na extinta Vila Amaury, até o Paranoá alagar seu destino.

– A culpa é do Google, mamãe. As pessoas não acreditam em mais nada – ele consolava. – Mas você sempre foi sabidinha. Vamo jogar um carteado, faz um prognóstico aí.

– Aff… Prevejo é um programa daqui a pouco – ela enviesava, pouco antes da vinheta de “A tarde é sua” se anunciar.

Ao mesmo tempo tocou também o telefone de Joaquino. Era a produção do Jornal das Doze, da Rede Record, pedindo uma entrevista com o autor do curioso projeto. Seria este o programa que a velha previu ou ela se referia apenas à próxima atração da TV? Paranoiado, ele sempre enxergava adivinhações por trás de qualquer resposta. Mesmo quando um copo caía da sua mão, pouco antes dela soltar um “cuidado!”, ele ficava sem saber se o aviso era fruto de poderes paradivinos ou apenas da experiência materna.

Quando a equipe de reportagem chegou ao casebre da família, na Vila Planalto, a vizinhança inteira se Joaquinizou. “Então ela é mesmo uma Mãe Dinah?!”, se perguntavam. A manicure já tinha certeza; dizia que sempre se consultava, e se regozijava porque, “gente, ela adivinhou até o esmalte que eu ia sugerir!”. Joaquino, na sala, folgava o cinto com satisfação. Mas, ao ser perguntado sobre a inspiração para o projeto, a repórter quis saber mais sobre aquela senhora.

Donalina mandou comprar maquiagem nova, tirou do armário as cartas mofadas e improvisou uma banquinha na lavanderia. A equipe se armou e ela danou-se a contar sua história, que viera à reboque do pai, passara noites em sonhos sudorentos até se tornar benquista na comunidade. Virou fiel conselheira de Marceão da Sé, sobrinho e braço direito de Seu Amaury de Almeida, líder comunitário da vila homônima. E Marceão, ela continuou, era um Lampião virado do avesso, doido pra ser político na vida, ao ponto de encomendar a ela um sem-número de trabalhos. Quando, por fim, sucedeu o naufrágio da comunidade, Marceão se viu ausente de justificância e pôs a culpa de tudo naquela metida a cartomante, macumbeira sem costados em conluio com o próprio satanás.

A repórter, já meio bocejante, agradeceu e perguntou:

– Mas então, Donalina, indo direto ao ponto: a senhora poderia prever se o projeto será ou não aprovado?

Ela respondeu assim:

– Olha, minha filha… Se suncê perguntar se eu gostaria, te digo que sim, é claro que sim. Fazemos parte de uma cultura milenar… Quando a pessoa é séria, as cartas nunca falham.

Mas, na TV, aconteceu assim:

– […] Sim, é claro que sim […]. As cartas nunca falham.

No dia da votação, a bancada conservadora tratou de arquivar o projeto e, por tabela, a carreira natimorta de Donalina. Até a amiga manicure desapareceu – ao contrário do desafeto Marceão da Sé. Ele aproveitou a mídia espontânea para ressurgir, direto dos rincões onde se escondia para o saguão da Câmara. Deu até entrevista ao vivo, desdizendo a tal desavença, julgando-se injustiçado por poderes sombrios e prometendo continuar lutando pelo povo humilde, “como sempre fizera por toda a vida”.

De tão empolgado, nem percebeu quando Joaquino, que passava por ali rumo à repartição, jogou um punhado de pó de mico em seu dorso. Marceão começou a grunhir macaquices diante das câmeras, sacolejando-se como se fervilhasse numa caldeira. A risadaria se espalhou de forma quase epidêmica, primeiro entre os transeuntes, depois junto à equipe de reportagem até chegar aos âncoras do estúdio, de onde se alastrou por toda Brasília e outras 11 cidades-satélites.

Do serviço, Joaquino saboreou seu feito, compartilhando às dezenas o maior sucesso de todos os tempos da última semana na internet. Já Donalina assistiu tudo ao vivo, do seu quarto. Chegou a erguer uma sobrancelha. Depois levantou-se e foi até os fundos do armário, onde há décadas conservava um altar vodurento. Nem ela, no fundo, acreditava que toda aquela palhaçada um dia funcionaria tão bem.

Contagem: 953 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Cumpriu os elementos do desafio. Toque de humor e fina capacidade de ridicularizar a ação dos deputados que propõem absurdos projetos de lei. Boa denúncia da deturpação da informação pela imprensa. Senti falta de certa tensão no conto. O pó-de-mico introduz uma simbologia engraçada, mas o seu efeito no texto não me convenceu.

Alexandre Lobão

A história está bem escrita, e os personagens estão interessantes, embora pudessem ter sido mais explorados. O aparecimento do Marceão e o evento do pó-de-mico no final pareceram desnecessários, deslocados do resto, diminuindo a força da história.
Há apenas um ou dois erros que uma revisão mais atenta resolveria e que não impactam na qualidade geral do todo.

Allan Vidigal

Adorei o começo e cheguei a achar que poderia ser o conto mais original da semana. Mas parece que, em algum momento, você se perdeu completamente. Fiquei com a sensação de que você contou três histórias diferentes e não levou nenhuma delas a cabo. Para mim, pelo menos, não funcionou.
A nota é, principalmente, pelos quatro primeiros parágrafos – que podem virar um conto completamente diferente e muito melhor.
P.S.: Não é “à reboque”, é “a reboque” (isso não muda a nota).

Ana Vilela

A ideia é boa, o texto e seu ritmo estão bem legais, mas o foco fica no Joaquino a maior parte do tempo, enquanto a personagem central é, de fato, Donalina, que só entra lá na frente. Outro ponto é que se demora a entrar na história – ou melhor, não há uma história realmente. Diria que, como se fala no jornalismo, há um enorme nariz de cera antes de entrar de fato no que chama a atenção do leitor, no que prende. Há uma grande personagem em Donalina, que deveria ser mais explorada. Ela é a história. Há um distanciamento entre ela e os projetos todos do filho. O vínculo é o projeto que se refere à cartomante e a TV, mas algo não se encaixa bem aí…

Betty Vidigal

Meio descosturado, as coisas não se ligam umas às outras. Não tem sentido dar nome e sobrenome longos aos personagens que vão ser chamados por apelidos. A menos que o nome determine alguma ação na estória.
O Marceão não é tão importante que mereça fechar a estória.

Celso Bächtold

Texto excelente, com uma simbiose muito boa entre os elementos do desafio. Apresenta pitadas de humor e mistério, além de uma caracterização muito boa dos personagens.
Só um detalhe: na frase “…por precaver os cidadãos brasiliense de problemas vindouros”, faltou o plural em “brasiliense”.

Cinthia Kriemler

Sinceramente, não sei se o seu texto foi apenas uma gozação ou se é ruim mesmo. E se foi uma gozação para você se divertir ou em relação ao Desafio. Além de faltar revisão, a história é sem pé nem cabeça. A linguagem é uma bagunça. Joaquinizou?Paranoiado? Vodurento? O “suncê”, caipira, junto com “cultura milenar” numa mesma fala da protagonista (linguagem caipira e erudição juntas). Projetos de lei descabidos. Em tempo: deputados não “convocam o povo” para propor projetos. Entidades, sim. E, mesmo assim, é um tipo de projeto muito específico chamado de Projeto de Iniciativa Popular. Precisa de um milhão de assinaturas. Enfim, humor sem graça, falta de informação, neologismos pobres e inverossimilhanças não deu certo, do meu ponto de vista. Para último texto, não entendi a sua escolha.

João Paulo Hergesel

É um conto sem estripulias. De forma simples, clara e objetiva, atende à provocação e mostra o conhecimento literário do autor. Faltaram surpresas, ações que motivassem a leitura, que avivassem as emoções. Mas é um conto correto e bem-feito diante do que se propõe.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. Não me proponho, como já disse, neste nosso último papo no desafio, perder tempo em revisar o texto, mas problemas como o uso pronominal do verbo “danar-se”, nesse contexto, e “ao ponto” foram irresistíveis. O primeiro parágrafo está tão obscuro e truncado que precisei reler três vezes para entender o que você pretendia dizer e, terminou até fazendo, mas sem fluência e clareza. A tirada da caspa, ilustrativa no primeiro parágrafo, tornou-se enfadonha no segundo. Novamente no terceiro parágrafo a fila na casa de Donalina se mistura confusamente com o alagamento do Paranoá. O narrador se apodera do enredo e raramente deixa a ação correr solta. Vale lembrar a advertência do mestre Massaud Moisés: “O conto opera com ação e não com “caracteres”. Ele apenas cria situações conflituosas em que todos nós, indistintamente podemos espelhar-nos. Nesse caso as personagens são consideradas como instrumentos da ação.” Foi o que faltou neste conto: ação relevante, personagens consistentes e desfecho importante.

Nálu Nogueira

O conto me surpreendeu no final. Mas também não me empolgou.

Oswaldo Pullen

O pó-de-mico aparece gratuitamente, no final de um conto que em seu decorrer peca por falta de uma sequência lógica entre causa e consequências.

Paulo Fodra

Todos os requisitos da provocação foram cumpridos à risca, resultando numa narrativa interessante, porém com um final átono, que termina por quebrar a expectativa do leitor.

Roberto Klotz

Sem dúvida o melhor do conto é a excelente abertura. De brilho tão intenso que ofusca o resto da história. Gostei também das pequenas tiradas poéticas: “murmurou com os olhos” e “alagar seu destino.”. Uniu com harmonia os elementos da provocação. Porém foi infeliz ao juntar opostos de linguagem “suncê” e “cultura milenar” na mesma frase. Se Joaquino tivesse sido credenciado como pessoa que manuseasse ervas, o final com o pó-de-mico mostrar-se-ia verossímel. Percebi falta de entusisamo no conto.

Simone Pedersen

Conto engraçado. Eu bem que gostei de alguns projetos de lei do Joaquino. Gostei muito da forma como retratou a vida dos personagens, o funcionário que não explora o tempo, a mãe que não vive além da televisão e injustiças. Quem nunca deu uma entrevista que depois de editada perdeu suas verdades?
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, já que nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto atende apenas parcialmente ao desafio proposto, pois substitui o Congresso Nacional pela Câmara Legislativa do DF. A personagem Cartomante foi apenas tangenciada e a Vila Amaury entra no conto apenas como breve menção. A trama tem sequência e os fatos estão articulados, mas falta vigor narrativo. Enfim, o conto fica bem abaixo do nível geral que se nota nas demais peças concorrentes do concurso.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,7
Alexandre Lobão 8,7
Allan Vidigal  8,0
Ana Vilela  9,0
Betty Vidigal  8,0
Celso Bächtold  9,7
Cinthia Kriemler 7,0
João Paulo Hergesel  9,0
Marco Antunes 8,0
Nálu Nogueira  9,1
Oswaldo Pullen  8,7
Paulo Fodra  9,0
Roberto Klotz 7,5
Simone Pedersen 9,7
Wilson Pereira  7,0
Total  127,1