Os melhores dias da nossa vida

Cruz e Espada

A Grande Crise não foi uma pedra atirada na vidraça. Foi uma sombra se estendendo pelo chão. Nenhum estrondo assustou a vizinhança. A teia de misérias nos engoliu com sutileza e não sem alguma elegância.
Anestesiados pela rotina, não percebemos a víbora que se insinuava. Quando despertamos do longo sono, a realidade era essa coisa feia que aparece na tevê. Gente transformada em gado e gado abatido a tiros.
Posso testemunhar. Dia após dia, num movimento de conta-gotas, os magotes despencavam nas ruas. Prisioneiros da própria impotência, iam para a praça escancarar as chagas ao respeitável público em troca de moedas.
Eu não era uma ilha. Submisso aos mesmos deuses, atingido pelo mesmo destino, juntei-me ao rebanho. Bati nas portas, mostrei meu corpo jovem, ainda saudável, as mãos cheias de calos, os músculos trabalhados no cabo da enxada. Meu único patrimônio e única promessa de futuro. O que encontrei, porém, foram ecos do desespero que me devorava. Todos estavam acuados, ninguém conhecia a saída.
O bairro encolheu. Quem podia deixava os casebres malcheirosos para trás e se enfiava nos redemoinhos do mundo. Partiam de malas magras e passagem comprada a prestação, conscientes da tarefa ingrata: encontrar ouro e redimir os que haviam ficado.
Segui a mesma trilha, com medo e piedade. Medo do desconhecido, piedade do pai e da mãe, já corroídos e agora solitários.
As estradas me levaram a paisagens novas. Algumas amareladas, de solo rachado. Outras verdejantes, borbulhando água na face da terra. E outras mais, cinzentas de concreto e aço.
Numa madrugada de lua cheia e vento parado cheguei a Brasília. Ali existia a notícia de emprego fixo nos prédios que o governo construía. Desci do ônibus e vi as luzes brilhando na planície. Era bonito, e pela primeira vez em muito tempo gostei de estar vivo.
Fiz da rodoviária meu endereço. Dormia nos bancos de concreto e de manhã lavava o rosto na pia dos mictórios. Escovava os dentes com os dedos e saía para enfrentar o sol do cerrado. Procurei, me perdi, busquei informação. Ninguém, entretanto, sabia de prédio nem de governo.
Na quinta noite, quando o boato tinha virado outro fracasso no meu currículo, os guardas me expulsaram. Aqui não é lugar de parasita, disseram.
Fui para onde deu. Logo o dinheiro acabou e veio uma tontura de fome. Numa das vertigens enxerguei um oásis. Estendi a mão, uma sereia me puxou para dentro do paraíso.
Acordei do desmaio com um toque no ombro e uma voz suave:
– Olá.
Condicionado pelas hostilidades do mundo, abri os olhos já de punhos fechados. Mas não precisei me defender. Era a sereia quem me chamava. Loira, olhos azuis, cabelos descendo em cascata, sorriso luminoso.
– Está com fome? – seus lábios intumescidos perguntaram.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, um prato de sopa se materializou na minha frente. Aceitei. Minhas mandíbulas trituraram os pedaços de batata e carne. Um pouco adiante, mendigos eram servidos por pessoas simpáticas ao lado de uma Kombi.
Celebrei a refeição com um arroto e me pus de pé. Ia saindo, mas a mulher de cabelos dourados chegou perto e sussurrou:
– Vem comigo.
O abismo profundo das suas pupilas sugou as forças recém-adquiridas. Deixei que ela me guiasse para longe do grupo e me instalasse num carro que parecia levitar sobre o asfalto.
Contou que se chamava Beatriz e era casada com o Diretor do Departamento de Aquisições de um ministério qualquer. O marido era trinta anos mais velho e só se preocupava com os desdobramentos da política.
– Fico sozinha o dia todo – concluiu com um sorriso enigmático.
O carro estacionou diante de um hotel afastado do Centro.
– Amanhã eu volto – ela se despediu.
Entrei na recepção. O porteiro me olhou torto e exigiu a diária adiantada. Paguei com o dinheiro que ela havia me dado e fui para o quarto. Depois de esvaziar o frigobar, me joguei na cama.
Ao meio-dia a campainha tocou. Abri a porta, ela entrou com uma porção de sacolas.
– Veste isso.
O tom de voz não permitia discordância. Eu tampouco queria recusar. Fiz o que ela mandou e fomos para o carro. Ela dirigiu por muito tempo e enfim parou.
– Este é o Parque dos Cristais – disse, apontando com a mãozinha delicada. – O lugar que mais gosto nesta cidade. Aqueles obeliscos no meio do espelho d’água não parecem símbolos fálicos?
Não cheguei a responder. Beatriz pulou no meu colo e ergueu a saia. A pele grossa das minhas mãos feriu sua epiderme macia. Quanto mais eu machucava mais ela gritava de prazer.
No dia seguinte ela me levou até o Ministério onde o marido trabalhava. Enfiou-me pelos corredores e conseguiu um crachá com o meu nome impresso.
– Agora você é um servidor público – afirmou.
Foi uma sensação estranha. Há dois dias eu morria de fome. Agora tinha um salário que jamais sonhei em receber.
Beatriz definiu a agenda. Eu deveria passar o dia no Ministério e voltar para o hotel. No fim da tarde, depois dos almoços beneficentes e massagens, ela viria exercitar suas fantasias.
No Ministério não havia o que fazer, além de buscar e entregar envelopes. Certa ocasião um deles veio aberto e com endereço errado. Não aguentei a curiosidade e espiei o interior. Maços de dólares acariciaram minhas retinas. Maços pesados de dólares. Senti uma ânsia esquisita, estilhaços de dúvida me acertaram por todos os lados. Mas me contive. Fechei o envelope, corrigi o destinatário, terminei o serviço com a eficiência que se espera dos subalternos.
Neste dia ganhei dois presentes. O primeiro foi um bolo de dinheiro. O segundo foi algo que a decência me impede de descrever.
– Isto é pela sua discrição – Beatriz explicou entre gemidos.
Sirenes invadiam o planalto central. Cheiro de fumaça espalhava-se no ar. O país agonizava, mas isso já não me dizia respeito. Agarrado às ancas de Beatriz, pensei que a canalhice ainda era a melhor forma de viver.

Contagem:  989 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto primoroso, por sua intensidade, coerência, trama, atmosfera, alusões, originalidade. O personagem narrador é original e muito bem caracterizado. A narrativa é desenvolvida em um tempo-espaço surpreendente e provocativo, com uma linguagem concisa e muito bem polida.

Celso Bächtold

O estilo meio clássico com que o autor nos brindou nesse conto dá um brilhantismo extra. Entretanto, senti falta de uma escalada nas emoções que desse um ritmo mais forte ao texto, bem como da existência de um ápice definidor. O conto ficou, então, linear demais. O título também poderia ser outro, mais atrativo e inusitado, uma vez que me pareceu dejà vu demais, não correspondendo com a beleza do conto.

Paulo Fodra

Narrativa densa, quase poética, que se apropria dos temas desta provocação com muita habilidade para contar uma história interessante de um ponto de vista bastante original. A trama, apesar da pouca verossimilhança, se beneficia muito do ótimo tratamento do texto para negociar com o leitor a suspensão da descrença.

Roberto Klotz

Abertura sensacional. Dá vontade de ler mais. E eu li e não me decepcionei. Criatividade latejando pelos parágrafos. Nota dez para o “Departamento de Aquisições”. Demorou um pouco demais na introdução do personagem no cenário candango. Atendeu às provocações com inteligência. A levada do conto foi tão forte que decaiu um nadica no bom fechamento.

Simone Pedersen

Os elementos do desafio foram atendidos, mas o crachá não é objeto-chave. Detalhes que não entendi: buscar o homem no quarto do hotel, com privacidade e cama, e levá-lo para a praça. Pareceu-me forçar o cenário. Não basta estar bem escrito, tem que ser verossímil. Uma questão ética é importante nessa história, mas quem mandaria dinheiro pelo malote, em um envelope aberto e com destinatário errado? No Brasil, ainda? Gostei muito do início, até “fantasias”, e gostei da última frase. Indicaria para um amigo ler, elogiando a escrita do autor.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  10,0
Celso Bächtold  9,0
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz 9,7
Simone Pedersen  9,0
Total 47,7