Paralelos vizinhos

Charles C.

Três da tarde. É a hora que ele sempre sai.
Coloca a camisa, guarda as coisas, esconde a caixa no armário e acabou. Chega de espiar. Volto para meu computador. O telefone toca:
— Importações Alvorada, boa tarde.
Meus dias passam assim. No começo achei que trazer o escritório para casa seria uma boa. Não é. Acordo, almoço, trabalho, espio e durmo no mesmo lugar, sem ninguém com quem conversar. Tenho de encontrar distrações incomuns. Viver e trabalhar num apart-hotel tem disso.
Oito da noite.
A fina parede de gesso anuncia: ele chega. Tira a caixa do armário e se olha triste no espelho. Despe-se, coloca a caixa na mesa diante da cama, pede uma pizza e começa a trabalhar, de costas para o buraco por onde eu o espio. Sua plateia são uns papeizinhos retangulares colados na parede que daqui parecem pequenos retratos.
— Calabresa, sem borda.
A mesma pizza, da mesma pizzaria. Todo dia no mesmo horário. Posso até ajustar o meu relógio pela hora que ele chega e sai. Três da tarde e oito da noite. Se ele fosse menor eu conseguiria ver alguma coisa daqui.
E enquanto não vem a pizza, a cabeça desanimada trabalha em alguma coisa naquela caixa. Há exatos vinte e três dias, desde que chegou, é a mesma rotina. Um gigante, de certamente mais de dois metros de altura, com um sino imenso tatuado nas costas e uma caixa. Este é o meu vizinho de quarto do mês. Tinha sonhos mais interessantes com a fogosa morena do mês passado. Mas, fazer o quê?
Primeiro ele abre a caixa como se fosse uma encomenda. Contempla o conteúdo, sem emoção, organiza alguma coisa. Já pensei que pudessem ser livros. Pelo tamanho, só se fossem uns dois ou três dicionários. Descartei outras hipóteses. Fotografias? Um quebra-cabeças? Uma relíquia religiosa? Nenhuma delas me pareceu razoável.

Na recepção, curioso.
— Quem é o grandão? Conhecem?
— Nem sei se fala. Nunca abriu a boca.
— Já reparou que chega e sai todo dia na mesma hora?
— Nunca.
Subo.
O apartamento dele está aberto. A camareira arruma a cama, tira o lixo. Cheiro de pizza. Se ela pelo menos deixasse a porta aberta e me desse uns quinze segundos…
Não tenho coragem.
Oito horas.
Ele fecha a porta atrás de si. Abro devagar o buraco e continuo minhas observações. Não liga a televisão. Trabalha por meia hora e fecha novamente a caixa. E a pizza chega. Calabresa.

Decido segui-lo.
Ele ruma do apart até o Palácio do Alvorada. Entra por um acesso lateral. Dou uma de turista. Fotografias com o celular. Volto.

Crio coragem. Me aproximo da camareira. Vou oferecer uma gorjeta por uma espiada mais qualificada dentro da suíte.
— Boa tarde… Eu…
— Pois não?
Travo. Não consigo. Dou uma desculpa qualquer.
Espero até as oito.
Se pelo menos ele tivesse as costas menores. Deve ser militar. Não tem trinta anos. Musculoso. Calado. Olha sempre para os próprios pés.

Fecho a contabilidade do mês e volto para o Alvorada. Lá vem ele, caminha sem vontade. Não me vê, finjo que falo ao telefone.
De volta à suíte: caixa na mesa, trabalha por trinta minutos, fecha a caixa, armário e pizza. Sino é disciplina, mas também serve para afastar espíritos malévolos, diz o site que pesquiso. A informação não ajuda. Um homem gigante, uma caixa, um sino nas costas e uma rotina imperturbável.

Tenho duas entregas a fazer no meio da tarde e aproveito para passar de novo no Alvorada. Estaciono o mais distante que posso. Caminho como quem não quer nada e me aproximo da entrada. Em alguns minutos troca a guarda e um grupo de turistas reverbera ansiedade. Não queria estar na pele do militar que, imóvel, se obriga a segurar os olhos na direção do Paranoá. Achei que ele pudesse estar ali, naquela função inglória. Mas meu vizinho não aparece. Desisto. Puxo a chave do carro no bolso e…
Ambulância.
Chega uma ambulância.
Estridente, passa pelos cones e acessa o Palácio. Penso no presidente, mas com tanta gente trabalhando ali, o menos provável é que a ambulância seja para ele. Cinco minutos depois chega um carro do Exército. E polícia. Muita polícia. Em menos de vinte minutos conto doze carros passarem para dentro.
O guarda, antes seguro, exibe desconforto. Já passou da hora da troca. Quanto dura cada revezamento? Duas horas? Uma?
Já perdi tempo demais nisso. Volto ao apart-hotel.

Oito horas e o gigante não chegou. Oito e meia. Oito e quarenta e cinco. Nove horas.
Desço para a recepção.
— O hóspede do dois mil e quinze não chegou ainda.
— Como?
— Ele sempre sai às três e volta às oito. É estranho.
— Uma hora de atraso é estranho?
Desisto.
No saguão sou um cachorro sem dono à espera de meu vizinho desconhecido. O apresentador do plantão policial noticia o suicídio de um guarda dentro do Palácio do Alvorada. Até isso agora?
Não dou bola.
— Espera aí. Um guarda se suicidou?

— Eu era amigo dele — minto à camareira na manhã seguinte, e ela me deixa entrar. — Preciso ficar um pouco sozinho.
Respiro.
Na caixa, um Houaiss, duas canetas, uma preta e uma vermelha, e umas duzentas folhas escritas à mão. Poemas datados. “Paralelo Quinze” nos dias pares e “Paralelo Vinte” nos dias ímpares. Sempre os dois títulos. Uma cor para cada. Dom Bosco e sua profecia são a inspiração. Estão por toda parte.
Fecho o jazigo da sua poesia e o devolvo ao armário. Que fique onde está.
Não.
Melhor não.
Levo comigo.
Como único amigo que não fui, preciso compreender um pouco o que ele sentia.

Contagem: 933 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O texto me envolveu como cúmplice, espiando junto pelo buraco da parede. A tentação do personagem entrar no espaço físico do observado, e a revelação , em tom intimista, da sua falta de coragem, despertam a curiosidade e o instinto voyeur do leitor. Assinalo uma inconsistência: como o narrador poderia observar tão detalhadamente o comportamento do personagem, saber que ele “contempla o conteúdo, sem emoção”, se o gigante de costas tatuadas se encontra “de costas para o buraco onde o espio”? Há algumas preciosidades que vale assinalar: “Não queria estar na pele do militar que, imóvel, se obriga a segurar os olhos na direção do Paranoá” e “Fecho o jazigo da sua poesia (…)”.

Celso Bächtold

Uma pequena falta de acentuação na primeira frase (É a hora…).
O uso reiterado das reticências pode causar uma certa confusão no leitor, com relação aos personagens ou ao tempo que o autor está tentando descrever. Portanto, sugiro usá-las com parcimônia, dando preferência para uma conexão escrita entre duas ideias que se quer exprimir.

Paulo Fodra

Conto interessante, bem escrito e com uma boa premissa. Porém, saiu da proposta ao não mencionar o santinho com a profecia de Bom Bosco.

Roberto Klotz

Tenso. Suspense total. Coseguiu me prender e atiçar a curiosidade. Devido à provocação, imaginei (erradamente) um santuário na caixa. Gostei muito. Desconfio que falta um “em” na frase “pela hora que ele chega”. Na frase “Sino é disciplina” provocou um desvio de atenção. Primeiro julguei que o narador estivesse apelidando o vizinho de Sino. Sugiro trocar o “é” por “significa”.

Simone Pedersen

Elementos do desafio atendidos. Conto que amarra o leitor. O final aberto não me agradou. Não se trata do que vai acontecer depois. Gostaria de saber o porquê do esquisito do homem ao lado se matou. Talvez, se fechasse com um poema que ele escreveu, completaria o ciclo narrativo.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,3
Celso Bächtold  8,5
Paulo Fodra  8,0
Roberto Klotz  9,5
Simone Pedersen  8,5
Total  42,8