Paralelos

Enrico

Áudio 1: Curitiba, 20 de fevereiro de 2017.
Hoje decidi que vou morrer. Já não tenho as mágoas do passado e aprendi a suportar as dores de uma doença que, dia após dia, crava os dentes mais fundo. Nasci assim, sem maiores explicações da vida. Eu nunca soube o que é voltar para casa suado após correr um dia inteiro nas ruas. Nunca experimentei me equilibrar sobre uma bicicleta ou me machucar numa partida futebol. Assisto à vida da minha cadeira de rodas e, muitas noites, sonho que corro num campo verde e que chego num abismo que me joga para o mar. Desde a adolescência que os meus movimentos ficaram mais curtos. Por entre as paredes de madeira que divide os quartos, escuto minha mãe balbuciar preces a Dom Bosco pela minha cura.
Há alguns anos atrás, ela ponderou que apenas suas orações não seriam suficientes. Organizou ações entre amigos para arrecadar dinheiro e me levar a Turim. Queria que eu tocasse no corpo do Santo que dedicou a vida aos jovens. Relutei. Mas com os argumentos de que para Deus nada é impossível, vi-me forçado a ficar horas num avião. Depois, mais outras na fila que terminava em frente ao caixão com o corpo intacto de São João Bosco. Mamãe caiu de joelhos e eu tentei orar. Tive dificuldades. Possuo capacidades lógicas que me impedem de ver algum sentido na fé. Considero minha doença um dado estatístico. Sou um caso em cem mil.
Contudo, enquanto eu tentava me concentrar na reza, fui surpreendido pelo bater de um sino. O som não vinha da Basílica onde estávamos e sim de um lugar distante. Era um resto, um fio de badalo. Por alguns instantes em que a razão se distraiu, senti-me envolvido pelo canto do instrumento que me levou a um lugar desconhecido dentro de mim. Durante a viagem de volta, relatei a experiência à minha mãe. Ela chorou comovida e se agarrou com mais esperança ao santinho que sempre levava consigo. De volta para casa, anunciei que faria uma tatuagem. A ideia não foi bem recebida pelos meus familiares, mas não conseguiram me convencer do contrário. Então, no dia em que fiz dezoito anos, exibi feliz um sino tatuado sobre o lado esquerdo do peito. Mostrava-o a todos. Era a minha maneira de lembrar da experiência transcendental que tive na Itália.
Os tempos de agora são de avanços e retrocessos. A tatuagem e seu significado começam a desbotar em mim. De um lado, o corpo me empareda cada vez mais. Articulo a fala com dificuldade e a visão está cada vez mais turva. De outro, novos equipamentos e técnicas me ajudam a prolongar a vida. Estar vivo ainda, representa um milagre para a minha mãe que vê a mão de Deus em tudo. Estou com mais de vinte anos e a única coisa que me dá liberdade é o aparelho de oxigênio portátil, para onde canalizo as frustrações dos meus dias. Nos últimos dias tenho voltado a ouvir, insistentemente, o toque de um sino.
Decidi que preciso agir enquanto me resta alguma autonomia. Quero encerrar o ciclo. Ontem, com a pequena sobra de movimento da minha mão direita, apertei o joystick que dá mobilidade à cadeira de rodas. Ironicamente, penso melhor em movimento. A resposta que eu procurava veio do altar da minha mãe, num santinho que caiu sobre o meu colo. Com esforço, inclinei a cabeça e li a profecia de Dom Bosco sobre Brasília. Ao final da leitura, eu já sabia o que deveria fazer.
Áudio 2: Brasília, 02 de abril de 2017.
Levei uma semana para explicar à minha mãe que queria conhecer a capital. Usei especialmente os olhos para me comunicar. Ela é a única que ainda me compreende bem. Confesso que para convencê-la, fui da chantagem emocional ao apelo à profecia do Santo. Foi depois de um mês de preparativos e retirada de dinheiro da poupança, que entramos hoje na suíte do apart hotel que eu escolhi.
Ainda há pouco, ao olhar pela janela, vi o silhueta do Palácio. Pensei que minha decisão poderia ser diferente se as leis do País fossem outras. Meu ato será silencioso, mas espero que a escolha pela Capital faça algum barulho depois que eu partir. Fixei os olhos para além do Alvorada, para o lago que me pareceu uma névoa borrada. Deixei que mamãe se refizesse da viagem e em seguida lhe pedi que fosse na farmácia buscar medicamentos. Eu, deliberadamente, deixei que os meus caíssem no chão do aeroporto. Fiz o cálculo de quanto tempo deveria esperar para que ela se afastasse e eu pudesse, então deixar este áudio e sair do quarto.
Áudio 3: Curitiba, maio de 2018.
Em pouco tempo eu estava às margens do Paranoá. O sino batia cada vez mais próximo e acelerado. Em breve a morte iria me envolver e tudo silenciaria. Repassei as imagens da minha vida e nada havia nelas que não fosse uma sucessão de tentativas de me manter vivo. Quando a cadeira já tocava a água e a batida me ensurdecia, uma mão deteve minhas intenções. Já não havia qualquer som. A jovem que se agachou diante de mim, pediu-me para que eu parasse. Disse-me que ela mesma já o desejara fazer um dia. O olhar dela sinalizava que me compreendia e por isso eu a amei. Amei naquele momento e em todos os outros em que nos tornamos amigos. Eu aprendi a usar um celular adaptado para me comunicar com ela à distância. Durante a noite, deixamos os aparelhos ligados para ouvir a respiração um do outro. Esqueci-me de morrer. Vivo como todos, sem saber o momento em que partirei. Sei que por entre os paralelos quinze e vinte se realizou a profecia que um dia eu li num santinho. Foi lá que eu encontrei a minha parte de terra prometida e, onde agora, um sino toca mansamente no compasso do meu coração.

Contagem: 986 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está interessante e imaginativo, em especial por envolver um protagonista tão único.
Há alguns problemas com os tempos verbais. O tempo verbal do conto não deve ser confundido com o tempo em que as ações acontecem. Assim, deve ser evitado misturar tempos verbais no presente e no passado, que apenas geram confusão para o leitor. No conto, vemos “articulo”, “estava”, “estou”, “batia”, “começam”…
Um problema mais complicado, de ritmo, está no final: Após um texto onde as ações são descritas de maneira lenta, se saltos, em poucas frases se resume um longo período de tempo: “Amei naquele momento e em todos os outros em que nos tornamos amigos. Eu aprendi a usar um celular adaptado para me comunicar com ela à distância. Durante a noite, deixamos os aparelhos ligados para ouvir a respiração um do outro.”. Este tipo de construção deve ser evitado, pois quebra o ritmo e causa estranheza ao leitor mais experiente.
Há ainda algumas incorreções no português (como “meu corpo me empareda” ou “o abismo me joga”), mas que podem ser aceitas à guisa de liberdade artística.

Ana Vilela

O texto foge ao lugar-comum do cenário político, o que, por si só, já é um mérito. Integra os três elementos valendo-se da sensibilidade e da sincronicidade. O narrador em primeira pessoa está bem construído e o texto é leve, mesmo diante de tema árduo. Os fatos estão bem concatenados, construindo um roteiro factível. Apesar de o final se estender além do que devia e, aí sim, cair no lugar-comum, toca o leitor porque não se vale de outro clichê: um milagre qualquer e a cura. Porém, um amor que nos salva já é algo também muito batido. O conto corre bem até esse ponto. Talvez (digo talvez) o desfecho devesse ser melhor pensado.

Exemplos de cuidados necessários, afinal lapidar o texto é também parte da escrita. Sempre vale a dica de deixar o conto dormir, que seja um dia, diante do curto tempo, e, depois, fazer releituras minuciosas, com atenção aos detalhes. Pedir que alguém leia e revise também é muito válido, afinal, nem sempre vemos os próprios erros. Os olhos acostumam-se com o texto.
Vamos lá: “Há alguns anos atrás, ela ponderou…” – ou “há alguns anos” ou “alguns anos atrás”; “…frustrações dos meus dias. Nos últimos dias…” – evitar repetições próximas, como a da palavra dias.
Exemplos de partes que pedem revisão: “com ela à distância” – há controvérsias, mas, em geral, a crase neste caso é usada quando há um dado: à distância de 50 km, por exemplo; “Por entre as paredes de madeira que divide os quartos” – concordância; “Estar vivo ainda, representa um milagre para a minha mãe que vê a mão de Deus em tudo” – vírgula…

Betty Vidigal

Conto bonito, personagem bem construído. Fica dentro do plausível, dentro da realidade.

revisão:
• “as paredes de madeira que divideM os quartos”, “a silhueta”… correções que dependem apenas de você ter revisado o texto com maior cuidado.
• “Há alguns anos atrás”- ou você diz “há alguns anos” ou “alguns anos atrás”. Essa redundância é muito incorreta.
• “Possuo capacidades lógicas”– melhor “tenho”. Mas melhor mesmo é não usar esse tipo de verbo, referente a posse, nesta frase. Talvez “minha capacidade lógica me impede”, ou “não me permite”, etc.
• muitas vírgulas faltando, algumas vírgulas sobrando.
• Como você usou uma linguagem formal, melhor oração do que reza.

João Paulo Hergesel

A conversão da profecia na descoberta do amor fraternal foi uma escolha bastante cativante. Funcionou, pelo menos para mim. Fazer uma abordagem sobre a desistência da vida e uma reconsideração pessoal sem cair no clichê é difícil, mas o conto conseguiu concretizar o propósito. Senti falta apenas de uma exploração maior no apart hotel, que aparece timidamente e sem razão enfática de estar ali.
Considerações estilísticas:
1) Nunca se deve redigir “Há alguns anos atrás”, a não ser que se queira cometer um vício de linguagem que aproxime da oralidade (pleonasmo vicioso). Ou se usa “Há alguns anos” ou “Alguns anos atrás”. Poder-se-ia alegar que, como faz parte da transcrição de um áudio (narração em primeira pessoa), tal desvio é permitido; entretanto, ao se levar em consideração todo o cuidado com a norma padrão ao longo do texto, nota-se que realmente foi um equívoco e merece ser corrigido.
2) De “zero” a “dez”, pode-se grafar por extenso. A partir de “11”, grafa-se por algarismos, excetuando “cem” e “mil”. Casos isolados: costuma-se usar algarismos para horas, datas, idades, endereços, valores monetários, porcentagens, graus de temperatura, graus de latitudes e longitudes, comprimentos, pesos, capacidades, áreas, volumes, resultados esportivos, resultados de votação e números sequenciais.

Oswaldo Pullen

Conto razoável, comprometido, no entanto por um final xôxo e piegas.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 8,3
Ana Vilela 8,5
Betty Vidigal  8,5
João Paulo Hergesel  9,5
Oswaldo Pullen  8,6
Total 43,4