#pededireito

Enrico

Ana Maria ensaiou o melhor ângulo para a nova selfie. Jogou o cabelo para o lado, enquadrou o espelho d’água, sorriu para o celular e tocou a tela. Repetiu a operação várias vezes até que a foto ficasse perfeita segundo o seu julgamento. Poucos instantes depois carregou o seu sorriso no Insta, no Face e no Twiter com as hashtags #boranergizar, #forcadocristal, #gratidaodialindo. Concluída a tarefa de atualização nas redes, cumpriu a promessa de encaminhar a foto para a coach de relacionamento com o título mais uma missão cumprida.
Alguns dias antes a conselheira lhe dissera para se mostrar positiva nas redes. Era importante expressar palavras de motivação para que assim o universo conspirasse a seu favor e lhe trouxesse o marido de volta. Seria tudo uma questão de focar com intensidade naquilo que desejava. Deveria ainda seguir à risca uma série de orientações para construir a imagem de uma mulher saudável e sensível ao mundo à sua volta.
A ida ao Parque de Cristais foi uma das resoluções que tomara para sair da zona de conforto e por isso acordara mais cedo que o habitual. No entanto, com o sol aquecendo e com a secura do ar de Brasília, batia um certo arrependimento. Preferia o ar condicionado do shopping. Pensou em limitar a caminhada ao registro fotográfico, foi quando lembrou que a mãe lhe ensinara, ainda criança, que uma vida boa exige alguns sacrifícios. Abandonar o marido para morar com o deputado não se mostrara uma boa ideia. Precisava reverter a situação rapidamente. A mesada do político estava acabando e com ele preso e as contas bloqueadas os tempos andavam nebulosos. Já o ex-marido tinha crachá de mestre de física da Universidade de Brasília. Foi fincando o pé na reconquista do docente que ela passou por debaixo do buriti e se pôs a caminhar no Parque.
Mais tarde, já em casa, sentiu-se novamente desanimada. Os escândalos ligando o seu nome ao do congressista haviam afastado as amigas. Nem mesmo a mãe lhe prestara socorro. Sentia falta das atividades sociais, das festas e dos jantares ao lado do deputado. A intenção de trazer o professor de volta, ainda que se mostrasse necessária, não lhe dava prazer. Sequer sentia saudade, seria apenas voltar a vida estável e medíocre de antes. Esses pensamentos a deixaram deprimida. Buscou a bolsa e tateou até encontrar a cartela de Rivotril. Desistiu assim que viu que se tratava da última pílula. Poderia aparecer situação mais importante em que se fizesse necessário o uso do ansiolítico. Havia trocado o psiquiatra pela conselheira amorosa e agora, sem dinheiro, não conseguiria nova consulta e, portanto, novas receitas.
Respirou fundo. Tinha que manter a foco. Pegou a caderneta com a lista dos itens que ainda estavam pendentes. E então nas semanas seguintes encheu as redes sociais de boas ações. Num dia pousava ao lado de um poodle desdentado com a #catiorosalvo, em outro abraçava uma senhora em um asilo e no dia seguinte uma menina no colo. Não teve maiores dificuldades em cumprir as tarefas, uma vez que tivera boas aulas com o amante. No entanto, nada poderia ser páreo para o seu deleite quando, ao final da terceira semana de hashtags da bondade, recebeu um like do ex-marido. O bom peixe tinha caído na rede. Ligou imediatamente para a coach e marcaram um café da tarde no Boulevard para comemorar o avanço e traçar as próximas metas.
Na verdade, não houve necessidade de outros planos. A salvação dos problemas estava a caminho e com o valoroso crachá no bolso. A determinada mulher estava saindo do banho quando ouviu tocar a campainha. A diarista, vendo que seu emprego estava na berlinda, tinha ido embora. Ana Maria teve que vestir o roupão e atender a porta. Lá estava o catedrático, tímido como sempre, parado do lado de fora. Quase foi preciso que ela o puxasse para dentro. Depois dos habituais como tem passado e como vai a família, ela discorreu sobre a sua nova vida, de como estava arrependida de tê-lo traído e das decisões que tomara para se tornar uma pessoa melhor. Ele ficou comovido com as palavras da ex-mulher que a faziam parecer ainda mais bonita.
Era previsto que ao final de algum tempo os dois estivessem abraçados e fazendo renovadas juras de amor. Naquela noite mesmo fizeram um único perfil no face juntando os nomes Ana Maria e Marco Antônio. Postaram uma foto de rosto colado com a #juntosefelizes. Pela manhã, Ana Maria levantou cedo. Adquirira este hábito com as orientações da treinadora. E como não seria mais necessário sair para caminhar, ligou a TV no momento em que noticiavam a soltura do deputado. As provas contra ele haviam se mostrado pífias, por isso o juiz determinara a sua liberdade e o desbloqueio das suas contas. Entrevistaram a mãe do parlamentar que dizia, entre soluços, haver pedido a Deus e ao universo para que a inocência do filho fosse provada. Ao final da reportagem, grossas lágrimas escorriam do rosto de Ana Maria. Ela percebera, então, que focara no alvo errado.
Voltou para o quarto. Marco Antônio dormia com a boca semiaberta e pelado. Adquirira uma notável barriga durante o período em que estiveram separados. Ela o olhou e engoliu o choro que lhe vinha a boca. Odiou-o. Pegou a bolsa e tirou de dentro dela a cartela que procurava. Aquele sim era o momento perfeito para o seu último Rivotril.

Contagem: 902 palavras

Comentários

Allan Vidigal

A história é bacana. Mas tem algumas coisas que, para mim, soam esquisitas. O pretérito-mais-que-perfeito simples usado repetidamente no terceiro parágrafo, principalmente (ainda que absoutamente correto) não parece encaixar muito bem com o ambiente contemporâneo do texto. Em alguns pontos senti um excesso de adjetivos. E, por falar em adjetivos, o crachá é mesmo “valoroso”? Ou seria “valioso”?
Mas, no geral, bom.

Cinthia Kriemler

O desafio foi cumprido. Todos os elementos citados estão no conto. É uma história um pouco clichê. A dondoca que gosta de luxo e riqueza, sempre procurando o homem que tem mais dinheiro. Achei que o crachá foi incluído de forma forçada nessa história. Inclusive, de forma errada. Deputados usam botton (broche), e não crachá (usado apenas pelos servidores das duas Casas Legislativas). É bom pesquisar antes de escrever. Atenção. Existem problemas de pontuação. E você fez o uso indevido de um verbo. “Pousar” é o que faz um avião. “Posar” é fazer pose para fotos. Portanto, o correto é “Num dia posava ao lado de um poodle…”

Marco Antunes

Nota-se a pobreza de estilo, em geral, pelos excessos. Veja o trecho “até que a foto ficasse perfeita segundo o seu julgamento”, a inclusão do desnecessário “no seu julgamento” só enfeia o texto e nada de relevante acrescenta. “com o título mais uma missão cumprida.”− Cadê a pontuação aí, gente?! Aliás, pontuar não parece ser a primeira preocupação do Sr. Enrico! O Segundo parágrafo é um primor de esquecimentos de vírgulas.
Ou o distinto autor adota logo o estilo do Saramago e some com os parágrafos, ou aprende, de uma vez por todas, o que é um parágrafo e passa a utilizar sempre que existir um. Crases também não são só decorativas, não, combinado? (“voltar a vida”). Fora os muitos erros de pontuação e a fraca noção de estilo na linguagem, o texto é bem razoável e tem um adorável sabor contemporâneo. Ainda prefiro contos em que a ação pode ser vista pelo leitor e não apenas narrada por um narrador egoísta, mas, como − no caso presente− há mesmo necessidade de ação interior, vou relevar desta vez. O entrecho é bom e razoavelmente verossímil. O final elegante e bem conduzido.

Nálu Nogueira

Adorei! Moderno, ágil, coerente, perfeito nas premissas da atualidade e com um final digno e divertido! Só aponto algumas construções pobres, que podem ser revistas, tais como: “Poderia aparecer situação mais importante em que se fizesse necessário o uso do ansiolítico” Não precisava ter usado o ansiolítico para não repetir rivotril. Bastava o “poderia aparecer situação mais importante”, estaria clara a ideia. Também há economia de vírgulas que, se utilizadas, facilitariam a leitura, mas entendi como opção de estilo do (a) autor(a) e relevei.

Wilson Pereira

O conto atende à proposta do concurso. A trama vem recheada de elementos e de fatos que a enriquecem, como a questão política, por exemplo. E os fatos estão bem articulados e bem estruturados. A linguagem é correta e bem elaborada, com literariedade.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,5
Cinthia Kriemler  8,9
Marco Antunes 8,0
Nálu Nogueira  9,8
Wilson Pereira  8,8
Total  44,0