Pedro e Paulo

Sitri

Os primeiros raios solares da manhã penetravam a porta de vidro sem esforço, estendiam-se pela extensão do quarto, e tocavam languidamente os lençóis brancos da cama. Ali, sobre o pequeno universo níveo, repousava um homem seminu, de estatura média, uma barriga protuberante, cabelos grisalhos e metodicamente despenteados. No seu rosto, não havia cicatrizes e as poucas rugas forneciam uma aparência jovial, mesmo que o tic-tac do relógio de sua vida marcava cinquenta e nove anos. Mas não era isso que mais chamava atenção, em seu peito continha uma tatuagem, mais precisamente um sino colorido à aquarela possuindo asas prateadas. Ele fez assim que abandonou o seminário, representando a libertação da religião. Da fé nunca. E era pela fé que hoje ele estava ali, instalado no luxuoso Royal Tulip, apart hotel próximo ao Palácio da Alvorada. O mesmo Palácio onde residia o recente eleito Presidente da República. O mesmo Palácio onde vivia majestosamente seu irmão gêmeo.
Quando o relógio apontou que faltavam seis minutos para às sete horas, Pedro levantou-se e vestiu-se com conforto. Seus olhos vaguearam pelo criado-mudo ao lado da cama, encontrando-se diretamente com o santinho de Dom Bosco em cima de uma folha amarelada e já bastante deteriorada, ainda existia o que restava da vela que ele acendeu na noite anterior como forma de devoção ao santo italiano. Três batidas na porta o despertaram de seus pensamentos. Ele sabia quem era.

– Está atrasado, Paulo! – disse com calma e dissabor, ao abrir a porta.

Paulo vestia uma túnica preta, com o capuz cobrindo seus cabelos e sombreando metade do seu rosto, de modo que dava para observar somente seus lábios finos, ocultando os belos olhos cor de mel.

– Você não sabe como é difícil o presidente do Brasil sair de sua residência sem ser notado – argumentou.

– Com essa túnica, duvido muito que ninguém tenha reparado em você. – Pedro comentou incomodado.

– Se alguém reparou, não disse nada. Consegui passar pela segurança do hotel, como nos velhos tempos, esgueirando-me deles. Como nos antigos tempos. Vá, você lembra Pedro, como eu era bom nisso?- expressou-se com uma euforia infantil.

Pedro, no entanto, ignorou essa euforia e apontou para o sofá vermelho, ordenando Paulo a sentar-se. Pedro fez o mesmo em seguida, numa cadeira próxima a pequena mesa redonda que havia no cômodo e fitou Paulo atentando-se ao fato que eles eram realmente idênticos, sendo o único diferencial a tatuagem em seu peito. “Pedro e Paulo…” meditou ele “ah, como é descuidado o destino enlaçando ironicamente esses nomes a eles”.

– Por que marcou esse encontro, Pedro? Já faz o que? Vinte anos que não nos vemos? Qual o motivo dessa inesperada reunião? – interrogou Paulo com interesse

– Você, com certeza, já deve ter ouvido falar da profecia de Dom Bosco sobre Brasília…

– Não me venha com esses misticismos. Sabes muito bem que não acredito nisso – interrompeu Paulo.

– Misticismos? Achas que tal profecia é misticismo? – Pedro estava visivelmente atordoado- Veja, Brasília está entre o paralelo 15 e 20, e foi construída exatamente quando começou a terceira geração salesiana. Não, Paulo, isso não é misticismo! É exatamente o que Dom Bosco previu há mais de um século. Misticismo… é o caramba!

– Você é muito nervoso para um quase sacerdote – proferiu Pedro zombeteiramente.

Paulo quase aceitou a provocação, mastigou amargamente as palavras e as engoliu. Ergueu-se da cadeira e foi até o criado-mudo, trazendo de lá a imagem do padroeiro de Brasília, colocando-a, com adoração, sobre a mesa branca.

– Tome, meu irmão! Dou-lhe esse santinho de Dom Bosco que comprei quando visitava o Vaticano, para lhe proteger nessa empreitada que tu enfrentarás! – Pedro proferiu as palavras como numa missa, relembrando os tempos de seminário.

– Perdoe-me, mas irei recusar. Repare, eu cheguei aqui, ao cargo mais importante do Brasil, sem ajuda divina. Não será agora que precisarei de ajuda dos céus.- mais uma vez as palavras ditas por Paulo foram marcadas nas tortuosas linhas da história brasileira de maneira debochada.

Paulo elevou-se do sofá e caminhou em direção a porta, sem reparar que o rosto de Pedro enrubescera-se em cólera.

No aposento presidencial, da televisão ouvia-se o âncora do telejornal:

“É com imenso pesar, que anunciamos a morte de Pedro de Assis Moreira, respeitado restaurador de obras raras e irmão do atual presidente do Brasil, Paulo de Assis Moreira. A polícia indica que foi suicídio…”

Duas batidas na porta, abraços longos e manifestações de pêsames. Finalmente, depois daquela mesura e condolências falsas, o presidente pode ficar sozinho e refletir mais sobre a conversa que teve com seu irmão. Com os olhos marejados, tirou seu paletó, gravata e camisa. Pode ouvir, como um ruído, o badalar do sino de um edifício de colunas góticas e vitrais azulados, esse badalar vinha do Santuário Dom Bosco e formava uma melodia soturna com os batimentos desenfreados do seu coração. Os dois sinos tocavam simultaneamente, o do Santuário e o do seu peito. Retirou a folha e o santinho do bolso, a escrita à pena, na língua italiana, profetizava:

“Quando vierem escavar os minerais ocultos no meio destes montes, surgirá aqui a terra da promissão, fluente de leite e mel, será uma riqueza inconcebível

João Melchior Bosco, 30 de agosto de 1883, Itália”

Pedro tornou-se presidente sem receber um voto e com as mãos sujas de sangue fraternal.

Contagem: 894 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

A história está interessante e conseguiu atender com imaginação à provação da semana. No entanto, a surpresa do final seria maior se não fosse mencionado que eles eram irmãos gêmeos idênticos até o final da história; na forma atual o leitor já deduz o final logo no anúncio da morte, tornando o final previsível.
Faltou, ainda, um objetivo maior para o personagem principal. O que ele queria, meramente entregar o santinho?
Detalhes: Há erros de pontuação, crase e ortografia que demandam uma revisão mais atenta. Além disso, no momento em que a narrativa dá um salto para o aposento presidencial, deveria haver uma linha em branco adicional ou uma marcação estilo “* * *” para que a quebra de ritmo não cause estranheza ao leitor.

Ana Vilela

O texto até começa bem. A imagem do homem no quarto do hotel instiga, o leitor quer saber quem é o sujeito, assim como o fato dele ser irmão do presidente. Surgem inúmeras ideias na hora. No entanto, o conto não se desenvolve bem. O texto é um pouco truncado, além de possuir erros de português. Há quebras sem sentido na narração, mostrando um enredo, uma trama frágil, e o fim também não se sustenta.
Exemplos de correções necessárias: “mesmo que o tic-tac do relógio de sua vida marcava cinquenta e nove anos” – marcasse; “Mas não era isso que mais chamava atenção, em seu peito continha uma tatuagem” – pontuação. Um ponto final depois de atenção daria mais força ao texto; “cadeira próxima a pequena mesa redonda que havia no cômodo” – à pequena mesa; para lhe proteger – para protegê-lo; “e caminhou em direção a porta” – à porta…
Exemplos de excessos, limpezas que podem ser feitas, entre elas, de alguns adjetivos, que devem ser usados com mais cuidado. Não é não poder usá-los, somente aplicá-los com mais critério, para não pesar o texto: languidamente, níveo; repetições – “como nos velhos tempos, esgueirando-me deles. Como nos antigos tempos.”; descrições que nada acrescentam – “cadeira próxima a pequena mesa redonda que havia no cômodo…” etc.
Corte brusco, que deixa o conto com um lapso, como se o leitor tivesse perdido alguma cena, algum fato. Do quarto do hotel, o presidente já está em seu aposento presidencial e já rola a notícia do suposto suicídio? Não que a cena do suicídio deva ser relatada. Longe disso, mas falta algo.

Betty Vidigal

− Isto não é um conto, é a sinopse de um romance. Pra contar direito essa estória, você precisa de pelo menos 50 mil palavras. Precisa construir clima e conflitos, para dar credibilidade a tudo. O começo ia bem, prometia um bom conto. A partir do ponto em que fala na tatuagem o nível caiu.
− Mas precisa também assimilar uma linguagem correta.
Revisão:
• “mesmo que o tic-tac do relógio de sua vida MARCASSE cinquenta e nove anos”
• muitos erros de linguagem. Inclusive de acepção das palavras.

João Paulo Hergesel

Eu esperava que o desfecho trouxesse alguma troca de irmãos, pelo fato de o conto ter sinalizado que eles eram gêmeos e somente a tatuagem os diferenciava; pelo fato de o irmão presidente desfazer a crença do outro; pelo fato de o irmão sacerdote ter entrado em cólera sem que o outro percebesse. Enfim, o conto é muito bom, mas há algumas passagens que extrapolam o limite para serem dicas e se tornam breves revelações do final.
Considerações estilísticas:
1) A onomatopeia “tic-tac” pode ser substituída por “tique-taque”, forma aportuguesada registrada no Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa (VOLP). Em tempo: para a construção do verbo, omite-se o hífen e cria-se “tiquetaquear”.
2) De “zero” a “dez”, pode-se grafar por extenso. A partir de “11”, grafa-se por algarismos, excetuando “cem” e “mil”. Casos isolados: costuma-se usar algarismos para horas, datas, idades, endereços, valores monetários, porcentagens, graus de temperatura, graus de latitudes e longitudes, comprimentos, pesos, capacidades, áreas, volumes, resultados esportivos, resultados de votação e números sequenciais.

Oswaldo Pullen

O conto é bom, com final inesperado. Faltou, talvez, algum elemento que tornasse o desfecho mais natural.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão  7,3
Ana Vilela 7,5
Betty Vidigal  6,2
João paulo Hergesel  9,0
Oswaldo Pullen  9,0
Total 39,0