Piquenique Noturno

Assis Nóia

O coronel Sávio terminava de abotoar sua gandola militar defronte o espelho quando Meredith se enfiou dentro do closet com algo na boca.
“Ô, lindinha, que é isso?” – indagou o homenzarrão com voz sedosa, enquanto a maltês se enroscava em seu coturno.
Arrancou dela um crachá oficial. “Alfredo Pereira, chefe do Gabinete do Depto. de Informática”. Viu seu reflexo atordoado. Ouviu o salto escandaloso de Analú agredir o piso de madeira e guardou o objeto no bolso. Ela entrou no closet, exalando a perfume francês, exibindo um coque e um sorriso arejado de onisciência.
“Meu bem, não quero me atrasar. Já fiz tudo e você ainda aí, enfurnado nesse closet. Não é todo dia que sua Luluzinha aqui toma café da manhã com a mulher do ministro não, viu? Tudo pela sua futura candidatura a deputado, meu coronel!”
A dondoca apanhou a cadela no colo e se retirou.
Sávio bufou o espelho. Tudo embaçado.
Em um pátio da base militar, um grupo de soldados batia continência para o coronel.
Não muito longe dali, Alfredo, sujeito com cara de nerd, acionava um contato em seu Iphone: “Lulu”.
“Atende, vai…” – suplicava, enquanto observava o coronel encerrar a atividade.
Analú trepava com o ministro da Transparência. Alfredo deixou um recado na caixa postal:
“É urgente. Acho que esqueci meu crachá na sua casa. Beijos.”
Mal terminou de gravar a mensagem quando notou que o coronel lhe relanceava um olhar triste, enquanto voltava para os aposentos.
Sávio ficou ruminando aquela dúvida. O crachá, vez ou outra, rodopiava em suas mãos. Marcou com Analú um piquenique na Praça dos Cristais, depois do seu expediente. Disse que conhecia um recanto do mais puro sossego, e que teria algo especial a ser comemorado.
O sol se punha com maestria quando Analú e Sávio terminaram de aprontar o piquenique.
“Até agora não entendi esse horário…”
“Não quero que os companheiros me vejam fazendo um piquenique.”
“Mas por que logo isso?”
“Lulu, aprecie a simplicidade das coisas, o por do sol. Além do mais, logo teremos uma companhia muito agradável.”
“Como assim?”
Mal terminou de indagar quando ouviu a voz de Alfredo.
“Alfredo, meu caro. Sente-se conosco.” – disse o coronel, com um sorriso perigosamente receptivo.
“O que significa isso?”
“Essa é minha esposa, Analú.”
Analú, numa vã tentativa de expressar naturalidade, apertou a mão de Alfredo, que, por sua vez, ainda estacava os pés na terra, perplexo.
“Senta, Alfredo. Preciso te entregar uma coisa.”
Alfredo se sentou ao lado de Analú; ambos tensos.
O coronel, montado em sua farda, arrancou do bolso o crachá e o entregou a Alfredo, que esticou o braço para apanhá-lo.
“O que você quer de mim, Sávio?”
“Já nem sei mais. Mas o que sempre quis, de verdade, foi sua honra. E seu amor.”
Analú lançou um olhar aturdido para Alfredo.
“Sei que ela me trai com Deus e o diabo. Mas você pra mim é só status, Analú. Já você, Alfredo…”
“Espera: vocês dois…?”
“Analú, é uma história complicada.” – adiantou-se Alfredo, com a voz trêmula.
“Viados filhos da puta.”
“Sávio, vamos conversar. Com ela foi só uma vez, eu juro.”
“Estão vendo essas duas garrafas de suco de laranja? – o coronel aponta com o cano do revólver – uma delas tem veneno, em dose fatal. Decidi que vou deixar meu destino nas mãos do acaso. Peguem, bebam. Boa sorte.”
“Não faz isso, Sávio. Eu te amo!”
“Sem apelações, né, meu bem.” – ironizou a dondoca.
“Calem a boca e bebam o suco ou eu mato vocês dois. Os dois!”
“Coronel, não seja estúpido. Você tem um futuro brilhante. Será deputado, senador e se depender dos meus esforços, chegará à presidência! Vai sujar sua carreira com nosso sangue?”
“Eu mato e morro pela honra, Analú. Só a honra me importa. Bebam!”
Alfredo já estava aos prantos quando apanhou uma das garrafas. Analú hesitou, e se sujeitou àquela maldita versão da roleta russa no parque. Sorrateira, encolheu-se e fingiu sofrimento enquanto arrancava um punhal da cinta-liga sob o vestido. Alfredo implorava piedade. O coronel tentava se manter impassível. Analú se aproveitou da distração e avançou com a lâmina afiada no pescoço de Alfredo, fincando-a em sua jugular. Alfredo convulsionou e o sangue espirrou em abundância sobre as guloseimas. Furioso, o coronel mirou na cabeça da esposa.
“Vai, atira! Sempre soube desse casinho de vocês. Queria mesmo era tirar essa bicha do nosso caminho. Um estorvo que poderia por tudo a perder. Imagine só se descobrem isso. Já era sua vida! Eu, como você bem disse, represento seu status, não foi? Pois então, isso aqui foi pra salvá-lo.”
“Vagabunda!”
“Até mesmo os que não gostam da fruta, não resistem aos meus encantos. Foi moleza seduzir esse imbecil e levá-lo pra nossa cama. O crachá eu mesma armei pra que ficasse lá. Vocês dois terminariam o relacionamento e pronto. Mas não, você optou pelo caminho trágico da coisa e acabou me envolvendo nessa ideia macabra de piquenique. Tinha certeza que ia dar merda e providenciei o punhal e uma carta, endereçada prum amigo jornalista, sabe? Uma carta que revela tudo de vocês, inclusive fotos, viu? Que eu não sou boba nem nada.”
“Você está blefando!”
“Pague pra ver. Atira. Acaba com a minha vida. Mas fique sabendo que sua honra também vai pro ralo.”
Sem mais pensar em nada, o coronel enfiou a arma na bainha e correu até Alfredo, que agonizava tombado na grama, em espasmos. Sávio o acolheu nos braços e desatou a chorar. Já não tinha medo, nem rancor, nada.
Alfredo deu o último suspiro com os olhos esbugalhados. O coronel, no ato mais intempestivo e corajoso de sua vida, arrancou o revólver da cintura e explodiu os miolos.
Tudo desembaçado.
A maçã verde tingida de sangue. O olhar apavorado de Analú. Sem conseguir processar coisa alguma, a viúva pegou o crachá caído na grama, afastou o corpo do coronel de cima do de Alfredo e o prendeu no peito do chefe de gabinete.
Agora sim, finalmente, seriam aceitos pela sociedade: mortos e bem identificados.

Contagem:  999 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O conto começa bem, com a convincente cena do closet e uma primorosa caracterização da personagem Analú (adorei o verbo agredir para caracterizar o efeito do salto sobre o piso). Mas falta tensão e intensidade dramática, o que reduz drasticamente o efeito do inesperado. A trama ficcional é interessante, mas a tessitura textual precisa torná-la mais convincente.

Celso Bächtold

Texto muito bem escrito, com todas as fases de um história dramática. Triângulos amorosos com um fim comovente são um tema por demais explorado, mas esse apresenta um diferencial, por envolver um assunto cada vez mais discutido em nossa sociedade, o homessexualismo. Apesar de conter muitas informações, deixando o leitor sem muito tempo para respirar, achei o conto muito bom.

Paulo Fodra

Trama rodrigueana excelente, e perfeitamente adequada ao tema da provocação. A narrativa, porém, é desnecessariamente desorganizada e confusa, com mudanças bruscas de cena. Falta polimento na forma para que a atmosfera do conto consiga “sugar” o leitor. Atenção com determinadas construções: o correto seria “defronte ao espelho”. Por outro lado, a frase “Ouviu o salto escandaloso de Analú agredir o piso de madeira” é primorosa. Capriche na revisão para melhorar a coesão do texto!

Roberto Klotz

Um revisor sempre pode cuidar dos tropeços, mas incomoda ver um “defronte o espelho” em vez de “ao espelho” logo na abertura. Tira o foco. Gostei da abertura apontando um conflito. Com as provocações imaginei pecados da carne, não crime de sangue: ponto para a criatividade. A linguagem falada é diferente da escrita. Sabemos. Entretanto observe que desde a frase inciada por “Você está blefando” até “vai para o ralo” há uma sequência de tu e você que incomoda os ouvidos. O fechamento precisava ser mais trabalhado porque se mostrou quatro parágrafos antes do final. Gostei da criatividade e da presença de diálogos.

Simone Pedersen

Um conto montanha-russa, cheio de viradas bruscas, que me cativou e surpreendeu. Todos os elementos do desafio estão presentes. Indicaria a leitura para um amigo.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,0
Celso Bächtold  9,6
Paulo Fodra  8,0
Roberto Klotz  9.0
Simone Pedersen 9.0
Total 43.6