Problemas no paraíso

Etienne Cachova

Quando o capitão Anésio Espinheira, de 48 anos, anunciou à esposa que sua transferência da cidade de Três Sinos para Brasília já era dada como “favas contadas”, Eugênia fingiu acreditar. Aos 39 anos de idade, casada com o militar há 15, já havia residido nos mais escabrosos grotões deste País.
Mas assim que puseram os pés na vila do Setor Militar Urbano de Brasília, Eugênia foi tomada pelo encantamento. A casa que passaram a ocupar tinha uma área construída de 210 metros, com garagem para dois carros, varanda, jardim e quintal aos fundos – uma residência mais que suficiente para um casal sem filhos. Além disso, o SMU contava com muitas praças, quadras poliesportivas, hospital e clubes militares.
Era, também, um ambiente propício à boa convivência, mas Eugênia não conseguiu estreitar laços de amizade: era considerada fútil em demasia pelas esposas dos outros oficiais – ou perigosamente sedutora. Já na concepção de Eugênia, o mulheril tinha mesmo era uma baita inveja de sua perfeição plástica digna das estrelas de Hollywood. Loura, longilínea, olhos negros, Eugênia havia sido aclamada princesa de um concurso de beleza em sua cidade natal quando tinha 18 anos e, desde então, jamais se descuidou da aparência, com direito a roupas de grife e perfumes caríssimos. Além, é claro, do nobiliárquico narizinho arrebitado. Acrescente-se ainda que Eugênia passava as manhãs se embonecando em frente ao toucador e enchendo a paciência da diarista – a todo instante pedia um suco de berinjela feito na hora, uma xícara de chá de cavalinha adoçado com sete gotas de sacarina, entre outras poções mágicas de emagrecimento.
Por volta do meio dia almoçava frugalmente – o capitão Espinheira preferia, sempre, comer na cantina da caserna. Após a refeição, Eugênia assistia ao noticiário e, às duas da tarde, saía a passeio – não sem antes embeber os seios com algumas gotas do perfume Billet Doux. Ao passar pela diarista, Eugênia não evitava os olhares da mulher, densos de repreensões – pelo contrário, sorria-lhe. É que não tinha culpa na consciência. Na verdade, Eugênia apenas adorava seduzir os homens, mas não tinha nenhuma intenção de transar. A única vez – há mais de dez anos – que traiu o marido foi com Abelardo, um belo e jovem assessor de imprensa da prefeitura de uma cidade do Paraná em cujo quartel o então tenente Espinheira prestava serviço. Alguém viu os amantes no motelzinho pereba, espalhou a notícia pela cidade. Por vários dias Eugênia esperou morta de medo que a informação chegasse aos ouvidos do cônjuge. Mas você contaria a um homem de quase dois metros de altura, queixada de buldogue e gênio de javali, que o cabeção dele estava florido de chifres? Nem eu. O militar permaneceu em sua doce ignorância e Eugênia tratou de resignar-se às cópulas caseiras.
No começo de sua vida no Setor Militar Urbano de Brasília, os passeios de Eugênia se resumiam aos logradouros perto de sua residência, até que um dia descobriu a Praça dos Cristais. Deslumbraram-na especialmente os enormes prismas de concreto que, pesquisou depois, eram criação do mundialmente conhecido paisagista Burle Marx. Fez da Praça dos Cristais o seu local preferido. Adotou o costume de levar um livro e sentar-se num dos bancos da alameda principal. Fingia ler, mas seus olhos buscavam os turistas. Uma pena que eram poucos.
Deu-se que numa quinta-feira, por volta das 15 horas, viu caminhando em sua direção uma figura que fez seu coração disparar. Aquele não seria Abelardo, o ex-amante? Era. Cumprimentaram-se com um aperto de mãos – ambos subitamente atingidos pelas chamas do desejo, mas desgraçadamente impedidos, naquele momento, de um abraço ou beijo – aqueles dois sabiam onde morava o perigo. Abelardo sentou-se ao lado de Eugênia e a conversa fluiu quente, apaixonada, sem nenhum constrangimento. Abelardo, quando perguntado sobre sua presença no SMU, explicou que estivera no Gabinete do Comandante do Exército. Tinha vindo buscar alguns documentos para o deputado federal Bianco Splendore, uma vez que era seu assessor parlamentar. Tirou o crachá do bolso do paletó e o exibiu. Eugênia pegou o documento, constatou que era legítimo, então o enfiou entre o sutiã e um dos seios. Queria brincar, a danadinha. Abelardo pensou em mergulhar a mão no decote do vestido, olhou em redor – algumas pessoas observavam os dois, curiosas. Deu de ombro: – Pode ficar com esse, tenho outro crachá de reserva – disse. E voltaram a fomentar, em conversas vulcânicas, as imagens libidinosas de uma tarde de transas jamais relegada ao esquecimento. Quando se despediram, Abelardo tinha o endereço do salão de beleza de Eugênia, fora dos limites do Setor Militar Urbano. Marcaram o encontro nas proximidades do estabelecimento, às 15 horas, na manhã seguinte.
Na tarde de sexta-feira os planos de Abelardo e Eugênia transcorreram conforme o combinado. E no apartamento do assessor exploraram seus corpos além de todos os limites, uma vez que já se passavam das sete da noite quando o capitão Espinheira, voltando do trabalho, não encontrou a esposa em casa. Ligou para o celular de Eugênia, em vão. A princípio o militar ficou apreensivo, mas à medida que o tempo passava – e sem conseguir contato telefônico – um sexto sentindo alertava-o para possíveis traições. Pela segunda vez, só para sossegar o coração, foi fazer vistoria na casa. No quarto do casal foi tomado pela raiva e com uma só braçada jogou no assoalho tudo o que havia sobre o toucador. O porta-joia delicadíssimo despedaçou-se, espalhando aneis, brincos, colares… E o crachá. Espinheira recolheu-o do chão. Sem os óculos, levou-o para bem perto dos olhos e, assim que acabou de ler o nome do assessor parlamentar, sentiu o perfume Billet Doux – mas que porra, o maldito crachá estivera aninhado aos seios de Eugênia! Foi à sala, sentou-se no sofá e ficou esperando. Meia hora após, quando Eugênia girou a chave na fechadura da porta, o capitão Espinheira espumava fel pelos cantos da queixada.

Contagem:  968 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está bem escrito, com alguns pequenos erros que uma revisão de português resolveria. A história, ainda que interessante, ficou muito linear, faltando alguma surpresa ou reviravolta para ficar mais interessante.
Detalhes:
Os parágrafos estão muito longos, reunindo diversas ideias que soariam melhor – além de tornarem a leitura mais fluida – se divididas em parágrafos diferentes.
Na frase “Alguém viu os amantes no motelzinho pereba, espalhou a notícia pela cidade” e nas seguintes, o narrador fala sobre um tempo passado antes do passado utilizado para a narrativa, pelo que deveria ter sido utilizado o tempo verbal pretérito mais-que-perfeito.
Há um momento em que o narrador interfere na narrativa lançando uma pergunta e completando com “Nem eu.”. Como toda a narrativa é em terceira pessoa, esta interferência, em especial o comentário em primeira pessoa, soou deslocado.

Ana Vilela

Texto bem escrito, limpo, correto, narrador bem-colocado. Mas a história é comum, não empolga, não pega o leitor. Histórias de traição já são tão batidas que requerem ou muita sutileza, ironia ou jogo de cintura, quem sabe, delicadeza. Ao final, não se sabe ao certo se o Espinheira está morto ou apenas puto da vida mesmo. Mas é interessante a dúvida. Apenas fica, ao final, a impressão de um fim muito abrupto, corrido, uma pressa em terminar (ou falta de espaço apenas).

Betty Vidigal

– legal. Ótimo que seja um “ex-amante”. Dá permanência à personagem, traz o passado para a estória, com uma única palavra.
Pelo meu gosto, eu preferiria que você apenas contasse que Abelardo era o ex-amante, sem entrar em detalhes. Sem contar de motel, nem das más linguas, nem que foi só uma vez que estiveram juntos. Deixar para o leitor a tarefa de imaginar se foi um relacionamento longo ou coisinha breve.
– “A única vez – há mais de dez anos – que traiu o marido foi com Abelardo, um belo e jovem assessor de imprensa da prefeitura de uma cidade do Paraná em cujo quartel o então tenente Espinheira prestava serviço.” Bela frase. Pouca gente é capaz de escrever um período tão longo sem tropeçar.
– Bom o final inconcluso.
–“doce ignorância”: lugar comum.

Revisão:
● – não precisa dizer “de idade”. “Aos 39 anos” basta. Acrescentar “de idade” só quando a frase ficar dúbia.
● – “Aos 39 anos de idade, casada com o militar há 15, já havia residido nos mais escabrosos grotões deste País.” – tem de ser “havia 15”. “Há” é para o presente. Mas, ao corrigir, você ficará com 2 “havia” na mesma frase. Tem que refrasear.
●– mulheril é adjetivo. O substantivo é mulherio (bem melhor que “mulherada”….) – Ok, verificando: Segundo o Houaiss, “mulheril” hj é aceito como substantivo, mas significando “grupo de prostitutas”. Nunca ouvi.
●– “cônjuge”, “logradouros”, “residência”, etc… palavras muito pomposas, adequadas para documentos oficiais, não para um conto. Muito menos com esse tema. Mesmo quea ação se passe numa vila militar. Se você optar por um estilo tão formal, o texto tem que ser coerente na opção. Por exemplo: “transar” não é uma palavra adequada; émoderninha demais. Teria que ser algo igualmente pomposo, como “ter relações sexuais” ou coisa equivalente. Mas, pelo tom geral do texto, é melhor você trocar as outras palavras.
●“Cumprimentaram-se com um aperto de mãos – ambos subitamente atingidos pelas chamas do desejo, mas desgraçadamente impedidos, naquele momento, de um abraço ou beijo – aqueles dois sabiam onde morava o perigo”.
Se você substituir o primeíro travessão por vírgula, a frase fica muito boa. Como está, o conteúdo entre travessões, se retirado, deixaria a frase um pouco capenga. E dois travessões servem para isso: para separar um trecho, mas deixando a frase completa mesmo sem esse trecho. Você usou 2 travessões aparentemente com intenção de quenão formem um par.
● “alguns documentos para o deputado federal Bianco Splendore, uma vez que era seu assessor parlamentar.”
basta dizer “assessor”, embora o cargo se chame “assessor parlamentar”. Já que é assessor de deputado, o “parlamentar” tá subentendido.
●o porta-joia: melhor “o porta-joias”.
●“já se passavam das sete” – o correto é “já passava das sete”.
“já se passava” é para tempó decorrido. Ex: “Já se passavam 10 anos desde que…” etc.
●anéis, com acento.

João Paulo Hergesel

Um dos grandes estímulos à riqueza de um texto contemporâneo é a leveza: quando as palavras parecem bailar em rodopios, a prosa se eleva de nível e fisga qualquer leitor. Infelizmente, senti que faltou essa salpicada de poesia para criar um diferencial. O final, além disso, mostra certa confusão: como o Capitão Espinheira sabia exatamente que o crachá “estivera aninhado aos seios de Eugênia”, se ele o encontrou no quarto? Quando a mulher o vê espumando, seria de raiva ou de algum veneno que ingeriu? Senti que o desfecho vago prejudicou o conto num geral. Comentários estilísticos:
1) É aconselhável usar hífen em “meio-dia”.
2) Travessões em meio de frases devem ser usados com parcimônia; existem outros tipos de pontuação que podem substituí-lo (dois pontos, vírgula, parênteses), dependendo do caso.

Oswaldo Pullen

Um conto com muito início e pouco final. O autor poderia ter se dado ao trabalho de limpar um pouco o início de forma a ter espaço para incluir um desfecho.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 8,7
Ana Vilela 8,5
Betty Vidigal  9,3
João Paulo Hergesel  9,3
Oswaldo Pullen  7,5
Total 43,3