Quase um dever cívico

Capitão Birobidjan

Indiferente aos miados e ronrons de seu gato serengeti, Luli Penido deixou o luxo da mansão no Park Way com destino à Praça dos Cristais, no Setor Militar Urbano de Brasília. Porém, escolhera o dia errado para seu desfile de Sete de Setembro fora de época. O povo estava nas ruas, dividido em cordões que pretendiam descollorir o país.
― É ou não é piada de salão? O chefe da quadrilha é o presidente da Nação!
― Com licença, madame ― solicitou o chofer pelo retrovisor. ― Pros lados do Memorial JK deve tá essa mesma algazarra. Melhor fazer um caminho diferente hoje.
― Apenas me tire daqui, Gastão. Deus, chega a ser risível a determinação desses meninos de rosto pintado. Como se o gado pudesse administrar o açougue… ― divagou Luli retocando a maquiagem.
As visitas da dondoca à Praça dos Cristais não se deviam à linhagem de urbanistas ramificada na árvore genealógica de sua família. Apesar da imponência arquitetônica dos enormes blocos de concreto, simulando quartzos irrompendo de um espelho d’água, Lucília Domitila de Castro e Penido buscava por outra expressão artística quando se colocou diante das esculturas.
― Eu teria me inspirado em diamantes.
Não demorou até um recruta passar por ali assobiando a Canção do Expedicionário. Aquele assobio era a verdadeira razão das idas da ricaça ao monumento. Desaprovada mais uma vez a instalação, Luli caminhou até os prédios onde os oficiais solteiros viviam. Bateu à porta de um dos apartamentos com familiar delicadeza e endireitou o tailleur junto ao corpo desprovido de juventude, mas carente de prazer.
A senhora Penido havia descoberto o grande herói da guerra dos sexos de Brasília. Ainda cadete, tenente Bauru resolvera transformar seus dotes físicos em um negócio paralelo. Ninguém na vila militar comentava a movimentação suspeita no apartamento 20. A despeito da rotina, as estatísticas diziam ser impossível que o oficial tivesse tantos tios e tias notáveis. Mas, como muitos dos visitantes mantinham relações estreitas com o alto escalão das Forças Armadas, todos faziam vista grossa sobre as reuniões familiares do combatente.
Queridinha dos colunistas sociais, Luli guardava um segredo de capa de revista. O risco sempre valera a pena, mas não naquele dia de agosto. Trajado como quem vai à missa, o rapaz desapontou-a ao pleitear uma conversa séria. Logo ele, que se expressava melhor quando não se ocupava de verbalizações.
― Conversar? Que coisa mais antipática! Se não tinha a intenção de tirar a roupa, por que mandou seu canário verde-oliva cantar em meu ombro?
Faminta, Luli lançou-se sobre Bauru. Aos tropeços e esbarrões, conseguiram chegar à cama usada como máquina caça-níquel. Enquanto gemia e gritava sobre sua cavalgadura, ela ouviu com satisfação alguém bradar no corredor do prédio: Brasil acima de tudo!
Depois do gozo, a mulher remexia as gavetas do criado-mudo atrás dos cigarros baratos que a ajudavam na digestão do sexo venal. Naquele domingo, junto ao maço de Belmont, ela encontrou um crachá ilustrado com um rosto conhecido.
― O que isso faz aqui?
O oficial tomou com rispidez o documento das mãos de sua cliente e o enfiou no cós da calça vestida às pressas. Estava enciumado da própria intimidade. Com um interesse que não lhe era próprio, Luli tragou do tabaco e, sem rodeios, inquiriu o amante:
― Conte-me sobre esse homem.
Bauru, apesar de contrariado, preferiu satisfazer a curiosidade da mulher e livrar-se dela antes da Casa da Dinda cair.
― Luli, você mora no Park Way, não é mesmo? Ele também. Me procurou porque não suporta mais a própria esposa. Disse que ela parece a Mansão dos Arcos: É vazia, extravagante e ultrapassada. Este crachá foi usado em uma conferência realizada na ONU. O Antero fez parte de uma delegação brasileira que tentou melhorar a imagem do presidente com os gringos. Bom, não é sobre meu outro caso que eu queria falar. Como direi isso, Luli? Lulinha, você é ótima, mas não poderemos nos ver de novo. Ele tem fazendas no Mato Grosso, é deputado federal e quer exclusividade. Acho que acabará seu casamento pra viver comigo. Um dia, serei eu o cara usando um crachá destes aqui.
― E você conhece a esposa do deputado Antero Barraforte?
― Só sei dos meus clientes aquilo o que me dizem. Nunca perguntei como é seu marido ou o nome dele, perguntei?
― Verdade ― assentiu Luli balançando a cabeça. ― E como meu jovem Braddock e esse partidão ficaram íntimos?
― Engraçado… Eu o encontrei na Praça dos Cristais. É onde meu passarinho canta pra você, certo?
― Não. Não é engraçado. Ainda engraxará muitos coturnos nesta vida, Bauru. O parlamentar no crachá é meu marido. Fui eu quem disse para ele procurá-lo naquela excrescência horrorosa. Antero e eu temos gostos semelhantes, compreende? Ah, não faça esse beicinho! Não suporto vê-lo assim. Esqueça isso. Posso usar seu telefone? Preciso avisar ao deputado que nosso soldadinho preferiu desertar. Entenda o meu lado. Uma das funções da esposa de um homem público é livrá-lo de distrações parasitárias. Não deveria ter ficado ganancioso, praça. Assim, esta capital não decola. Não há mais ufanistas nos bastidores. O poder está cercado de interesseiros.
Luli deixou sobre a estante da sala dinheiro suficiente para que seu amante pudesse comprar uma garrafa do melhor uísque. Quando protegida pela privacidade de seu carro, gritou impropérios em francês enquanto estapeava o banco da frente. Recomposta, pôs o ray-ban sobre o rosto ruborizado e declarou:
― Nunca quis me envolver em política. Por isso me casei com um cirurgião plástico. Bem, hoje eu abrirei uma exceção.
― A senhora vai encontrar o doutor Penido no Clube de Golfe?
― Ao menos uma vez na vida, Gastão, meu marido pode tomar um Kir Royale sozinho. Toca para a casa do deputado Antero Barraforte. Se aquele marajá não devolver aos brasilienses o que pretende nos subtrair, farei a imprensa invadir a Praça dos Cristais e só levantar acampamento quando um crachá da ONU for encontrado.

Contagem:  992 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

O conto está bem escrito, bem estruturado, e mantém um ritmo adequado. O texto induz o leitor a pensar que o final seria previsível, mas este é surpreendente, como se espera de um bom conto.
Quanto às possíveis melhorias, a explicação da Luli ao tenente Bauru ficou confusa: se Luli tinha dito para o “marido” procurar o tenente, porque ela achou que o tenente “preferiu desertar”? A única explicação que me veio seria de o tenente estar deserdando dela, quando ela queria que ele ficasse com ela e o “marido” – no entanto, isso ficaria incompatível com o que o tenente disse que o “marido” é quem pediu exclusividade. O resto da explicação também ficou confuso: se ela queria “livrar o marido das distrações parasitárias”, por que ela teria apresentado o tenente ao “marido”? Não faz sentido. Esta parte confusa comprometeu o conjunto.
Detalhes: Ao mencionar “fazer seu desfile de sete de setembro particular”, o autor restringiu o entendimento da frase apenas a quem sabe onde tal desfile é realizado; ao escrever é bom tomar cuidado com metáforas que fazem um conto ser “brasiliense” ao invés de nacional. O mesmo se aplica a usar a palavra “colloridos”, que ajuda a estabelecer o período da história, mas corre o risco de deixá-la “datada”, pouco compreensível para quem tem menos de 35 anos.

Ana Vilela

Texto bem escrito, maduro, correto, em que o autor conseguiu inserir todos os elementos exigidos, porém a história não empolga.

Betty Vidigal

Não sei o que dizer. O texto é muitíssimo bem escrito, inteligente, o ritmo das frases é de escritor profissional. Mas a estória é confusa.
A opção de situar a ação no momento em que os caras-pintadas se manifestam contra Collor foi muito interessante; a gente pensa: “ok: década de 90”. Mas cada detalhe num conto tem que ter uma razão. Se nada no restante da ação depende dos caras pintadas na praça, por que usar esse set up? Se a alteração no trajeto, provocada por eles, gerasse alguma ação dramática, ok. SQN.
– Por que a saída de Luli Penido com destino à Praça dos Cristais seria um “desfile de Sete de Setembro fora de época”, para o qual ela escolheu o “dia errado”? Uma mulher ir sozinha a algum lugar encontrar um gigolô não é um desfile, muito menos um desfile de 7 de setembro, ainda que o moço seja tenente.
– Luli ter urbanistas em sua árvore genealógica também não se liga a nada, no contexto. Se ela tivesse herdado deles algum traço de personalidade…
– O recruta que assobia a Canção do Expedicionário é o “canarinho verde”? Se é, de que se trata? Ele é cúmplice do tenente? Assobia para dar um sinal? Sinal do quê? Quarto livre? Não ficou claro isso do canarinho…
– Se o tenente disse que queria uma conversa séria, quando Luli chegou, supõe-se que ele tenha algo importante a dizer. A gente espera que o diga. Ok, ela atacou o moço antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, mas ele deve dizer depois o que pretendeu dizer antes… E não: não voltou ao assunto, não apareceu nenhuma conversa séria.
O crachá não pode ter sido o assunto “sério”, porque não foi ele quem puxou essa conversa. Surgiu por acaso, quando Luli mexia nas gavetas dele.
Se o que o tenente tem de sério pra dizer é “não podemos nos ver de novo”, ele não precisaria esperar a Luli encontrar o crachá ao remexer nas gavetas dele.
– E ele, tão discreto, que não pergunta nada aos clientes, não se importa de contar tudo da vida do amante, inclusive falando mal da mulher dele? Tá totalmente fora do caráter do personagem.
– Alguém ter gritado “Brasil acima de tudo”, assim como os caras pintadas, não se liga a nada, na estória. Ok, dá um colorido…
– Também não ficou clara essa coisa dos personagens Antero Barraforte e Penido. Afinal, ela diz que “o personagem no crachá é meu marido”. Parece falar do deputado. Mas o sobrenome dela é Penido. Era o marido, no crachá? o que ele foi fazer na ONU? Tá confuso….
E o pior é que fiquei querendo entender a estória.
revisão:
– quando você se refere a alguém pela função que exerce, é melhor pôr um artigo antes. “Ainda cadete, o tenente Bauru resolvera etc”

João Paulo Hergesel

Luli, Bauru e Antero são os ângulos de um triângulo amoroso que se aparenta isóceles. Acredito que, se fosse escaleno, seria mais agradável. Justifico: se existissem dois lados iguais (Luli e Antero como esposa e marido; Bauru como amante de ambos), o impacto seria maior, mais novelesco, do que o palimpsesto de mentiras que se estabelece. Pelo menos, para mim, estava sendo; ao induzir que Luli, na verdade, enganou Bauru para chantagear Antero, o clima esfriou um pouco. Mesmo assim, é um ótimo conto. Observações estilísticas:
1) O neologismo “descollorir” não me agrada, pois já se tornou, de certa forma, um lugar-comum.
2) O vocábulo “País” é preferencialmente grafado com inicial maíuscula, assim como “Nação” (que já consta no texto).
3) Na primeira fala de Luli, “salão/Nação” gerou um eco incômodo.
4) Palavras que procedem dois pontos devem ter inicial minúscula (exceto em caso de substantivos próprios).

Oswaldo Pullen

Com o encontro do crachá e o diálogo subsequente poderá o leitor imaginar que a dupla traição envolveria o marido da dondoca, mas o autor em uma segunda e confusa virada nos conta que em verdade ela está casada com um terceiro. Esta última virada é excessiva, e em meu entender tira força do conto. Além disto, uma certa limpeza de detalhes e adjetivos não seria ruim.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão 7,5
Ana Vilela 8,5
Betty Vidigal 9,5
João Paulo Hergesel 9,5
Oswaldo Pullen 8,5
Total 43,5