Ruínas da Loucura

Assis Nóia

. Há mais coisas no fundo de um lago e na terra do que sonha a nossa filosofia.
“Não tenho dúvidas, doutor. Capitu me chifra com Escobar, meu melhor amigo!” – bradou o deputado federal Bentinho Bolsonaro.
O psicólogo Simão Bacamarte, refestelado em sua poltrona com as pernas cruzadas, repousava um olhar fleumático sobre seu paciente, que parecia ter implantado o intestino grosso no esôfago.
“O senhor não vai falar nada? To gastando uma nota aqui pra quê?”
“Para que possa falar a verdade e sair impune, sem a justiça ou a imprensa para te julgarem”.
“To aqui sofrendo por causa daquela vadia da Capitu… minha vontade é de afundar aqueles olhos oblíquos dela!”
“Bater em mulher, deputado? Olha a Maria da Penha…”.
“Como se já não bastasse aquela Maria do Rosário… mas o que faço, doutor Simão? Se isso vaza, viro chacota nacional e ainda perco as eleições pro Senado. No Brasil, corno só se elege a pagodeiro”.
“Você tem provas dessa traição?”
“Não, isso não. Até contratei um detetive, mas achei que aquele desgraçado estivesse comendo minha mulher também”.
O psicólogo se contorceu, incômodo, deixando o paciente continuar.
“Passei eu mesmo a vigiar os passos dela. Se Deus quiser, esse meu projeto de lei que criminaliza o adultério e que ta tramitando na Câmara, vai botar ordem nesse país imoral. Aí eu quero ver neguinho pulando a cerca! A família tradicional brasileira vai me agradecer nas urnas”.
“Não me leve a mal, deputado, mas vocês, políticos, pulam a cerca da ética, das fiscalizações…”
“Mas você, hein. Nem mulher tem, e quer opinar sobre isso”.
“Entendo… Agora me diz uma coisa: vale a pena sentir todo esse ciúme? Acha que está zelando pela sua família ou pelo seu ego? Numa suposta traição, sua maior perda seria sua esposa… ou sua reputação?”
Bentinho se ergueu do divã e oscilou pela sala, agitado.
“Será que eu to ficando louco?”
“Olha, meu caro deputado… certamente, sua faculdade mental está alterada. Não seria exagero dizer que uma internação seja o melhor caminho”.
Naquele entardecer, Bentinho rodou a esmo pelas ruas, matutando as palavras de Dr. Simão.
“Louco, eu?”
Recebeu um SMS de Escobar.
“Passa aqui em casa pra comer uma lasanha com seu amigo pobre”.
À mesa bem posta, Escobar e Bentinho saboreavam a lasanha e conversavam. O deputado, claro, sempre com pé atrás…
“Não quis convidar a Capitu, não?”
“Pensei num jantar entre dois amigos de infância. Vamos esquecer um pouco de mulheres e política, que tal?”
Escobar resvalou sua mão sobre a de Bentinho, que a recolheu de imediato.
“Então, como vai o trabalho com a Literatice?”
“Não implica. Você devia dar mais valor à Literatura”.
“Quem lê muito, fica louco”.
“Sabe, parece que ultimamente tenho andado meio pirado mesmo, tendo um sonho esquisito e constante”.
“Erótico?”
“Antes fosse! Sonho que morro afogado e depois o meu corpo afunda, no meio de uma cidade em ruínas. Não é louco isso?”
“Dizem que sonhar com afogamento é bom sinal”.
“Segundo a Cris de Oxumaré, não”.
“Que diabo é isso?”
“Ora, vai me dizer que nunca viu os cartazes e outdoors dessa cartomante lá do Parque Vivencial do Paranoá?”
“Eu lá fico prestando atenção nessas merdas, Escobar? Você procurou uma macumbeira, é?”
“É cartomante! Estava angustiado e também sempre tive curiosidade. Não resisti”.
“E o que essa Oxumaré aí viu nas cartas?”
“Que eu devia aprender a nadar”.
Gargalharam.
O papo se estendeu e o deputado teve a ideia de recomendar o Dr. Simão ao amigo. Seria um ótimo pretexto para sondar o comportamento de Escobar. Bastava um cheque para o doutorzinho quebrar o protocolo ético e revelar cada detalhe da vida daquele fura-olho.
Foi então que, na primeira consulta, Escobar deparou com Capitu saindo da sala do mesmo doutor. Estava visivelmente constrangida, meio desconjuntada, com o batom borrado e a roupa úmida de suor. Dissimulada, chegou a cumprimentá-lo, mas só recebeu um olhar indignado. Escobar saiu às pressas e enviou uma mensagem para Bentinho: “Preciso falar com você pessoalmente”.
Depois daquele SMS, Bentinho perdeu até o tesão da negociata que tramava. Agoniado, saiu mais cedo do Congresso e decidiu ir atrás da famosa cartomante. Chegou sem horário marcado. Barrou clientes, pagou o triplo do preço e foi atendido com prioridade pela mulher de olhos sonsos.
“Quero saber o que está por vir… pra me preparar”.
A cartomante embaralhou e distribuiu as cartas.
“Uma grande revelação” – disse, séria.
“Revelação? Aquele canalha… E aí diz alguma coisa sobre Capitu? Diz se ela me ama?”
Ela repetiu o ritual com as cartas.
“Capitu, tua esposa, te ama desde sempre”.
Bentinho saiu dali aliviado. Caminhou até a beira do lago Paranoá e enviou uma mensagem para Escobar, pedindo que o encontrasse no Parque. O professor não se demorou.
Ainda embebido pela revelação da cartomante, Bentinho abraçou o amigo com carinho.
“Que cara é essa?”
“Eu nem sei como te falar isso… Mas tenho que falar”.
Escobar deu um tapinha consolador no ombro de Bentinho.
“Acho que a Capitu te traiu com o Dr. Simão. Eu vi a forma como ela saiu do consultório quando eu chegava lá e…”
Bentinho Bolsonaro agarrou Escobar pelo colarinho.
“Mentiroso filho da puta!”
“Espera, por que eu ia mentir sobre isso? Me solta!”
“Você quer que eu me separe da Capitu pra foder à vontade com ela, não é, seu traíra? Ela me ama! Me ama, porra!”
“Não, ela não te ama! Eu que…” – engasgou-se, submergindo o coração pela lágrima represada – “você não merece essa mulher!”
O olhar de Bentinho fagulhou de ódio.
“Eu não mereço um amigo como você, seu merda!”
Bentinho esmurrou Escobar e se lançou sobre ele com todo ímpeto, derrubando-o no lago. Escobar se debateu na água, gritando por socorro. Bentinho escapou ligeiro dali, se benzendo. Escobar sentiu seu corpo ser tragado para o fundo do lago. Com os olhos esbugalhados, afundou devagar, em meio às ruínas da Vila Amaury; feito um turista, que aprecia cada reentrância da cidade visitada pela primeira vez.

Contagem: 995 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

É sempre arriscado pedir emprestadas personagens a Machado de Assis para construir uma outra história. Parabéns pela coragem! Porém, o conto não me empolgou. O duvidoso terapeuta foi descredenciado com competência. Mas não consegui imaginar Escobar afogado nas águas do lago Paranoá.

Alexandre Lobão

A história está bem imaginativa, e as provocações foram utilizadas de forma interessante. No entanto há alguns problemas:
– Ritmo: Após o longo diálogo inicial (lento), em quatro linhas Bentinho fica pensativo, recebe um SMS e vai até a casa do outro (muito rápido), o que é seguido de outro diálogo (lento). Isso poderia ser evitado, por exemplo, se eles houvessem combinado o jantar no consultório.
Credibilidade do Personagem: Bentinho quer saber os segredos do amigo ‘fura-olho’ (sem nenhuma suspeita sobre a esposa ou nada do gênero que o justificasse), depois o abraça com carinho, etc. A cada momento ele tem comportamentos diferentes, faltou coerência. A reação após receber o SMS também foi exagerada. Acredito que o que faltou foi deixar claro, na parte inicial do texto, que Bentinho desconfiava do amigo.
Clareza: O diálogo no jantar ficou longo e gerou uma certa confusão pois quem está com problemas é o psicólogo, e não o paciente. Algumas “etiquetas” (tags) do tipo: “O psicólogo, após alguma hesitação, falou:” ajudariam a melhorar a clareza do trecho.

Allan Vidigal

Olha, existe um risco muito sério em usar personagens de um GRANDE romance: o leitor não consegue, nem que queira, deixar de comparar seu texto com a fonte. Se você tivesse escrito algo decididamente cômico, seria um problema menor, se tanto. Mas não foi o caso.
Além de reutilizar personagens conhecidas, você ainda misturou Dom Casmurro com crônica política; confesso que não entendi bem o porquê. Novamente, se fosse um conto cômico, tudo bem. Mas…
Finalmente, diálogos: diálogo é um negócio ridiculamente difícil de fazer (para mim, pelo menos é). Num conto quase inteiramente feito de diálogos, eles têm que ser muito bons – e não os senti assim.
Seu conto não está ruim; mas também não está maravilhoso.

Ana Vilela

Muito interessante a mistura das histórias, a literatura do passado com o presente real. Os diálogos estão ótimos. Mas o desfecho podia ser outro. A traição, o assassinato… já tão corriqueiros. Não que não possam ser usados, mas talvez peçam algo diferente, que surpreenda.

Betty Vidigal

O conto demorou para engrenar. Depois da frase “Segundo a Cris de Oxumaré, não”, ficou bom.
(Por que aspas para os diálogos?)
“sua faculdade mental” ficou estranho. Melhor “suas faculdades mentais”.

Celso Bächtold

O objeto-chave “projeto de lei” foi citado muito vagamente, e não tem a mínima importância no contexto geral do conto, sendo citado apenas para constar que “está no texto”. Totalmente irrelevante.
Usar os mesmos personagens do livro Dom Casmurro, de José de Alencar, foi uma tentativa frustrada de valorizar o texto, mas não surtiu o efeito desejado. Muito pelo contrário. Deu a ideia, desde o início, de que seria um triângulo amoroso, adiantando o entrecho ao leitor, que, dessa forma, soube de antemão o jogo amoroso que iria acontecer.

Cinthia Kriemler

Última semana e eu sinto que houve uma pressa em terminar logo. Apesar de ser engraçada a intertextualidade (recurso do qual você parece gostar de usar e abusar, como na semana anterior), aquela Vila Amaury enfiada na última frase apenas para cumprir o desafio foi de amargar. Aliás, não gostei do final. E acho que você escreve mais do que trouxe esta semana.
Observação: o médico se sente “incomodado” (verbo), e não “incômodo” (substantivo).
A frase “submergindo o coração pela lágrima represada” foi de propósito? É tão piegas que não combinou sequer com o texto.

João Paulo Hergesel

Escrita simples, crítica política, humor delimitado. É uma crônica. E enquanto crônica, resvala a originalidade por se utilizar de personagens já canônicos na literatura brasileira. Por mais que se note um trabalho de contextualizar Bentinho, Escobar e Capitu no contemporâneo, o fato de eles já serem figuras estruturadas impede o julgamento da capacidade de construção de personagens inéditas e afetivas. A cartomante foi insignificante para a história: o foco permaneceu na conturbação mental de Bentinho e nos diálogos com o psicólogo e com Escobar. O projeto de lei entrou como justificativa para acalmar o ego de Bentinho, mas sequer foi resgatado com o desenrolar da história. Por fim, a Vila Amaury surge no desfecho sem muito entusiasmo: qualquer lagoa ou piscina poderia substituí-la sem perdas à ação. Em suma, o texto peca no gênero, na utilização dos elementos-chave e no aproveitamento de personagens. Julgo, portanto, pela correção gramatical e clareza.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. Segundo Massaud Moisés, um conto necessita de 4 unidades: tempo, espaço,ação e tom. Ultimamente, as primeiras têm sido um pouco desconsideradas em experiências literárias com maior ou menor sucesso, nunca as três, no entanto, sob pena de se perder inteiramente a natureza ontológica do conto. Em todos os casos, a unidade de tom não pode se perder. O maior defeito de seu conto (confesso que, no começo, o aspecto de crônica humorística me fez hesitar em chamar de conto, depois me convenci) pois tal receio só agravar minha impressão: seu conto começa humorístico, quase farsesco e, depois, torna-se dramático. A impressão geral que me ficou é a de que faltou fôlego ao escritor para levar a comédia adiante e, desse mal, advieram todos os outros, falta de credenciamento das ações e motivos das personagens, confusão de enredo e final causando a sensação de um anticlímax. Veja o que diz o professor Massaud: “Quanto ao tom, a intenção é provocar no espírito do leitor uma só impressão: pavor, piedade, ódio, simpatia … ou seus contrários.” No futuro, não descure isso.

Nálu Nogueira

O conto tem sacadas geniais e momentos brilhantes, mas a escolha das aspas, em vez dos travessões, não compreendi. Fora que em alguns momentos de começo de diálogo era preciso “deduzir” quem estava falando. Também achei que a “revelação” de Escobar deixou a desejar e o final aconteceu de modo muito abrupto.

Oswaldo Pullen

Bons diálogos se contrapõem ao excesso na caracterização do deputado e ao final confuso, que coloca o Parque Vivencial Paranoá junto à Vila Amauri, embora ambos às margens do lago Paranoá.

Paulo Fodra

O conto atende bem ao desafio proposto, só que o projeto de lei não aparece como objeto. Apesar do desfecho previsível, a narrativa funciona muito bem na estrutura criada.

Roberto Klotz

Abertura com muitas referênicas: Shakespeare, Machado de Assis e Bolsonaro. A trama foi bem desenvolvida e com criatividade. Julgo que são muitos personagens relevantes para um conto: Escobar, Bentinho, Cartomante, Dr. Simão além do que quase todos com características consagradas por Machado de Assis. Observei4 seu/sua na frase: “Acha que está zelando pela sua família ou pelo seu ego? Numa suposta traição, sua maior perda seria sua esposa… ou sua reputação?”. O objeto-chave, projeto de lei, foi mencionado apenas sutilmente. Há um problema sério de verossimilhança: os 2 parques Vivenciais do Paranoá ficam em margens opostas emuito longe da submersa Vila Amaury.

Simone Pedersen

Você ousou, foi criativo e me prendeu desde o primeiro parágrafo. Mandou muito bem! Parabéns! Para mim, é seu melhor conto.
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, porque nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio. Trama interessante, com fatos bem articulados e bem desenvolvidos. Ironia, humor e paródia política dão o tom da narrativa. O desfecho, no entanto, parece um pouco forçado, sem consistência.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 8,3
Alexandre Lobão 8,1
Allan Vidigal  8,0
Ana Vilela  9,0
Betty Vidigal  9,4
Celso Bächtold  9,0
Cinthia Kriemler  8,5
João Paulo Hergesel 7,0
Marco Antunes  7,5
Nálu Nogueira 9,4
Oswaldo Pullen 8,8
Paulo Fodra  9,0
Roberto Klotz  8,5
Simone Pedersen 10,0
Wilson Pereira  8,5
Total 129,0