Salsichas

Cruz e Espada

Foi o deputado Janjão Belarmino, veterano de seis mandatos em favor das terras baianas, quem arrazoou a solução no dia em que este escriba ia descambando para a mais profunda amargura diante dos bocejos do plenário:
– Pare com essa bestagem de discurso bonito, menino – conspirou o parceiro de armas nas entrelinhas da sessão. – Se quiser aprovar alguma coisa procure Madame Zoraide.
Meus pendores iluministas estrebucharam nas prateleiras do crânio. Sussurrava-se pelos corredores que Madame Zoraide possuía pacto com o Cramulhão e por isso aprovava e desaprovava o que quisesse na República. Bastava uma leitura das cartas para que os caminhos legislativos se destrancassem ou se fechassem de vez.
Durante vinte anos ela construiu fama de cartomante infalível no Rio de Janeiro. Um dia, porém, se enrabichou por um candango e assim de repente tomou o rumo do Planalto Central. As declarações de amor acabaram em depoimento ao escrivão, mas já era tarde: as raízes de Madame tinham sido transplantadas. Sua clientela que arrumasse modos de não perder vidente tão bem relacionada.
Lembrei os comícios em Povoado das Missões (se me conceder seu voto, ó Povoado, a ponte que esperas enfim será construída!) e considerei que mentira contada por dez começa a semelhar com a verdade. No final da breve odisseia político-filosófica, deliberei que caberia a mim, um notório defensor da ciência e outros que tais, por à prova a autoridade do Capiroto nos gabinetes do Congresso:
– Reserva uma vaga no primeiro voo para o sertão – comandei ao assessor.
Era 1958 e a capital do país ainda se deixava lamber pela Baía da Guanabara. Despedi-me, pois, das praias cariocas e parti na direção das Geraes e dos Goyases.
Pousei no território que em dois anos responderia pelo nome de Brasília e apanhei um táxi até Vila Amaury. Foi uma lição de Brasil primitivo: lixo, esgoto, ratos, urubus, cães sarnentos, crianças nuas de nariz sujo, bêbados, criminosos, desocupados. Madame Zoraide escolhera bem seu endereço comercial. Legislador apanhado na arapuca tinha álibi perfeito: investigar as carências da população para melhor supri-las.
Ela própria me recebeu. Morena, olhos verdes, cabelão roçando o eixo traseiro – a melhor atração turística do cerrado e léguas além. Agradou-se do meu estilo campestre e saiu pedindo que eu me deitasse e expelisse as mágoas. Segui o ritual e contei as desgraças que andavam estragando o gosto do uísque. Depois de escutar meus percalços na lida com artigos e parágrafos, ela puxou uma carta do baralho:
– Procure Francisquinho Amendoeira e lhe ofereça uma semana no Palácio da Consuelo.
No outro dia lá estava eu conversando com o companheiro capixaba.
– Essa ponte vai sair! – ele ganiu de felicidade ao saber que a Corte estava à sua disposição desde que apoiasse meu projeto.
Mas diz o provérbio: alegria de deputado dura pouco. Após a licença com as espanholas, Francisquinho interrompeu certos afazeres que eu cumpria no banheiro da Câmara e clamou:
– Minha simpatia é sua, mas Gastão Corrutela acabou de formar o filho engenheiro e só vota a favor se o doutorzinho construir a obra.
O sangue empedrou quando a exigência bateu nas veias. Aquilo embolava a história. Para desatar o nó, tornei a visitar as antecâmaras de Madame Zoraide. Se deu certo na primeira, ia dar também na segunda.
Ela brincou com as cartas e soltou uma gargalhada:
– Diga ao Gastão que ele não precisa mais brincar com os cavalos. Pode se divertir com os cavalariços.
Arregalei os olhos.
– Isso mesmo, filho – ela esclareceu e virou de bruços para dar forma à notícia.
O deputado Corrutela, paulistano de safra antiga, me olhou desconfiado quando escancarei a proposta, mas depois que descrevi os mancebos que lhe prestariam continência enrolou a ponta dos cabelos no indicador, esqueceu a prole e sorriu bem contente:
– Pode somar meu voto.
O projeto entrou na pauta e as discussões começaram. Mas não foram longe. Numa tarde malsã Severo Tribuchão, neto e filho de coronéis cearenses, me interpelou de parabelo no coldre:
– Égua! Que barulhada de ponte é essa?
Verguei os cantos da boca e falei com voz chorosa sobre as águas malvadas que engoliam os habitantes do Povoado.
– E não cabe mais um Messias nesse Evangelho? – ele perguntou ao calcular a quantidade de pecadores por redimir.
Bandeei o corpo para o lado, entrei no avião, bati na porta de Madame Zoraide. Ela me atendeu de combinação nova:
– Com esse não tem jeito – declarou, lendo outra carta. – Cinco por cento é o mínimo.
Arriei os ombros em sinal de derrota e tornei ao Rio. Tribuchão aceitou seis e meio e desimpediu a porteira.
No meio de um aparte, entretanto, Totonho Maciel, gaúcho de quatro costados, alegou que a coisa não estava direita. Muito empenho e pouca serventia. Embargava os procedimentos nesse instante para evitar danos ao erário.
– Totonho Maciel? – Madame usou suas retóricas na consulta seguinte.
Confirmei em silêncio e esperei o Tinhoso se manifestar por meio dos arcanos.
– Ele quer dez por cento – as trevas revelaram. – Mas argumente que as coxilhas de Passo Fundo são umas fofoqueiras.
O gaúcho se arreliou nas bombachas quando apresentei o relato das comadres suas conterrâneas. Retirou o aparte e virou um defunto no Parlamento.
O projeto foi adiante e o Povoado ganhou a ponte de que tanto precisava. Terminadas as festividades de inauguração da pedra fundamental, voltei para o Congresso. Janjão Belarmino flanava pela área do cafezinho e decidi agradecer:
– Se não fosse por suas artes eu não teria emendado o orçamento.
Ele sorriu com modéstia:
– Méritos exclusivos do parlamentar mais jovem da Casa.
Depois das amenidades baixei a voz:
– Ruim era voar do Rio de Janeiro para Vila Amaury toda vez que surgia um obstáculo. Muito cansativo!
Janjão fez cara de quem frequentava o Poder desde o berço. Chegou mais perto e confidenciou neste ouvido que logo vai dar congestão nos vermes:
– E porque o menino acha que estamos transferindo a capital para lá?

Contagem: 991 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

O texto cumpre bem os elementos do desafio e a intenção de denúncia a que se propõe. A sua construção é interessante, embora o ritmo da narrativa e a profusão de personagens me tenham deixado zonza (mas entendi que retratam o ritmo da corrupção). Fui tocada por uma frase-denúncia exemplar: “E não cabe mais um Messias nesse Evangelho?” Achei pouco elegante a expressão “defensor da ciência e outros que tais”.

Alexandre Lobão

Texto bem divertido e com final surpreendente, como cabe a um bom conto. Apenas dois detalhes a emendar: Na frase “se me conceder seu voto, ó Povoado, a ponte que esperas enfim será construída!” a mistura de segunda e terceira pessoa não soou bem, ainda que fosse admissível por ser fala de personagem. E na compra da viagem, o parlamentar pediu uma passagem “para o sertão”. Ainda que possa se supor que fosse o termo usado para se referir a Brasília, como o sertão é no Nordeste o uso causa uma confusão desnecessária. O título foi sutil demais, acredito que pode ter ficado incompreensível para boa parte dos leitores.

Allan Vidigal

É “Parabellum”, não “parabelo” (não me parece que tenha sido deliberado; se foi,não me parece condizente com a personagem).
Fora isso, sem reparos. Ótimo.

Ana Vilela

Excelentes o narrador, os diálogos e o enredo, texto bem amarrado. O final é muito bom. Fazer rir com a escrita é, com certeza, uma arte. Legal a ideia de estar a capital ainda no Rio de Janeiro, o retorno na história…

Betty Vidigal

Ficaria melhor tinha pacto do que “possuía” pacto.
É “virou de bruços”, mesmo, que você quis dizer? A madame estava deitada e se virou?
Provavelmente não, por que estava dando as cartas. Então tem que dizer “deitou-se e virou de bruços”, ou então “virou de costas”, sem precisar deitar.
O corpo da estória não ficou muito claro. Essa mecânica de Francisquinho, Severo, Totonho, esse fluxograma de ações passando por eles está mal explicado.
O final é divertido.

Celso Bächtold

Ótimo texto, enriquecido com um linguajar adequado à época e à origem dos personagens. O autor destacou com muita destreza os elementos do desafio, de uma forma harmônica e interessante.

Cinthia Kriemler

Outra história de que gostei demais. Tem ritmo, flui na leitura, tem bom enredo. E é bem-humorada. Só uma coisinha que passou batida (pelo restante do texto, vejo que foi distração mesmo): na última frase o “por que” é separado.

João Paulo Hergesel

Muito hermetismo e pouco conteúdo original. O nível de linguagem adotado para o texto, por ser em primeira pessoa, não soa natural ao personagem. O uso de diversos preciosismos (rebuscamento exagerado) torna a leitura difícil de fluir. O “por que”, na pergunta que encerra o texto, deve ser separado.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. Mesmo não querendo falar de erros nessa etapa, achei seu texto mais descuidado desta vez, achei erros de pontuação, regência e até acentuação, isso pega mal para um escritor que pretende ver seus textos levados a sério. E creia, quem fala a você é um escritor que nem sempre é muito cuidadoso com isso, fico entusiasmado e saio publicando na internet com erros de todos os tipos, até de ortografia, não siga meu péssimo exemplo. Revise sempre, não só pelo bem do texto, mas pelo brilho de sua própria imagem. Acredite: fama de escritor que não dá bom trato à língua nunca é totalmente ilibada. Quanto ao texto presente, está tudo aí: conflito, personagens coerentes, bom espelhamento da linguagem regional, etc Mesmo que os motivos das visitas à cartomante me soem pouco críveis,esse é o nome do jogo: aceitamos que a ficção tem suas razões internas e nosso povo e suas idiossincrasias não me autoriza muito a duvidar. Pequena crítica a ser feita, a partir de um ensinamento útil do mestre Massaud Moisés: “Por ser “objetivo”, “plástico”, “horizontal”, costuma ser narrado na terceira pessoa. Usa as palavras suficientes e necessárias, convergindo para o alvo; a imaginação prende-se plasticamente à realidade concreta em verossimilhança com a vida.” Pois é! Um conto mais enxuto teria feito grande diferença no impacto final.

Nálu Nogueira

Achei a linguagem muito adequada à época em que se passa a história e gostei da solução encontrada para unir os elementos da provocação. Algumas coisas me escaparam (talvez requeiram um conhecimento que não possuo ou que não recordei), mas o final eu achei sensacional!

Oswaldo Pullen

Conto um pouco obscuro e algo repetitivo. Uma contradição a seu final — como pode o ouvido de um jovem dar prematuramente congestão nos vermes?

Paulo Fodra

Conto muito bem escrito e conduzido, seguindo uma estrutura precisa e definida. Apesar do projeto de lei (ou emenda?) ter sido mencionado apenas indiretamente, foi indiscutivelmente o objeto de discussão de todo o conto. Um subterfúgio malandro que se encaixou perfeitamente na narrativa.

Roberto Klotz

Desde o primeiro parágrafo se manifesta a linguagem carregada de sotaque baiano das antigas. Parecia que a personagem trajava chapéu e terno de linho branco. Gostei da criatividade para o desenvolvimento da história. Não entendi a relação do título com o conto. O falatório empolado foi um pouco cansativo, mas valeu pelo sensacional fechamento fanfarrão.

Simone Pedersen

Conto engraçado, original e gostei do final. O pluralismo dos personagens atropela um pouco, mas você coloca diálogos curtos que compensam.
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, porque nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto atende ao desafio. O enredo esta está bem construído, com fatos bem fundamentados e bem articulados. No entanto falta-lhe um clima de expectativa, uma força narrativa que traga mais vigor e interesse para o leitor O desfecho não apresenta impacto, não empolga.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 9,0
Alexandre Lobão  9,5
Allan Vidigal 10,0
Ana Vilela 10,0
Betty Vidigal 9,0
Celso Bächtold  9,8
Cinthia Kriemler  10,0
João Paulo Hergesel  8,0
Marco Antunes  9,0
Nálu Nogueira  9,8
Oswaldo Pullen  8,6
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz  9,5
Simone Pedersen  9,5
Wilson Pereira 8,3
Total  140,0