Scheiße!

Carlo Couto

– Scheiße!
̶ Como?
̶ Scheiße!
̶ Você está falando alemão de novo. Os leitores não vão entender.
̶ Scheiße!, significa “Merda!”, Scheiße!
̶ Calma. Para de falar palavrão. Qual é o problema?
̶ Você não disse que Brasília tinha praia.
̶ E não tem mesmo. ̶ Pois é. Então estou no lugar errado.
Scheiße!
̶ Como assim no lugar errado? Você não está vendo o relógio de sol?
̶ Sim, mas atrás dele tem um mar imenso.
̶ Tem certeza que não é um lago?
– Absoluta.
– Merda! ̶ Agora foi você que falou palavrão. ̶ Desculpa. Acho que você foi parar em Natal.
̶ E agora?
– Agora não poderei participar do desafio de escritores.
– E eu não poderei viver a minha história de amor!
̶ Calma. Senta aí em algum banco e espera. Eu vou pensar numa solução. Não tira o azulejo da bolsa e não fala com ninguém. Eu já volto.
E foi só o autor se afastar da escrivaninha para pensar melhor, que seu personagem, o alemão, teimoso que era, abriu a bolsa e tirou o azulejo. Observou a peça e balançou a cabeça com raiva. Vontade dava era de quebrar aquela porcaria. Enfiou-a de volta na mochila, respirou fundo e fechou os olhos. E em pensar que esteve a tão poucos passos de conhecer a sua amada, casarem-se e serem felizes para sempre! Scheiße!
O argumento era convincente, o roteiro dinâmico, os personagens verossímeis. Começava assim: Sentado num banco em frente ao relógio de sol, no Parque da Cidade, em Brasília, o turista alemão examinava a cópia pirata do azulejo de Arthos Bulcão que acabara de comprar, achando que era uma peça autêntica. Nessa postura meditativa, ele faria uma breve reflexão sobre a beleza ambivalente das figuras geométricas assimétricas, que atraem e assustam ao mesmo tempo. Num pequeno monólogo interior ou fluxo de consciência (ainda em aberto) ele dissertaria consigo mesmo sobre o paradoxal anseio do ser humano de, por um lado, querer romper com as normas e, por outro, conservar suas raízes. E concluiria que é deste antagonismo entre a vontade de pertencimento e o genuíno impulso de desbravar novas fronteiras que se alimenta a arte.
Tudo isso ele pensaria alto rapidamente e em algumas poucas frases para não cacetear o leitor com muita teoria e pouca ação, ou como diriam os argentinos, com muita parra e pouca uva. Interrompendo suas observações, entraria em cena um trombadinha que saltaria assim do nada sobre ele e arrancaria o azulejo das suas mãos. Com a trombada, o alemão iria parar no chão e tudo o que conseguiria dizer seria um “Scheiße!”, embasbacado que estava com a destreza do guri.
Porém, neste exato momento, surgiria, também do nada, uma policial loura a cavalo, os cabelos esvoaçantes, que vinha fazendo a sua primeira rodada teste como membro do regimento de polícia montada da capital.
O nome dela seria Hilda e ele se apaixonaria perdidamente à primeira vista. Hilda por sua vez, não reservaria o mínimo do brilho azul de seus olhos para ele, visto que, ao dar-se conta do acontecido, bateria em disparada, ou melhor, em cavalgada, atrás do moleque. No que quase atropelaria o alemão encantado, não fosse a presença de espírito do cavalo, que, treinado para saltar obstáculos, simplesmente voou por cima dele, dando uma de Pégaso. Alguns minutos depois ela voltaria sem azulejo nem garoto, mas o chamaria para preencher o boletim de ocorrência na delegacia.
Lá, constatariam a ancestralidade comum e ela abriria um belo sorriso. Não bastasse terem as mesmas raízes, ironia do destino, as famílias de ambos vinham da mesma cidadezinha no Sul da Alemanha chamada Konstanz. Era motivo para se comemorar!
Marcariam um passeio às margens do Paranoá, para mais tarde, quando ela tivesse terminado o expediente. A esse passeio seguiriam outros e aos outros uma viagem a Konstanz, onde se casariam. Em vez de limusine, Hilda chegaria à igreja a cavalo, e do mesmo jeito sairia, carregando na garupa o seu amado.
Para onde foram, ninguém nunca saberá, mas é certo que à capital do Brasil, não voltariam jamais. O azulejo seria vendido clandestinamente pela internet poucas semanas depois a um casal de alemães em viagem de lua de mel pela Flórida.
Bem, tudo isso teria acontecido numa sequência de cenas rápidas e fortes, com cortes bruscos e frases curtas. Teria acontecido (futuro do pretérito, note-se bem!), mas não aconteceu. E tudo por causa da ignorância geográfica e falta total de orientação espacial deste autor incompetente. Vontade dava de quebrar o azulejo na cara dele.
Um toque suave no seu braço interrompe seus devaneios. O alemão abre os olhos e dá com uma loura desgrenhada de pé, ao lado do banco.
– Desculpe, o senhor podia me dar uma informação?
– Pois não.
– Sabe dizer se esse aqui é o Parque da Cidade de Brasília?
E nisso, ele vê um cavalo alado vindo por cima do oceano e pousando suavemente ao lado do relógio de sol, atrás dela.
– A senhora não foi por acaso enviada aqui pelo autor, foi?
– Fui, sim. O senhor também o conhece? Que coincidência! Prazer, meu nome é Hilda.
– Scheiße! – suspirou ele e caiu na gargalhada, dando uma piscadela para o autor lá do outro lado do monitor.

Contagem:  868 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Abertura curiosa fisga o leitor. Mas o leitor quer fugir com a prolongação da brincadeira. Gostei da metalinguagem por fugir do lugar comum na análise de 138 contos sobre o tema. Em vez de Arthos leia-se Athos – aponto por ser motivo da provocação. Procure colocar frases na voz ativa – “mesma cidadezinha no Sul da Alemanha chamada Konstanz” por “Konstanz, mesma cidadezinha no Sul da Alemanha”. Ri com o fechamento, apesar do desnecessário “Scheiße!”.

Ana Vilela

Ironia e humor dão o tom do conto bem construído. Uma história, propositalmente clichê, entremeada a outra. Na verdade, três histórias: a do autor com o personagem; aquela desejada pelo personagem; e, por fim, uma nova que surge a partir da solução do autor, fechando o conto, entremeando as duas histórias anteriores. Bons a ideia, o final e a ironia.
Alguns cuidados necessários com o tempo verbal e com a pontuação – Tempo verbal, exemplos: “Para onde foram, ninguém nunca saberá, mas é certo que à capital do Brasil, não voltariam jamais”; “simplesmente voou por cima dele”. Pontuação, exemplo: “mas é certo que à capital do Brasil, não voltariam jamais”.

Betty Vidigal

Revisão
● “simplesmente voaria por cima dele” (e não “voou”)
“os dois teriam vindo da mesma cidade” (e não “vinham”)
“para onde iriam” (e não “foram”)
Como você está usando todos os verbos naquele tempo que se chamava “condicional” e passou a se chamar “futuro do pretérito”, tem que ajustar as frases.
Pela mesma razão, “era motivo” teria que ser “seria motivo”. Sugiro “Motivo para se comemorar”, sem o verbo no início da frase. Fica bom.
Talvez haja mais algumas correções a fazer, nessa categoria.
●há algumas vírgulas mal posicionadas, mas não chocantemente mal posicionadas…
Legal.
A metalinguagem sempre deixa o leitor um pouco de fora, né? É como se o autor dissesse: “olha o que eu sei fazer!” – e sabe mesmo. Mas a gente não se envolve no enredo, fica o tempo todo consciente de que aquilo é só ficção dentro da ficção, não é ‘pra valer’, nem mesmo no universo do conto ou do romance.
— Por que a loira estava desgrenhada? Desgrenhada é uma palavra que faz pensar em descabelada, mas de um jeito feio, assustador. Bruxa fica desgrenhada, princesa fica despenteada… Qdovc disse que ela estava desgrenhada pensei que a estória fosse degringolar, que talvez tempo demais se tivesse passado, ela estivesse velha e feia, o cavalo mancando… Mas não: pelo jeito, a intenção do autor era que a linda alemã chegasse ainda mais linda.

João Paulo Hergessel

O diálogo inicial poderia ter sido mais sucinto, para evitar o desinteresse motivado pelas constantes repetições. O uso da metalinguagem, neste caso específico, não me agradou; parece ter sido usado como justificativa para possíveis falhas de ambientação e temporalidade no enredo. Acredito que o conto teria fluído bem mais se discorresse a respeito do argumento apresentado no texto. Esse argumento, sim, é interessante; uma pena não ter sido desenvolvido com exclusividade.

Oswaldo Pullen

Trato interessante das “irrealidades” alternativas. A brincadeira que o autor faz com estas possibilidades traz interesse a este conto bem humorado e de final feliz.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 9,0
Ana Vilela 10,0
Betty Vidigal 9,2
João Paulo Hergessel 7,0
Oswaldo Pullen 9,5