Sino: O Cãozinho

Borboleta

Cândida nascera, Cândida fora batizada, cândida vivera até então. Quando conheceu Edmundo, ela tinha vinte anos. Ele, bem mais velho, jornalista, tentando obter renome. Cândida era devota de São Dom Bosco. O santo fizera profecia sobre Brasília. “Entre os paralelos de 15 e 20. Partindo de um ponto onde se formava um lago, surgirá a terra prometida, de onde verterá leite e mel e riqueza inconcebível”. Ela trazia esse santinho na bolsa. Edmundo se tornou para Cândida o sonho-visão que ela buscava realizar. Morava num condomínio, ao lado da Ermida Dom Bosco, local abençoado, próximo do Mosteiro de São Bento, do Seminário Redemptoris Mater e do Carmelo Nossa Senhora do Carmo. Fazia caminhadas vespertinas pelo Parque Ecológico Dom Bosco, só para escutar o som do sino na “Hora do Angelus”. No Seminário Redemptoris Mater, o sino anunciava, com suas badaladas: 18 horas. Edmundo tinha um sino tatuado no pescoço. Foi Cândida que o incentivara a tatuar o sino, pois, segundo ela, para o homem, o sino representa a repercussão do poder divino, símbolo da reunião entre o céu e a terra. “O céu e a terra”, ela repetia, cheia de esperanças e expectativas. Ela reverberava paixão iluminada. Alegria resplandecente no rosto bem-aventurado. Ele, no entanto, dizia claramente que não queria se casar, não podia se comprometer. Precisava fazer-se jornalista respeitado. Não gostava de iludir. Cada um, cada um. “Morando divididos para se somarem no restante”. Assim ele dizia. Assim ele queria. Assim ela assentia. Ela esperava. Um dia, quem sabe? Ele resolveria. Quem sabe, um dia? Eles casariam. Os encontros ficaram esporádicos. No início, todo dia. Depois, duas vezes por semana, que ele andava muito ocupado. Passou a ser semanal. Durante cinco anos ela viveu feliz, à espera desse dia. Veio o convite para ele trabalhar em Goiânia. Ele aceitou. Não sem antes lhe dar um presente: um filhote da raça Springer Spaniel peludo, para ela lembrar dele. Ela intencionou ir junto para Goiânia. Pediria transferência do emprego no BRB. Moraria em qualquer lugar. Mas não dava, ele dizia. Ele precisava de um tempo para crescer na carreira. Cândida entendeu. Ela tinha o cachorrinho para consolar. Deu-lhe o nome de Sino. Amava-o mais do que qualquer coisa. Era a lembrança viva de Edmundo. Tinha até o cheiro dele. A mãe alertava: “Esse rapaz não te merece, minha filha”. “Não quer saber de você”. Cândida não dava ouvidos. No fundo, ela sentia. “Um dia, você verá, mamãe. Um dia”. Ela gastava o tempo, disfarçando as ressonâncias, alimentando as consonâncias. Edmundo, quando vinha, ficava na casa dela. Já não era tão cândida assim. O namorado vinha um fim de semana sim, outro não. Um fim de semana sim, dois não. Um mês sim, outro não. Um mês sim, dois meses não. Mas se escreviam, se telefonavam. Ela, todo santo dia. Ele, semana sim, semana não. Mês sim, mês não. Desta vez, passou um ano. Uma vez, como tantas vezes, ele não veio mais. Como tantas vezes, ele não mais escreveu. Ao contrário de outras vezes, ele nem sequer telefonou. E não atendeu quando ela ligou. Ela se consolava com Sino, seu presente, seu cheiro. Um dia, enfim, ele ligou. Viria para Brasília. Precisava falar-lhe. Hospedar-se-ia no Lake Side, um apart-hotel próximo do Palácio da Alvorada. Deu-lhe o endereço. Apartamento 1520. “Eu não disse, mamãe?” Dissonâncias? Nunca! Coincidências? Sim! Ela é devota de Dom Bosco: pois não é que mora ao lado da Ermida Dom Bosco? Ela gosta de ouvir os sinos: pois não é que Edmundo tem um sino no pescoço? O sonho-visão de Dom Bosco, entre os paralelos de 15 e 20: pois não é que ele quer encontrar-se com ela no apartamento 1520? Desta vez, ela se iluminou de esperança. Acenderam-se novas expectativas. Acabaria a longa espera? Ela chegou ao Lake Side com a mala pesada de sonhos, transmudada de anseios. Ela não adivinharia nele desejo de desapego, um final sem começo. Edmundo a aguardava impassível, tomando um drinque na suíte. Ele tinha um esparadrapo no pescoço, cobrindo a tatuagem. Antes que ela perguntasse, disse que queria retirar a tatuagem. Não ficava bem nele ter uma assim. Mal a convidou para entrar. Foi direto ao assunto. Estava tudo acabado. Ele ia se casar. Cada qual, cada qual. No envelope pardo, sobre o criado mudo, suas cartas, suas fotos. Muda ela ouvia. Desacreditada. A noiva chegará amanhã. O casamento será no sábado. Mostrou-lhe o santinho: na Igreja Dom Bosco. Passarão a lua de mel ali, no mesmo apartamento. Cândida ficou obscura e reticente. Descompassada de alma. Aquela verdade-lâmina ainda lhe esplendia na carne. A rudeza e a fundura do golpe com que fora atingida dilacerava-lhe o cândido coração. Saiu atônita, desoriginada. Deu murros na cara do muro. No dia seguinte, Edmundo recebe, na suíte 1520, uma caixa embrulhada para presente, papel celofane e um belo laço de fita vermelho, com um cartão, sem remetente: “Para os nubentes”. Lá dentro, um cãozinho da raça Springer Spaniel peludo, com um sino no pescoço e um santinho de Dom Bosco na boca. Estrangulado?!

Contagem: 839 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Gostei, mas achei a linguagem um pouco rebuscada demais.
1) Mesóclise. Melhor evitar, sempre que possível. E sempre é possível.
2) Tem um trecho em que você usa, em rápida sequência, “esperanças”, “expectativa” e “espera”. Ficou estranho.
3) Acho que “desacreditada” não tem o sentido que você quis dar.
4) Um errinho de concordância (que, partindo do resto do texto, estou certo de ser só falha de revisão): “”A rudeza e a fundura do golpe com que fora atingida dilaceravam-lhe”.
5) O excesso de “ele” e “ela” (que me parece intencional) ficou cansativo. Se de fato foi intencional, foi uma jogada que não deu muito certo; se não foi, convém prestar mais atenção nisso.

Cinthia Kriemler

Achei interessante a escalada da personagem obsessiva. Mas a história usada como pano de fundo é previsível. O desfecho é bom, mas o título entrega que algo vai acontecer com o cachorro. Os elementos do desafio estão todos aí. O texto é bem escrito, mas tem horas que se apega à formalidade (“esplendia”), chegando a ser quase empolado, o que, do meu ponto de vista, contrasta com a história escolhida (é uma história moderna e a personagem é jovem). Você faz uso de uns jogos de palavras interessantes, mas, em alguns casos, não funcionou, como em “disfarçando as ressonâncias, alimentando as consonâncias.” Não gosto de rimas em contos. A aliteração “Deu murros na cara do muro” ficaria melhor num poema (talvez).

Marco Antunes

Na verdade é São João Bosco ou Dom Bosco, a forma aglutinada não é eufônica. Embora existente, a forma “intencionar” é desagradável, pouco oral, parece um eruditismo desnecessário e, portanto, pedantismo. “Ela tinha o cachorrinho para consolar” ela vai consolar o cachorrinho? Se sim, tudo bem, estranho, mas bem; mas caso o cachorrinho virá a servir para consolo, o certo seria a forma pronominal “para se consolar”. O trecho “disfarçando as ressonâncias, alimentando as consonâncias” parece um achado poético, mas é vazio de significado e desnecessário. Esforcei-me, mas não logrei entender a proximidade do sino com a professia de Dom Bosco, muito menos como o rapaz a personificava. “Não ficava bem nele ter uma assim” – ficou feio, seria melhor “para ele” ou simplesmente sem o “nele”. “Cândida ficou obscura” – expressão de difícil intelecção. “esplendia”− outro termo que soou estilisticamente falso e pedante. “dilacerava-lhe o cândido coração” é clichê e soou imensamente brega. Percebe-se que a autora tem as manhas da narrativa e pode atingir, com esforço e leitura, alcançar um estilo próprio, mas precisa parar imediatamente com o uso de expressões vazias e de um eruditismo piegas. Odeio profundamente contos em que o narrador toma tudo para si e não abre espaço para a ação direta. Todo conto precisa de drama e conflito, necessidades que se alcançam mais plenamente com a ação direta, teatral. A forma escolhida é monocromática e cansativa. Falta o aspecto sinfônico que o ritmo do diálogo combinado com a narrativa traz.

Nálu Nogueira

Achei a perspectiva interessante, a narrativa também: apressada no contar da história, algo seca, mas numa proposta às vezes sonora, quase rimada. Creio que se o autor se debruçar sobre as construções, fazendo algumas pequenas correções de estilo, eliminando algumas coisas (que eu considerei) desnecessárias – e outras que achei que não combinavam com o que me pareceu ser a proposta – para tornar o texto mais coeso, no todo (como proposta de estilo, não pela narrativa, em si), pode produzir um conto primoroso, realmente. Particularmente gosto dessa sonoridade, do ritmo que a sonoridade traz para a leitura. Adorei especialmente a palavra “desoriginada”, o que pra mim é uma demonstração de domínio, de segurança do autor. “Murros na cara do muro” está dentre os excessos que apontei, achei um pouco forçado. E achei dispensável o “estrangulado” no fim, com ponto de exclamação e interrogação ao mesmo tempo. Preferiria que tivesse deixado ao leitor concluir por si mesmo.

Wilson Pereira

O conto atende à proposta do desafio. Trama bem construída, com fatos bem articulados. Apresenta um clímax surpreendente, provocando o o impacto de teor literário. A linguagem alcança inegável nível de literariedade. Emprega bem o recurso do discurso indireto livre.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal 8,0
Cinthia Kriemler  8,9
Marco Antunes  8,0
Nálu Nogueira  9,2
Wilson Pereira  9,0
Total  34,1