Terra de Milk and Honey

Cruz e Espada

A Esplanada dividida por cercas de metal, Vermelhos Possessos de um lado, Azuis Furiosos do outro, todos de punhos erguidos e slogans ensaiados, policiais rosnando atrás dos escudos, imprensa em êxtase (vai ser difícil escolher a manchete entre tantas notícias sensacionais), este é um dia decisivo para a Nação, dia de exercer a democracia nem que seja a chute, mas também de reunir a família na frente da tevê e entre uma pipoquinha e uma cervejinha emitir comentários profundos sobre a humanidade e ensinar às crianças o que é o espírito cívico e como ser boas cidadãs (nós prestamos, eles, não).
Que espetáculo bonito. Prostitutas, bichas, taxistas, servidores públicos, encanadores, desempregados, pequenos empresários, viúvas, baderneiros que copiam tudo o que vem de fora (aposto que nem sabem soletrar black bloc), fraudadores do INSS, bandidos e filósofos de toda estirpe. Nesses momentos o Brasil mostra o que realmente deseja: abraçar a fantasia mais barata. E revela sua vocação: o Carnaval, a festa que livra o caboclo do trabalho por três dias, que acabam virando sete por causa dos atestados médicos, e cria a ideia de um país alegre (ninguém se lembrará, no meio deste piquenique, dos milhares de homicídios) e racialmente integrado (moço, por favor, use o elevador de serviço).
– Vamos pousar, Doutor.
O helicóptero deixa a multidão para trás, dá uma volta sobre o Palácio da Alvorada e desce no heliponto do Brasília Apart Hotel, um endereço que sempre achei requintado demais para esta cidade meio xucra. Luxo demais para esses silvícolas (joga no google) adoradores do SUS e do bolsa família.
Apanho a mochila e dou uma corridinha até a entrada, onde sou recepcionado por uma modelo da Victoria’s Secret com uma taça de champanhe e um sorriso promissor.
Aqui no topo a algazarra dos manifestantes (sic) é um zumbido de abelha, não chega a incomodar e pode ser anulado com um toque de piano, exatamente o que encontro ao entrar no salão mais famoso do Hemisfério Sul. Conduzido pelas mãos delicadas da minha cicerone, ingresso no espaço que tramou a eleição de alguns presidentes e a destituição de outros tantos.
Nesta tarde a elite mais uma vez junta as mãos, se embriaga e conspira para que nada mude. Mas sou um cara lido. Conheço a Máscara da Morte Rubra e sei que não existe defesa contra a Peste. Limito-me a acenar para meus colegas de Forbes e vou para o elevador.
Desço até o vigésimo andar, suíte 2000, a melhor vista do pardieiro. Arranco o paletó, sirvo uma dose de uísque, ligo a televisão, acompanho o ronronar dos gatinhos que se acham tigres.
A campainha toca no horário programado. Desligo a tevê e verifico o corredor pelo olho mágico. Tudo certo. Abro a porta, o intermediário entra.
– Boa tarde – eu digo, simpático na medida para não levantar suspeitas.
Ele estica o pescoço, e só depois de se certificar de que não há mais ninguém no entorno responde:
– Boa tarde.
É jovem ainda. Está impaciente e um pouco assustado, deve ser sua primeira vez.
– Identificação, por favor – eu peço.
Ele mostra o antebraço esquerdo, eu confiro o sino tatuado. Não sei o que significa e também não me interesso. O que importa é preencher os campos do formulário.
– Tudo pronto? – ele pergunta.
Aponto a mochila sobre a poltrona, ele corre o zíper e vasculha o interior. Não enxerga o perigo e começa a contar o dinheiro. Bebo mais um gole para não perder a calma:
– Você conhece a profecia de Dom Bosco?
– Quem?
Vou até o criado-mudo, pego um santinho e começo a esfregá-lo. Ele se entretém com os cifrões, eu sigo o roteiro:
– No século dezenove Dom Bosco profetizou a criação de Brasília. Disse que aqui, entre os paralelos 15 e 20, seriam encontradas riquezas inconcebíveis. Sonhou que esta seria a terra do leite e do mel.
Ele interrompe o trabalho para dar uma risadinha:
– No nosso caso isso é verdade.
Abro um sorriso falso para acompanhá-lo na piada. Meu futuro depende dos próximos segundos.
– Fique com isto. É interessante.
Ele hesita por uma eternidade. Enfim apanha o pedaço de papel e joga sobre as pilhas já contadas. Lá fora os exércitos rangem os dentes e prometem o Apocalipse.
– Quando o Presidente vai autorizar?
– Hoje. O empréstimo sai em três dias.
A contagem chega ao fim. O intermediário fecha a mochila, a foto do santo se perde entre as notas.
– Obrigado – ele se despede.
– Até o mês que vem – eu digo, segurando a gargalhada.
Os passos somem no corredor. Pressiono o último número registrado no celular, uma voz grossa atende.
– O rastreador foi implantado – informo.
– Captamos o sinal. Gravação encerrada.
Desligo, vou até o banheiro e lavo as mãos para retirar o gel que usei para imantar o santinho. É incrível o que os cientistas inventam para aperfeiçoar a arte da traição.
Enfio a mão dentro da camisa e retiro o microfone que estava grudado no meu peito. Este aparelho minúsculo, que mais parece um adesivo de nicotina, vale a minha liberdade. Confirmou o que eu disse na delação e me livrou da cadeia. Todos os meus crimes foram purgados.
Em menos de vinte e quatro horas estarei nos Estados Unidos, para onde transferi oitenta por cento dos meus negócios. Negócios, diga-se, que adquiri com dinheiro emprestado pelo governo brasileiro. Quando estiver instalado na Quinta Avenida, de frente para o Central Park, vou desferir o golpe final: vender as ações da Companhia e comprar dólares.
Amo Dom Bosco e as tecnologias modernas. Amo o BNDES e o Presidente. Amo todos vocês. Goodbye, cucarachas!

Contagem: 941 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Ia bem, até cair no óbvio, no final. Mas está bem escrito, sem grandes altos e baixos que valha comentar.

Cinthia Kriemler

A ideia da semana para escrever o conto, para quase todos os escritores deste grupo, girou em torno dos acontecimentos envolvendo a JBS e o presidente. A sua foi a única diferente. O seu personagem é um delator. Apesar do tom panfletário do início, conseguiu dar um drible na vontade de fazer um texto apenas político e deu corpo a uma história plausível. A associação da “riqueza” da profecia com o enriquecimento ilícito, ou obtido por meio de uma estratégia econômica foi descrita com o devido cinismo. Bom conto.

Marco Antunes

Por Tutatis! Pontuação é uma arte perdida? Até o presente escritor que erra pouquíssimo tropeça em pontuação! “Que espetáculo bonito.” – O trecho é, obviamente, uma exclamação, marque-o com o sinal indicativo: interjeição! Ainda acredito que o presente autor tenha cacife e jogo de cintura narrativa para teatralizar mais seu texto e deixar a ação mais solta, porém o texto é excelente, nem vou ligar para os problemas de pontuação. O entrecho é ótimo! Que incrível imaginação tem esse autor, que ardilosos recursos ficcionais para criar essa realidade alternativa tão verossímil. Ah!, não, espere: bastava ler os jornais! O Brasil parece ficção, mas, para espanto do mundo, o absurdo aqui poderia se chamar quarta-feira. Brincadeiras à parte, a utilização do material real para construir essa história e atender ao desafio foi sensacional. Sem dúvidas, até aqui, o melhor texto que li em todas as três etapas do desafio.

Nálu Nogueira

Gostei do conto. Achei que o tom foi bem construído, combinando com o personagem, com traços de cinismo, desdém e um mau-caratismo charmoso, eu consegui visualizar bem este homem e o poder que dele emana, a superioridade com que se enxerga. Gostei muito da solução que deu para o sino tatuado – inseriu na história dentro e um contexto plausível sem criar mirabolâncias para dar ao leitor significados. Ponto negativo: achei meio perdido e destoando o “ronronar dos gatinhos que se acham tigres” – uma construção pobre, que pode sumir do texto sem nenhum prejuízo. Só não tem nota melhor porque a gente não sabe se é uma obra de ficção, daí não se pode dar muito crédito à imaginação do autor, né? Rs

Wilson Pereira

O conto esta de acordo com a proposta do desafio. A trama é interessante e está bem articulada e bem desenvolvida. É de se ressaltar a ironia bem aplicada ao contexto da narração. O desfecho é bem arrematado Linguagem correta, alcançando um nível literário satisfatório.

Nota

 

Jurados

Nota

Allan Vidigal  8,5
Cinthia Kriemler  9,5
Marco Antunes  10,0
Nálu Nogueira 9,5
Wilson Pereira  8,7
Total  46,2