Tesouro dos Brasileiros

José M. Umbelino Filho

– Klaus, ich bin müde… Oh, Gott.
Suspira a esposa de Klaus, antes de despencar no gramado do Parque da Cidade e tirar fora os sapatos como se fossem rolhas de garrafa. Pop, voa um sapato para a direita e Pop, voa outro para a esquerda. Anna, a esposa, está vermelha e esbaforida, os cabelos desgrenhados por causa do suor, as bochechas como beterrabas sujas, a camiseta em pingos. Ela considera ir para a sombra de uma árvore próxima mas desanima: naquele país, naquela latitude, naquela cidade, naquele trópico, mesmo as sombras são infernais. Pensa então no Elba prateado, correndo entre margens escuras, num dia frio de Hamburgo. Talvez se fossem para perto daquele lago ali… Mas o marido não escuta. Aliás, que marido? Que marido? Anna reafirma suas certezas de que na verdade se casou com uma toupeira.
– Warte mal, Schatz!
Klaus está de cócoras na base do relógio de sol, seus sapatos e joelhos enfiados na água suja. Ao seu lado, o Roger. Pobre Roger… O rapazinho tenta manter limpo o uniforme do hotel. Havia aceitado acompanhar os turistas por um dinheirinho extra e agora talvez se arrependesse. Aliás, é certo que se arrependia. Antes soubesse da latada, fugiria deles como o suor foge da pele num dia quente daqueles. Mas Klaus tem seu jeito especial de encantar as pessoas. Ninguém resiste àquele sorrisão infantil e ao entusiasmo com que ele acredita nas próprias asneiras.
– Roger, eu encontrar! – disse o Klaus, levantando-se.
– Encontrou, mister Klaus. Youfind?
O alemão mostra o quadrinho de azulejo solitário no fundo da piscina do relógio. É o único ali, no meio do cimento como que por descuido. Parece uma das peças de AthosBucão.
– É AthosBucão, não é?
– Ja! Ja! Aber… O que faz aqui sozinho?
– Pois é. Por que colocaram aí um azulejo só?
A pequena peça azul e branca quase não é mais visível. Está desgastada pela água e pelo lodo, puída pelo maltrato do tempo. Klaus limpou-a com as unhas para revelar suas formas irregulares. Um triângulo para cima, uma espécie de retângulo dentado no meio. Sozinha assim, tinha a aparência desconjuntada – não conseguia o efeito labiríntico que conseguem em conjunto os azulejos nas obras de AthosBucão.
– Anna! Foto!
Anna saca a velha máquina fotográfica, calça os sapatos com horror, e se arrasta até o relógio. Só naquele fim de semana, ela já havia tirado duas centenas de fotos de azulejos por toda a capital federal. Pontos de ônibus, palácios, ministérios, o diabo. E o pior é que precisava tirar dos ângulos tal e tal, das distâncias tal e tal – tudo a pedido do marido maluco. Blödmann… resmunga Anna. Klaus e Roger sentam-se à sombra da árvore:
– Seu Klaus, eu não sabia que tinha um azulejo ali. Didn’tknow.
– Ninguém saber, Roger. É mistério. Mas eu resolvo. Quase resolver já.
Klaus esfrega as mãos. Havia enfim encontrado a peça final de seu quebra-cabeça. Ele tentou explicar sua teoria para Roger, mas o que saiu foi uma mistura tão absurda, e adorável, de alemão, espanhol, inglês e português, que Roger só foi capaz de desentender. A toada foi tal qual:
– Roger….Manyyearsago, as piratas chegaram em Brasil. Sie warenausdenNiederlanden. Niederlande, ja?
– Nidalanda?
– Ja! Holanda.
– Holanda!
– Genau. Entonces, as piratas broughttreasure. Greattreasure. E a tesoura levada para interior da Brasil. Greattreasure, grande tesoura.
– Uma tesoura?
– Ja! Para guardar.
– Não, para cortar.
– Para cortar?
– Sim. Tesoura para cortar.
– Entonces. Grande tesoura para cortar aqui. Ja. Cortaram tesoura aqui, na meio do país.
– Você que tá dizendo, cara…
– Also… as pirata cortaram tesoura aqui. Essa pirata era,ahn, antepassado AthosBucão. Antepassado AthosBucão deixa mapa da tesoura.
– Mapa da tesoura? Ah, você quer dizer tesouro.
– Tesoura. DeshalbAthos fez mapa com azulejos. Todos azulejos representa mapa.Tem que decifrar. É código. Mistério. Precisa ligar pontos de todas azulejos até esse aí. Esse do relógio solvesthe puzzle! Haben Sie michverstanden?
– Festança? Que Festança? Então você achou um tesouro?
– Nein. A azulejo é entrada para mina. Tem um caminho debaixo da Erde. Debaixo de latierra. Azulejo é chave. Tem que decifrar como abrir.
Pobre Roger. Claro que havia um tesouro, mas ele não estava em Brasília. Em Brasília estão só os donos do tesouro. Então aquela peripécia, aquela história de fotografar azulejo aqui e acolá, não passa da alucinação de alemão doido.
– Seu Klaus. Mister Klaus. É o seguinte: os holandeses não deixaram tesouro aqui. Nem chegaram aqui. Eles levaram com eles. Understand? Todos os estrangeiros levaram os tesouros com eles. Não esconderam aqui. Aqui ficamos só nós, a pátria dos sem-tesouro. – Mas o Klaus não escuta. Talvez fosse mesmo uma toupeira.
– Woist Anna? Donde está Anna?
Anna não está mais lá. Eles rodeiam o relógio, olham o campo ao redor e nada. Roger consegue enxergá-la na distância, lá do outro lado da praça, tomando um sorvete na companhia de um brasileiro. Mas Klaus não a enxerga; ele se agacha sob o relógio.
– Look, Roger!
O azulejo está amassado como se alguém tivesse batido nele com um martelo. Ou com um sapato. E arranhado, provavelmente por raiva. Klaus está excitadíssimo.
– Roger, Anna descobrir passagem! Ela está dentro de latierra agora. Temos que seguir ela.
Roger quase mostra a Klaus onde está a esposa. Depois reconsidera. Pensa no sol matador acima de sua cabeça, pensa nas bordas sujas do uniforme, pensa no final de semana perdido. E depois pensa nos holandeses, nos piratas, nos portugueses e no presidente da república. Então prefere não dizer nada. Volta para a sombra da árvore, bem de mansinho, e deixa o Klaus em sua procura pelos tesouros do Brasil.

Contagem:  975 palavras

Comentários

Allan Vidigal

Poxa, estava indo tão bem até começar com politiquice rasa… Engraçado como até a qualidade da linguagem muda quando muda o foco do conto. A nota é pelo trecho que vai até “Tem que decifrar como abrir”.

Cinthia Kriemler

Que texto gostoso! Li num xuá. Leve, despretensioso e bem escrito. Gostei demais. E cumpre muito bem o desafio. O inglês errado do funcionário do hotel, a descrição da esposa largada na grama, o alemão obcecado por tesouros, o trecho em que o rapaz faz a confusão entre “treasure” e tesoura. Uma pergunta: você errou mesmo a grafia do nome de Athos Bulcão? Eu achei que sim, mas quando percebi uma possível analogia entre Bucão e pirata (Bucaneiro), tive dúvidas se não foi de propósito. Vou ficar sem saber. Mas por causa da dúvida comi 0,1 da sua nota.
O seu texto, com ou sem erro proposital, é uma delícia. Uma coisa boba que arranca risos é uma coisa boa. Parabéns!

Marco Antunes

Enfim, nesta rodada, um bom exemplo de ação dramática interior e fluxo de consciência, já no primeiro parágrafo, um presente de competência narrativa. O diálogo confuso é, no entanto, dotado de muita graça e humor. O entrecho é quase elementar, mas agrada, o texto flui, a ação está à vista do leitor. Não está perfeito, mas vou ignorar as pequenas arestas pela qualidade geral do conto.

Nálu Nogueira

Achei superdivertida construção dessa história, os diálogos com a barreira da língua estão ótimos, o tesouro/tesoura, achei muito bem sacado! Os pontos negativos, para mim, foram: muitas expressões em alemão, algumas que o google não conseguiu traduzir; não obstante os diálogos seram a grande sacada do texto, faltou, ao meu ver, certo zelo do autor na verossimilhança, pois há trechos em que Klaus subitamente está falando Português – e são falas longas. Penso que poderia ter reduzido as falas para manter a atrapalhação com as palavras que foi tão bem anunciada; por fim, me incomodou o fato de que o conto começa com Anna, passa por Klaus e, surpreendentemente, termina destacando o funcionário do hotel. Essa alternância, a meu ver, enfraqueceu o protagonismo de Klaus.

Wilson Pereira

O Conto está de acordo com a proposta e é bem estruturado. Tem um toque de humor, devido à linguagem do personagem (turista alemão). Falta, no entanto, um pouco mais de vibração, de vigor narrativo.

Nota

Jurados

Nota

Allan Vidigal 9,0
Cinthia Kriemler 9,9
Marco Antunes 10,0
Nálu Nogueira 8,5
Wilson Pereira 8,4