Todos os sinos

Rosa

No início, como em qualquer coleção, não havia muito critério. Eu via determinado sino numa loja, e queria; via um sino com algum vendedor ambulante, e queria; via alguém a carregar um sino pela rua, e dava um jeito de conseguir. Mas depois, como em qualquer coleção, passei a definir o que realmente interessava. E muito mais do que formatos, tamanhos ou procedência, eu queria ter, em minha coleção, sinos feitos a partir de diferentes materiais. Por isso, passei a substituir os repetidos. Troquei três sinos de ferro por um de madeira. Desfiz-me de nove sinos de estanho e dei lugar a um de meteorito, dos mais raros, vindo do Nepal. Também consegui um generoso espaço no lado direito da janela deste apart hotel, onde havia uma prateleira repleta de pequenos sinos esmaltados. Ali, exponho agora um fabuloso sino de mil trezentos e doze quilos, talhado em ununséptio e espero nunca precisar remover. Mas peso ou tamanho nunca foram sinônimos de importância para os itens desta coleção. Diferentemente do que fazia no início, agora eu tenho critério, muito critério.
Vim de Alcântara com mamãe. “Aqui não dá mais”, dizia ela. Queria vir pra Brasília, era a terra prometida, mencionava, segurando o santinho de Dom Bosco. Eu tinha quatro anos, talvez cinco, mas ela dizia que eu tinha sete. “Sete aninhos, tá um mocinho”. Mas eu não tinha sete, tinha quatro, talvez cinco e nem foi pra Brasília que viemos, a gente veio morar em Guará.
Esse foi o primeiro apart hotel em que entrei. Mamãe dizia não poder me deixar sozinho. Era nesse sofá que eu ficava. Uma hora, duas horas, depois que o homem a chamava.
– Só uns minutinhos – dizia, dando um beijo em meu rosto. – Mamãe já volta.
Depositava o santinho na minha mão.
– Fica com Dom Bosco.
De todos os sinos que eu havia conseguido para minha coleção, esse seria o mais difícil. Por isso, planejei cuidadosamente, para que nada saísse errado.
Eu havia comprado o apart hotel com o dinheiro do prêmio. “Não se compra apart hotel”, disseram. Mas eu comprei, foi com o dinheiro do prêmio, queria esse apart hotel no meu nome, não para morar, mas para os sinos. Sou cartesiano, organizado e, como gosto de salientar, tudo deve estar no seu devido lugar. Por isso, guardei este espaço exclusivo para o sino que estava por vir. Um lugar seguro, reservado e que não estivesse sempre ao alcance de meus olhos. Alegra-me o fato de não poder vê-lo estando nesse sofá sentado. Alegra-me muito.
Era nesse sofá que a gente ficava, exatamente neste assento. Mamãe sentava ao lado, sempre com o santinho de Dom Bosco nas mãos. Eu a via lendo o verso do santinho. Lia como se rezasse.
– Quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destes montes, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível – repetia inúmeras vezes, em palavras rápidas.
Não sei quantas vezes ficamos sentados esperando. Foram muitas. Mas lembro cada uma. A gente chegando, o porteiro mandando subir, a gente sentando no sofá e eu querendo que o tempo parasse, para não ficar sozinho.
– Só uns minutinhos – dizia.
Então ela levantava-se.
– Fica com Dom Bosco, reze.
Quando o homem chamava, eu apertava os dedos no papel do santinho e os dentes no lábio inferior.
– Pode vir – dizia ele.
Acho que era isso que dizia, falava alto, como se gritasse, mas eu não o via. Apenas ficava lá, com Dom Bosco nas mãos, por uma hora ou duas. E nunca o via.
Quando penso em Dom Bosco, fico sem saber se o odeio por ter nos trazido para Brasília ou por ter sido minha única companhia enquanto mamãe estava no quarto.
– Pode vir – ouço essa voz toda vez que sento nesse sofá.
Então ela ia. A cama chocava-se contra a parede, eu escutava a cama chocando-se contra a parede e não era o mesmo barulho de quando eu saltava por sobre minha cama e ela batia nas tábuas. E ouvia mamãe respirar alto, respirar fundo.
Nas primeiras vezes, apertei Dom Bosco e repeti a oração. Eu sabia a oração de cor de tanto que mamãe a rezava. Mas eu só fazia isso para tentar não escutá-la. Ela dizia que precisávamos daquilo. Precisávamos pagar o aluguel, pagar a mercearia e talvez guardar pra pagar uma escola boa.
Porém, mamãe jamais me viu em escola boa e o dono da mercearia ainda tem seu nome anotado lá no caderninho. Jurei não pagar.
Da última vez que mamãe entrou nesse apart hotel, o santinho de Dom Bosco estava tão amassado que não dava mais pra enxergar a oração. Mas ela rezou, como sempre. E, daquela vez, ela realmente só ficou alguns minutos no quarto, só uns minutinhos. Logo que entrou, o homem falou alto, falou gritando e percebi que a cama não batia na parede. Daquela vez, ouvi outro barulho, um barulho de coisa caindo. Então a porta abriu e vi o homem, foi a primeira vez que o vi. Ele estava sem camisa, tinha pelos pretos, a pele branca e um sino tatuado no braço. Carregou mamãe sem roupa até o sofá e me mandou sair. Jamais esqueci o braço dele, com o sino tatuado na altura do deltoide, o corpo de mamãe repousado sobre ele.
Eu não pretendia voltar aqui. Mas, depois do prêmio, comprei esse apart hotel. Trouxe minha coleção pra cá. A arte de colecionar exige ao colecionador minuciosa atenção aos detalhes e à conservação de cada item. Por isso, mandei retirar a cama e o pequeno armário do quarto. Também mandei tapar a janela. No local do armário, instalei uma câmara refrigerada, transparente, frente a uma cadeira espaçosa e confortável, com descanso para os braços. De todos os sinos que eu havia conseguido, esse seria o mais raro. Por isso, planejei cuidadosamente, para que nada saísse errado. Há poucos instantes, o porteiro avisou pelo interfone, ele finalmente estava chegando.

Contagem: 994 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Conto muito bem construído, em especial o clima psicológico desenvolvido. A tensão emocional que acompanha as cenas de espera do menino gera indignação e dor. Interessantíssimo o simbolismo atribuído ao santinho, que a mãe “lia como se rezasse”, até que na cena mais dramática ele fica “tão amassado que não dava mais para enxergar a oração”. A ideia de posse é trabalhada no texto de forma muito objetiva e ao mesmo tempo tão sutil: a posse dos sinos, a posse da mãe. Uma preciosidade esse jogo de sentidos! Pequena sugestão: que tal se, em vez de “o corpo de mamãe repousado sobre” o termo usado fosse caído ou inerte?

Celso Bächtold

Muito bem escrito, trata da chegada de uma mulher e seu filho a Brasília, como muitas das histórias que se ouve por aqui. Porém, essa tem algumas especificidades que a diferenciam, o que a torna bem atraente. Gostei!

Paulo Fodra

A história tem uma premissa bem interessante e a narrativa consegue prender. Gostei bastante do final aberto, apenas levemente sugerido, mas achei que o tal prêmio não explicado soou muito dissonante e pouco verossímil no meio de um texto tão bem planejado, quase um ‘deus ex machina’, que coloca tudo a perder.

Roberto Klotz

A abertura é boa, mas não provocativa a ponto de fisgar leitores no primeiro instante. Sou antigo, da época em que os elementos químicos eram encontrados na natureza. Precisei pesquisar para também descobrir o ununséptio. A idéia é originalíssima, porém de imediato, veio a inverossimilhança: mil trezentos e doze quilos de ununséptio, material microscópico. Pelo que entendi o apart hotel ficava no Guará, bem distante do Palácio da Alvorada. A história fica repetitiva, e demorada enquanto a menina aguarda a mãe. O final era previsível, entretanto com os elementos taciturnos e mórbidos foi muito bem elaborado. Se fosse enxuto minha nota seria bem mais alta.

Simone Pedersen

Um conto eletrizante. Os elementos do desafio foram atendidos. Tem 12 vezes “mas”. Tem 11 vezes “mamãe”. Cito alguns detalhes abaixo:
Não precisa repetir essa informação:
Eu havia comprado o apart hotel com o dinheiro do prêmio. “Não se compra apart hotel”, disseram. Mas eu comprei, foi com o dinheiro do prêmio”.
“Eu não pretendia voltar aqui. Mas, depois do prêmio, comprei esse apart hotel.”
Gostaria de saber qual prêmio é esse. Literário não deve ser, se deu para comprar um hotel.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  10,0
Celso Bächtold 9,5
Paulo Fodra 9,0
Roberto Klotz 8,8
Simone Pedersen 9,5
Total  46,8