Trigger

Eclipse Penumbral

Speed observou o enorme prato de concreto com a marcação das horas. Nunca soube ler horas em relógio que não fosse digital, mas aquele dali fazia ainda menos sentido em sua numeração incompleta iniciada angularmente. Além disso, era o mês de janeiro, e nesse mês o sol não tinha acesso ao marcador em ângulo adequado, não marcava as horas como poderia, o que complicava ainda mais até mesmo para um observador mais atento. Com a cabeça anestesiada pelo crack, Speed não julgava a sabedoria da obra, apenas observava a sombra lunar da estrutura no espelho d’água.
Ao mesmo tempo observava o homem loiro com pinta de estrangeiro sentado na grama logo ali em frente. Os olhos azuis incomodaram o rapazola, olhos de gelo, olhos do padrasto, olhos do agente da Unidade onde ele esteve internado pelos últimos meses, olhos opressores. Seu estômago se agitou contrariado, o primeiro gatilho acionado.
O alemão, entrementes, não se sabia observado. Focava numa atividade desenvolvida metodicamente depois que o funcionário da Fundação Athos Bulcão deixara o azulejo com ele. Segundo o tal funcionário, a peça fazia parte de uma caixa de azulejos originais guardada no depósito da sede e que poderia ser desviada por uma pequena fortuna. O alemão sabia que aquele azulejo muito provavelmente seria uma falsificação, que o melhor seria mandar fazer uma análise antes de fechar o negócio. Após guardar a peça em sua mochila e de se despedir do negociante, ele resolveu se sentar no gramado do Parque da Cidade observando a lagoa, e aproveitou para desembrulhar o lanche comprado mais cedo. Então encontrou outra ocupação.
Foi quando apareceu o cachorro amarelo de olhos mendigos. E foi quando ele meticulosamente juntou algumas pedrinhas e passou a atrair o animal com um pedacinho de pão para em seguida enxotá-lo com uma pedrada. O cachorro não conseguia resistir à isca e voltava a se aproximar entre ansioso e assustado, o rabo balançando entre as pernas. Entre uma ação e outra o homem alisava seu cabelo para trás, hábito adquirido ainda jovem, desejoso de mante-los em perfeita organização, o que era difícil sendo os fios tão finos. Sistemático. Obsessivo. Não demonstrava prazer ou raiva em sua tarefa, somente concentração. O alemão refinava sua mira sem saber que acionava com isso um segundo gatilho em Speed. O garoto gostava de cachorros e este em especial lembrava muito no porte e cor a sua companheira do período em que morou com a avó na Ceilândia. Mel sempre esperava por ele na saída da escola até o dia em que foi atropelada. Dia de tristeza, a vida não fazia mesmo sentido.
O “loiro aguado” certamente teria um celular que Speed poderia trocar por umas pedrinhas de crack. Possivelmente grana viva. A mochila prometia fartura. A contrariedade com a atitude maldosa engendrada através dos gélidos olhos azuis exigia uma resposta. Afinal, não tinha sido por acaso que eles tinham se encontrado. O padre que frequentava a Unidade de Internação falou sobre isso. Nada acontecia por acaso, tudo era parte do plano divino. Speed sentiu a verdade daquelas palavras como uma ampliação de consciência. Deus tinha definido aquele encontro em sua agenda global.
A mão direita se aprofundou no bolso da bermuda buscando ali o canivete ainda fechado. A droga dava a necessária tranquilidade para a aproximação sorrateira. Poucas pessoas caminhavam por ali naquele final de tarde e Speed se certificou de que não havia nenhum guarda ou segurança, nenhuma pessoa muito próxima.
O cão ganiu de dor no mesmo instante em que Speed deu voz de assalto:
– Passe a carteira e o celular – enquanto apontava o canivete agora com seu gume exposto.
Quando o alemão quis escapulir rastejando pela grama o jovem não hesitou em furá-lo na barriga, e furar novamente ao sentir aquele olhar azulando seu rosto, a raiva das surras levadas empurrando a lâmina no toco. Segurando o sangue que escorria, sem coragem de reação ou de palavras, o estrangeiro entregou o celular que estava no bolso e apontou a mochila, apavorado. Speed, com uma lentidão que não justificava seu nome, antes de outra coisa despedaçou o lanche para o cão que abanou o rabo feliz e engoliu tudo em poucos bocados. De dentro da mochila ele pegou um passaporte vermelho e a carteira que ali estavam.
Foi quando ele se deparou com o azulejo. E o reconheceu de uma oficina de artes que tinha acontecido poucos meses antes na Unidade. Era o homem pássaro do artista Culhão, como os meninos diziam aos risos, debochando da pintura, coisa “de mulherzinha”, alguns sem mesmo entender o significado da palavra “culhão”.
O homem pássaro estava na parede de alguma igreja da cidade, de cabeça para baixo, insistia a organizadora daquele evento. Um voo destinado a quebrar-lhe o pescoço, riram os desenhistas aprendizes. Homem avião da esquadrilha da fumaça, reconheceu Speed, que assim o desenhou no papel. Pássaro branco em azulejo azul. Outro azul este: feliz, azul quente.
Quero, pensou. Quero, levou.

Contagem:  823 palavras

Comentários

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão)

Abertura curiosa. Abusou no uso dos pronomes da família “aquele” com sete ocorrências. Gostei da escolha do nome para o personagem. Muito boa a expressão “cachorro amarelo de olhos mendigos” usada pouco após “olhos opressores”. Mantê-los sem acento é assinaldo pelo corretor ortográfico: merecia mais atenção. Hilária a condição “Deus tinha definido aquele encontro em sua agenda global.”Chocante, o final é forte e ao mesmo tempo poético. Perfeito.

Ana Vilela

Enredo fraco.
Nem tudo precisa ser dito, por exemplo: “o primeiro gatilho acionado.” Já está bem claro ali que algo incomodou o menino. Deixe que esse gatilho fique para o leitor perceber.
Tente evitar excessos, por exemplo: “Seu estômago se agitou contrariado”. Ou agitou ou contrariou, porque, se ele se agitou, já é evidente que o garoto se contrariou.

Betty Vidigal

Revisão:
● Complicava o que ainda mais? A frase pede um objeto direto para esse complicar…
● “Após guardar a peça em sua mochila e de se despedir” – ou “Depois de guardar a peça em sua mochila e de se despedir” ou “Após guardar a peça em sua mochila e se despedir”.
Mesmo no primeiro caso, poderia ser sem o “de”.
Muito bom.

João Paulo Hergessel

O texto é muito bem escrito: as palavras parecem se encaixar naturalmente, exaltando suas virtudes e carregando consigo um arsenal misto de sonoridade e significância. Os personagens estão bem delimitados, sobretudo em seu caráter psicológico. Ressalto dois pontos que não me agradaram: o reforço do estereótipo de que dependente químico é sinônimo de assaltante; e a presença do azulejo, que foi incluída sem protagonismo. O cachorro é o verdadeiro elo entre Speed e o alemão (que também se torna secundário na história); o azulejo é apenas um elemento inserido para despertar uma memória que já havia sido despertada anteriormente – sem necessidade de nova retomada. Talvez fosse o caso de o alemão desprezar o azulejo do vendedor (que só é mencionado na história), o Speed assistir à cena e se render ao encanto. Ou ainda que o alemão acreditasse na história do vendedor e depois o Speed cumprimenta o vendedor como sendo seu colega da reabilitação, o que se destacava nas aulas de artes. Enfim, existem pontas no desenvolvimento que poderiam ter proporcionado um desfecho mais bem costurado e convincente, sem tendência a preconceitos ou justificativas forçadas.

Oswaldo Pullen

Apesar do primeiro parágrafo inverossímel em sua análise crítica do relógio de sol realizada por um personagem “dopado” e que não conseguia ver as horas senão em um relógio digital, o conto se desenvolve bem, tomando o interesse do leitor quando descreve a ação entre o turista e o cachorro. O encerramento também corresponde, mantendo o mesmo nível que o resto.

Nota

 

Jurados

Nota

Roberto Klotz (substituindo Alexandre Lobão) 9,5
Ana Vilela 7,0
Betty Vidigal 9,6
João Paulo Hergessel 9,0
Oswaldo Pullen 9,5