Um dia especial

Tamires Nur

Era noite. Ele abriu a janela do hotel e clamou:
— Pessoas, estou tendo uma visão… uma visão! Anjos me saúdam, sou um profeta! Os sinos estão tocando por todo lado, todos os sinos, todos! Ouço uma música celestial! Dom Bosco, meu protetor…é um chamado! Aleluia!
A mulher, assustada, disse:
— João, não há sinos tocando.
— A profecia de Bosco me diz que este é o momento da cidade jorrar leite e mel… homens sem vício!
— João, o santinho é um chamado turístico, e só!
— Aqui estamos, perto do poder do Alvorada, mas quem são os homens diante de Deus? Eu estou aqui para guiá-los até Ele!
—João, acalme-se, você está agitado, vamos, sente-se!
João voltou-se e vestiu a túnica, já trazida na bolsa. A mulher em desespero, pede auxílio na recepção. Ele, em fúria, detém-na e lança, ao chão, algumas peças do apartamento.
— Pare, João, o que está fazendo?
Disse também que ouvia vozes chamando-o para o apostolado. Ele parecia alucinar. Juliana conseguiu ajuda. Trouxeram a ambulância. Já era de manhã e a comitiva do palácio despontava. Acionaram a sirene, abrindo espaço para João.
— Calma, João, vai passar, fique tranquilo!
Meses depois, controlado por medicamentos fortes, João conta a um médico, com a presença da mulher, fatos daquele dia.
— Nós tínhamos saído para comemorar os meus trinta anos em um flat, só nós dois. Ficamos bem à vontade naquelas espreguiçadeiras, curtido a grama verdinha e as flores da estação. Sabe, doutor, comemos, bebemos bem. Juliana, minha mulher, curtiu um bebê que descobria a mãozinha, batendo-a insistente sobre a coxa gorda. Conversamos muito, vimos filme de ficção: criaturas com dentes enormes, em forma humana e com asas, que habitavam o centro da terra. Elas saíam, e voavam em bandos para o céu. E depois, voltavam para atacar as pessoas! Até aí eu estava bem, satisfeito com minha maioridade espiritual: tinha avançado nos trabalhos da igreja e vislumbrava novo projeto de evangelização. Lembramos momentos juntos, desde o nosso casamento na Dom Bosco, onde fui também batizado. Recordei com carinho as vivências juvenis, dedicadas ao santo vidente, na diocese da cidade. Minha vida sempre foi referida à dele. Falamos do nosso amor, dos anos passados fora, dos cursos de poderes paranormais que fiz. Foi quando ela me censurou:
— Você é excessivo em suas grandezas, acha que levará todo o mundo à virtude!
— Fora isso, esteve muito carinhosa comigo e vivemos boas horas de intimidade. Naquele dia, acho, houve uma convergência de fatos. Tinha encontrado o santinho da profecia no criado mudo, fiquei gratificado. Esta marca no corpo, tatuada no umbigo, atesta minha fé religiosa; eu tinha sido salvo por meu santo — quando menino, tive um acidente grave, no pescoço, com o cerol da pipa. Estávamos, então, num momento de descontração, antes do bolo de chocolate. Juliana passou a mão, desavisada, pela minha barriga e este sino resolveu apitar! Imagine, uma profusão ensurdecedora de tons…e era bonito, bom de se ouvir, eu sentia algo de irreal, mas isso estava presente e me beatificava. Era uma epifania, entrei em êxtase. Depois veio o que o senhor já sabe. Porém, tive um momento de lucidez, mais tarde, no carro que me levava ao pronto-socorro. Ouvi o homem de branco comentando, baixo, sobre o meu caso:
— Eles começam a aparecer de novo, como no tempo de Jesus. Afinal, já são dois mil anos!
— E não é que ele tinha razão? Tinha e continua tendo, doutor… Vim à Terra para salvar os homens do vício!

Contagem: 576 palavras

Comentários

Alexandre Lobão

A história está interessante e sem maiores erros de gramática, pontuação ou ortografia.
Quanto à continuidade, deveria haver uma linha em branco adicional ou uma marcação estilo “* * *” antes de “Meses depois…”, para não causar estranheza ao leitor.
No entanto, há alguns pontos a melhorar:
– Se o personagem teve a visão inesperadamente, como narrado na segunda parte, e se estava em comemoração com a esposa, porque levou uma túnica? Isso ficou incongruente ou mal explicado.
– A escolha por contar a história em dois tempos acabou por gerar duas partes que se completam, mas que não parecem funcionar bem em conjunto – talvez porque a segunda parte inclua muito mais detalhes do que o que apareceu na primeira, incluindo background do personagem.
– A inclusão da fala da esposa com travessão e tudo na segunda parte também não ficou muito adequada no contexto de narração do passado do protagonista.
Por fim, a frase final “vim à Terra salvar os homens do vício” não parece ser a conclusão lógica das visões e da epifania, que parecem apontar para João ser um profeta enviado por Deus para preparar o caminho para a vinda de Jesus ou algo do gênero – é a primeira vez que se fala em “vício” no conto.

Ana Vilela

O texto não chega a ser um conto, faltam elementos. Não há uma trama ou um ápice, por exemplo. Neste ponto (— Calma, João, vai passar, fique tranquilo!
Meses depois, controlado por medicamentos fortes, João conta a um médico, com a presença da mulher, fatos daquele dia.
— Nós tínhamos saído para comemorar os meus trinta anos em um flat, só nós dois.) há uma quebra na história. Talvez acalmar o personagem com a internação não fosse a melhor saída, não sei ao certo. Não esperava isso, mas desdobramentos da cena anterior. A tática da quebra brusca funciona em alguns casos e pode ser até bem interessante, mas aqui parece mais uma fuga. Manter na boca de João a explicação para o que houve retira a força do texto. Melhor seria deixar os fatos se desenrolarem, conduzindo o diálogo, que é bom, dá agilidade, e a ação; construindo, de fato, uma história breve.
O final é bom. Deixa a dúvida se João é louco ou um enviado.

Betty Vidigal

− Quando a gente põe diálogos num conto, num romance, num roteiro, tem que usar frases que as pessoas diriam. Ninguém fala como se escreve, a linguagem falada é diferente da linguagem escrita.
− Não chega a ser um conto, apesar da extensão. Às vezes, um texto de 2 linhas já é um conto. Às vezes algumas páginas não chegam a formar um conto. Este aqui estava começando a se delinear. Falta muito para que haja uma estória.
• Rever o texto todo. Muitos erros, principalmente de tempos verbais.

João Paulo Hergesel

O conto se inicia de uma forma prazerosa. Consegui visualizar a cena e dei algumas risadas com o que vinha acontecendo. No entanto, quando a narrativa entra em abismo (surge uma história dentro da história) com o relato ao médico, a sensação de frescor, de vivacidade, de comédia se perde. O conto termina arrastado e nem a fala final resgata o humor dos parágrafos iniciais. Foi uma pena ter mudado o estilo.
Comentário estilístico:
1) De “zero” a “dez”, pode-se grafar por extenso. A partir de “11”, grafa-se por algarismos, excetuando “cem” e “mil”. Casos isolados: costuma-se usar algarismos para horas, datas, idades, endereços, valores monetários, porcentagens, graus de temperatura, graus de latitudes e longitudes, comprimentos, pesos, capacidades, áreas, volumes, resultados esportivos, resultados de votação e números sequenciais.

Oswaldo Pullen

Conto bom, mas com alguns reparos. O Palácio da Alvorada teve que ser cortado ao meio para ser encaixado, e sino toca ou badala, mas não apita…

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandre Lobão  7,5
Ana Vilela  8,0
Betty Vidigal  6,2
João paulo Hergesel  8,5
Oswaldo Pullen  8,6
Total  38,8