Um novo princípio

Capitão Birobidjan

Ao deixar a alfaiataria, Breno Sabona acendeu um cigarro para ter alguma companhia até o ponto de táxi. Andava insatisfeito com seu papel junto à loja maçônica da qual era membro. O pai de criação havia sido um importante mestre, não lhe parecia certo que a ordem somente o utilizasse como mero reparador de balandraus danificados.
Do outro lado da Rua das Noivas, o jovem alfaiate pensou ver a si próprio guardando uma grande caixa dentro de um carro, tamanha a semelhança entre ele e um cliente que havia saído da Maison Bouquet. Abismado, atravessou a pista e foi conferir de perto aquilo que julgava ser impossível.
O outro homem também reagiu com semelhante estranheza à presença de sua cópia perfeita. Examinaram, estremecidos, seus narizes núbios, olhos encovados e lábios proeminentes. Eram idênticos. Passado o espanto inicial, disseram seus nomes, mais por curiosidade do que por cortesia. O sósia se chamava Afonso Cordeiro. Vivia em Petrópolis, mas se casaria em Brasília, cidade onde sua noiva e ele haviam nascido.
Arrebatado pela novidade, Breno convidou Afonso para um chope no bar Poizé. Afinal, precisavam aliviar-se do susto e desvendar o mistério refletido em seus rostos. Após conversarem por duas horas ─ muitas vezes sendo interrompidos por um animado grupo de madrinhas ─, descobriram que ambos nasceram no mesmo dia e haviam sido retirados do orfanato Casa de Ismael por suas famílias adotivas.
— É isso! Somos irmãos. Se você também não tiver tatuagens ou grandes cicatrizes, poderia até casar no meu lugar — brincou Afonso. — Preciso ligar para Micaela!
— Sua noiva?
— Sim. Casaremos em julho. Vim buscar seu vestido.
— Não é supersticiosa?
— Você não imagina o quanto! Mas a caixa foi devidamente selada. Acho que passarei em meu último teste de fidelidade antes de nosso enlace.
— Me fale sobre ela. Como é? Do que gosta?
― Micaela… ― suspirou Afonso sem reprimir a satisfação que a simples pronúncia daquele nome lhe causava. — Me apaixonei por uma doida ligada em magia wicca, uma acumuladora crônica de artefatos esquisitos.
― Sério? ― duvidou Breno, divertido. ― Então, talvez, eu tenha o presente perfeito de casamento. Explico. Além de alfaiate, sou maçom. É provável que ela se interesse por algo utilizado em nossos ritos.
― Maçom? — surpreendeu-se Afonso — Como no livro do Dan Brown?!
― Aquilo é uma bobagem. Não formamos uma sociedade secreta, mas discreta. Não há segredo algum. Também não somos conspiradores nem assassinos, apenas homens livres em busca de um novo princípio. Tenho certeza de que sua noiva gostará de ter uma adaga maçom em sua coleção ― sugeriu Breno com uma piscadela.
― Adaga maçom?! Ela vai surtar! Cara, se meus velhos ainda fossem vivos, ficariam felizes por nós dois. Um irmão. Tenho um irmão gêmeo! Olha, estou hospedado aqui perto, no Athos Bulcão. Micaela chegará amanhã para experimentar o vestido e, depois de meio-dia, irei conhecer meus sogros e cunhados. Almoce com a gente. Será uma surpresa e tanto!
― Calma, meu duplo! Primeiro, vamos tirar esta história a limpo. Deve haver registro de nossa passagem pela Casa de Ismael. É prudente investigarmos. Daí, se confirmarmos o que está escrito em nossas caras, você me leva de convidado surpresa no seu casamento. Fechado?
— Deus! É como se eu ouvisse minha própria voz em um gravador! — surpreendeu-se Afonso antes de conferir o relógio. — Breno, estou atrasado. Nos encontramos amanhã? Preciso ir. Tenho um pen drive com vários vídeos de meus irmãos e também dos parentes da Micaela. O editor quer o material ainda hoje.
― Ei! Ainda nem sequer comparamos nossos mamilos e você já está tentando se livrar de mim? Minha alfaiataria é logo ali. Há uma pequena sala nos fundos cheia de objetos deixados por meu pai, inclusive adagas ritualísticas. Vamos, deixe seu irmão lhe fazer uma primeira gentileza.
— Seu pai não se incomodará?
— Meu pai está morto. Não há mais judeus no negócio da família.
Inebriado por sua notória embriaguez e pelo caráter inusitado daquele encontro, Afonso permitiu que Breno o guiasse pela Rua das Noivas até a oficina, a duas quadras dali. Esquivando-se de ternos dependurados, tentavam conter o riso com as mãos, mas era inútil. Às gargalhadas, adentraram um cômodo abarrotado de livros, estandartes, chapéus exóticos e aventais com símbolos milenares. Breno fez correr a gaveta de uma mesa em mogno e revelou a Afonso um fino tecido negro bordado com imagens de sóis e luas dourados. Sob o pano, descansavam quatro belas adagas.
― Escolha uma ― disse Breno, com um olhar matreiro.
― A prateada é linda.
Ofuscado pela preciosidade das relíquias, Afonso nem sequer viu o movimento do braço de seu anfitrião no instante em que este o atingiu na nuca com uma menorá, fazendo com que caísse desmaiado. Depois de se utilizar do corpo prostrado para montar uma cena de crime macabra, Breno vestiu-se com as roupas de sua vítima e manteve o rosto empedernido ao passo que enterrava com vagareza a adaga no peito gêmeo.
— Enjeitados não têm irmãos.
O assassino chegou ao hotel Athos Bulcão dirigindo com naturalidade o carro de Afonso. Ao recepcionista, disse ter perdido a chave e solicitou que o mensageiro o acompanhasse até a suíte, levando a caixa com o vestido de Micaela. Depois de acomodado, fumou descontraído enquanto decorava os nomes e rostos presentes nos vídeos caseiros. Dormiu satisfeito e sem remorso sobre a cama que, muito em breve, dividiria com a futura esposa de um homem morto.
No dia seguinte, a diarista responsável pela limpeza da Alfaiataria Sabona chamou a polícia após encontrar, na salinha dos fundos, um cadáver de olhos vendados, sem um dos sapatos, vestido em trajes cerimoniais e com uma adaga cravada no peito. Durante a perícia, os investigadores se convenceram de que o jovem proprietário havia sido executado por um colega maçom em um ritual bárbaro.
Não tão longe da Rua das Noivas, Micaela havia trancado seu futuro marido do lado de fora do quarto a fim de experimentar o vestido de casamento. Uma vez sozinha, lamentou:
— Ele voltou a fumar.

Contagem: 995 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Fiquei impressionada com a brilhante sacada da motivação do crime: “Engeitados não têm irmãos”. O desiquilíbrio de Breno, configurado desde o início do conto, o clima emocional do encontro dos gêmeos, contrapondo-se ao clima de frieza que se segue, e o contraste psicológico entre os gêmeos, fisgaram meu interesse pela história. Ótimas descrições faciais, que poderiam talvez ter sido completadas com outras características que configurassem uma “cópia perfeita”. Título bem adequado ao texto.

Allan Vidigal

Muito bom, mas duas coisas me incomodaram: os diálogos me soaram muito artificiais; e a linguagem em geral é meio empolada.

Ana Vilela

Adorei isso: “Não tão longe da Rua das Noivas, Micaela havia trancado seu futuro marido do lado de fora do quarto a fim de experimentar o vestido de casamento. Uma vez sozinha, lamentou:
— Ele voltou a fumar.”
Bons o texto, a construção, o roteiro. Mas um gêmeo trocar de lugar com o outro é já muito visto. Ainda mais com assassinato.

Betty Vidigal

Muito bom. “Ele voltou a fumar” é um final ótimo. Concluírem que o assassino é um colega de maçonaria, também. Já o assassinato era previsível, desde o momento do convite, mas afinal… É muito difícil escrever um conto imprevisível. Em vez de dizer que a diarista encontrou “um cadáver”, melhor dizer que encontrou o patrão.

Celso Bächtold

O argumento desse texto é semelhante ao do “O Homem Duplicado”, de Saramago, com pequenas diferenças e um grande final.
Excelente conto. Com um tema envolvente e perspicaz, cumpriu muito bem o solicitado no desafio.

Cinthia Kriemler

Conto criativo. Cumpre o desafio. A minha única estranheza foi quanto ao fato de maçons, até onde eu sei, não darem presentes para mulheres. Apesar de haver registro, no passado, de mulheres na maçonaria, elas foram banidas da ordem pelos luminares e permanecem afastadas. E também não sei se uma adaga maçônica, que é ritualística, pode ser dada de presente. Achei que a parte das fitas de vídeo ficou meio forçada, introduzida para justificar, posteriormente, como ele seria capaz de identificar as pessoas. Outra coisa: maçons não fazem rituais para matar pessoas. E, sim, é ficção, mas que noiva não sentiria a troca? Coisas em comum, detalhes, situações vividas juntos. Sei lá. Acho meio impossível.

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Confuso. A boa ideia a de um ‘duplo’ ficou obliterada pelo excesso de referências maçônicas.

João Paulo Hergesel

A primeira dúvida que tive ao ler ao conto é uma questão de verossimilhança: wiccanos têm superstição com vestido de casamento? Independentemente disso, o conto é bem escrito pelo ponto de vista linguístico, mas peca pela falta de inovação literária: o encontro espontâneo de gêmeos separados e a usurpação são temas bastante recorrentes, o que interfere na originalidade da obra. A previsibilidade do conteúdo, portanto, prejudica a forma – que, por sua vez, carece de marcas de estilo.

Marco Antunes

“Breno Sabona acendeu um cigarro para ter alguma companhia até o ponto de táxi” – Essa é uma ideia gasta, um clichê que já vi em algumas dezenas de narrativas. Fuja do fácil, ele é uma armadilha sempre! “Abismado, atravessou a pista e foi conferir de perto aquilo que julgava ser impossível” – Repare na pobreza desse “aquilo”, uma palavra genérica e inexpressiva, essa preguiça de procurar no léxico o termo adequado é um vício de principiante. Não dê esse tipo de bandeira. “Afinal, precisavam aliviar-se do susto e desvendar o mistério refletido em seus rostos” – Mais um clichê, o uso do verbo refletir nessa acepção. “Acho que passarei em meu último teste de fidelidade antes de nosso enlace” – A palavra enlace pertence a outro registro, difícil imaginar dois homens conversando e um deles sair-se com uma quase poeticidade como essa. “Ainda nem sequer comparamos nossos mamilos e você já está tentando se livrar de mim?” – Nem sei o que pensar dessa frase abstrusa! Por que diabos alguém compararia mamilos? O entrecho é de grande inverossimilhança. A menção do pen drive é o que se chama de um deus ex machina , quando um autor não consegue encontrar solução dramática e apela para um expediente fantástico ou improvável. No entanto, o desfecho é interessante, a imaginação tem algum mérito e, fora os excessos de principiante, percebe-se a vocação narrativa.

Nálu Nogueira

Adorei a história. Poderia apontar alguns pontos da narrativa que poderiam ser mais bem resolvidos, mas atribuo ao prazo – sempre o prazo! – esses deslizes. Acho dispensável o parágrafo que começa em “no dia seguinte…”, sugiro enfaticamente que o(a) autor(a) o remova sem piedade, não haverá perda nenhuma, a informação é desnecessária e apenas funciona como anticlímax para o final, que achei maravilhoso! Destaque para os diálogos – que alívio é tê-los bem conduzidos e pontuados com correção.

Oswaldo Pullen

Interessante trama, mas com questões de verossimilhança quanto à substituição do gêmeo falecido. O final do conto poderia ter sido mais forte.

Paulo Fodra

Belo trabalho em cima dos elementos da provocação. Apesar da premissa ser um tanto inverossímel, o autor conduz a história com muita habilidade, conseguindo prender a atenção e negociar a suspensão da descrença. O mesmo vale para o desfecho que, embora não chegue a surpreender, funciona muito bem no contexto desta narrativa amarradinha.

Roberto Klotz

De tirar o fôlego! Sensacional suspense comos três elementos da provocação. A abertura traz um conflito, mas demora-se um pouco para entender que Breno é o alfaiate. Aprendi “balandraus” e “menorá”. Créditos de pesquisa ao mencionar a Casa de Ismael, o Poizé e o hotel. Por outro lado a Rua das Noivas é dos dois lados. Amei: “Calma, meu duplo!” Tropecei em “comparamos nossos mamilos” entendi a intenção, mas desviou a minha atenção na leitura. Tampouco gostei de “quatro belas adagas”. Belo, bonito, lindo, são adjetivos fracos. Procure adjetivos fortes, no casoas adagas poderiam ser antigas, trabalhadas, poderosas.Contei 10 ”seu/seus” e 8 “sua/suas”. Foi inteligente ao escolher personagem maçon. Deliberadamente escolheu tema que provoca curiosidade e mistério. Parabéns.

Simone Pedersen

A construção do conto não deixa pontas soltas. Foi uma leitura que me prendeu e saiu do óbvio. Gostaria de ler a continuação, saber o que aconteceu com Micaela, se Breno conseguiu enganá-la por muito tempo.

Wilson Pereira

Atende à proposta do concurso. A trama é interessante, com uma proposta narrativa que causa impacto. No entanto, falta certa conexão narrativa entre o desenvolvimento e o desfecho, que acaba parecendo meio forçado, sem verossimilhança.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,5
Allan Vidigal 8,5
Ana Vilela  9,5
Betty Vidigal  9,8
Celso Bächtold  9,7
Cinthia Kriemler  9,2
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão) 7,0
João Paulo Hergesel 8,0
Marco Antunes 8,2
Nálu Nogueira  10,0
Oswaldo Pullen  9,0
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz  9,9
Simone Pedersen  9,0
Wilson Pereira  8,2
Total  135,5