Um tipo singular

Tamires Nur

Eles visitavam o relógio de sol do Parque da Cidade, quando o guia anunciou o turismo livre para as próximas horas. O grupo de alemães dispersou-se rapidamente, mas algo chamou a atenção de Herman, quando olhou para o espelho d´água, atrás do grande mostrador:
— Ora, veja só, um azulejo de AthosBulcão lá no fundo, disse para si (em alemão, claro).
Como arquiteto, admirava a obra dos geniais criadores de Brasília e, sobretudo, era um expert na azulejaria do mestre. Estava no último dia da viagem e contemplara o trabalho dele em vários locais. Abaixou-se para apanhar a preciosidade: não a deixaria assim, abandonada. Até, quem sabe, poderia levá-la como um souvenir! Tomou-a e enxugou-a na calça, abrindo uma exceção para o gesto. Na sua rotina, jamais faria isso. Aliás, sentiu-se mal por não lavar, primeiro, o objeto, e depois, suas mãos, ter uma toalha… Ah, nem se reconhecia: era um rapaz tão metódico, limpo, e quando criança, saltava todos os ladrilhos azuis do chão da escola e, terminadas as aulas, vinha contando os postes nas ruas. Sabia de cor quantas janelas tinha o prédio vizinho à sua casa. E com a peça já seca não fez diferente. Precisava exercer sobre ela algum controle. Examinou-a, minucioso, sem escapar qualquer detalhe. E acabou descobrindo o que faltava para atrapalhar o seu dia: reconheceu não haver no desenho um traço definindo o braço do homem. Tirou o catálogo da pasta e conferiu o achado com o original: deu um suspiro e desabou no gramado, enquanto acalmava o descompassado coração. A peça era falsa.
O simpático relógio de sol marcava nove horas e a manhã estava deliciosa. Não fosse o pensamento que o assaltava na ocasião, teria feito um lindo selfie com a moldura local. Sim, este certamente era parte de um lote de azulejos falsos! E esses poderiam estar assentados no painel visitado… Mas qual o motivo deste, isolado, estar ali? Caído do caminhão, um garoto o salvou, correu com ele e o lançou ao longe, gritando para os colegas: “quem conseguir achar a tralha ganha um picolé”? Ou um casal pinçou-o do gramado, como símbolo de seu amor e depois atirou-o n´água, eternizando o enlace? Ora, isso importa? Preciso saber se a obra do mestre está preservada ou manchada pelo crime!
E o que tinha o pobre rapaz a ver com o fato numa terra estrangeira? Cuidasse o dr.Athos ou equipe, não ele, já se despedindo do Brasil. Entretanto, um narrador era alguém diante do Herman? Queria alentar seu desejo de correção e mal daria ouvidos a este operário das letras… E lá se foi às inspeções! Conseguiu o endereço com o guia e deteve-se, cheio de zelo, nas peças do enorme quadro. E ainda usou uma lente para surpreender novos piratas, mas nada encontrou. Foi até decepcionante para o jovem Herman: perfeccionista, levaria para a Alemanha a fama de protetor de AthosBulcão…
Na verdade, depois de examinar ainda duas ou três obras e sem vestígio de fraude, sentiu-se cansado e perguntou-se (em alemão): — o que estou fazendo aqui? Teve então uma ideia ousada. Tomou um táxi e foi ganhando as ruas mais vistosas da cidade. Alimentou-se com o monumental eixo e suas esculturas emblemáticas. Passou por um outro onde inumeráveis árvores, muitas em amarelo-reluzente, acalentavam prédios na cidade-parque. Numa decisão inabalável e cortando caminho com as tesourinhas, chegou à casa do artista. Ele era muito receptivo a quem o visitasse, conhecia esse seu lado. Bastava marcar antes com sua secretária. No entanto, naquele dia, haveria de atendê-lo sem agendar, era quase um caso de vida ou morte… Nós sabemos, isso estava somente na cachola do Herman; não houve execução fraudulenta nos painéis examinados, porém, na sua lógica, faltava esclarecer a questão do azulejo encontrado…
— Sr. Athos, sou Herman Hauss, já mantivemos alguma correspondência por e-mail, disse ao interfone.
— Herman, por onde você anda? Estamos indo para o aeroporto, ligou o guia nesse meio tempo.
— Senhor, tenho uma pergunta que não cala — voltou a falar com seu interlocutor, depois de responder ao guia —, peço, me escute (usou outra língua e até o português), sigo hoje para a Alemanha… — Suba, suba, menino, exigiu o aclamado azulejista, fazendo-se entender. Meu rapaz, disse, frente a frente com Herman, segurando a peça e já sabendo da história: tivemos uns problemas semelhantes. Enquanto ele falava, Herman observava, nas paredes do apartamento, as máscaras esculpidas e pintadas pelo artista. Percebendo o interesse dele, o arquiteto muniu-o de um calendário decorado com fotos de tais objetos. Herman guarneceu-o com os braços, como um tesouro, durante sua estada na sala.
— O caso que você traz foi especial, continuou o anfitrião. Imagine, eu acompanhava a execução de um trabalho meu numa parada de descanso, próxima ao relógio do sol. Por coincidência, naquela manhã, a polícia encontrou, desovado, nesse local, um lote de peças com este desenho. Suspeitava de falsificação. Herman estava apreensivo e arregalou os olhos. O mestre retomou a conversa: — como eu estava perto, fui fazer o reconhecimento e constatei: era pirataria mesmo. Quando os agentes levavam as peças para destruir, apareceu um zelador do parque e pediu uma para tapar o ralo do laguinho… Dr.Athos deu um risinho e concluiu: — de modo que se você voltar lá agora, a água já deve ter escoado, toda, ou falta pouco…
Herman engoliu em seco e, quase sem se despedir, seguiu para o aeroporto.

Contagem:  898 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Genial! Conto muito bem engendrado, criativo! Personagem magnificamente caracterizado, por meio de detalhes típicos do quadro sugerido. O desenvolvimento do texto despertainteresse e curiosidade. Consegue surpreender ao final, com inesperada pincelada de humor. Tamires Nur, parabéns!

Celso Bächtold

Muito bom o texto. Agradável de ler, bem escrito, espirituoso e detalhado. Eu compraria o livro que estivesse numa prateleira de livraria, se eu o abrisse e me deparasse com esse conto.

Paulo Fodra

Mais um texto com ideias interessantes, porém com execução problemática. A narrativa é tão caótica na forma que se torna desnecessariamente difícil de acompanhar. Falta ritmo, clareza, direção.

Roberto Klotz

O nome Hermann é com dois enes. Ficou inverossímel carregar um catálogo de azulejos. Há clichês como “manchada pelo crime” e Pergunta que não cala” O meu agrado no conto foi o inusitado fechamento.

Simone Pedersen

Conto leve e bem escrito que atende aos elementos do desafio e oferece uma leitura fluída. Senti falta de algo impactante, que fosse menos linear.

Nota

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues 10,0
Celso Bächtold 9,6
Paulo Fodra 7,0
Roberto Klotz 7,0
Simone Pedersen 8,8