Uma grande e inconsistente bola de neve

Rosa

Havia sido escrita à mão, dava para reconhecer a letra, assim como dava para ver o nome, Léa, escrito lá no final. Quem leu foi a mãe, em voz alta, segurando o choro, mas sem deixar de tremer os lábios. Manu disse que não concordava “Não quero o vestido”, foi taxativa, mas a mãe insistiu, “Você não faria isso por ela?”, estavam próximas, mas não se tocavam. “Vocês faziam tudo juntas, nasceram praticamente juntas”. Manu, no entanto, balançava a cabeça mais e mais enquanto as mãos apertavam firme o tecido que fora posto em seu colo. “Que vou fazer com um vestido de noiva, mãe?”
Desde que a irmã adoecera e teve o casamento adiado, Manu quase não saía do quarto. Ali, elas haviam crescido, enquanto os berços davam lugar a pequenas camas e o teto deixava de ter fadas e estrelas. Nas paredes, um pôster de Frida Kahlo, dois cartazes de filme, um de Beleza Roubada e um de Virgens Suicidas, diversos porta-retratos com fotos das duas juntas e uma bandeira da Croácia. Mas, durante o período da doença, Manu foi tirando a decoração, primeiro o pôster de Frida, que a irmã havia pendurado, depois os quadros que haviam colocado juntas e, por fim, as coisas que ela mesma tinha fixado na parede.
Agora, apenas algumas horas após o enterro, o vestido parecia trazer tudo de volta. Estava ao seu lado, na cama, roçando a pele do antebraço. As camadas atingiam diferentes pontos, como se alguém dedilhasse seus poros de forma delicada e ininterrupta. “Não quero o vestido”, pensava.

Sete da manhã: Manu sai do quarto com uma caixa. É grande, seus braços não dão a volta completa nela. Ao chegar à sala, deposita a caixa sobre o sofá. A mãe estava na cozinha e se aproxima. “Não vou mais precisar disso, mãe.” Retorna ao quarto e apanha o vestido.
Oito da manhã: “Rua das Noivas”, Manu diz ao taxista. Chegam vinte minutos depois. As lojas ainda não abriram. Paga o táxi e sai do carro com dificuldade, abraçada ao vestido de noiva enrolado feito uma grande e inconsistente bola de neve.

Esperou sentada no meio meio-fio, com o vestido ao colo. Ele constantemente pendia para o chão, movimentos reprimidos com afinco, embora Manu estivesse com sono, com tristeza no olhar e sem nenhuma dúvida quanto à decisão de livrar-se das coisas da irmã “Vou esquecer você, Léa”. Queria passá-lo adiante da forma mais digna possível. Mas, na primeira loja em que entrou, mal conseguiu contar sua história e já se viu na rua novamente. “Trabalhamos apenas com vendas, senhorita”.
Assim procedeu até o final da Rua das Noivas. Entrando e saindo das lojas, abraçada ao vestido.

Uma da tarde: Um adolescente caminha pela Entrequadra Norte. Veste bermuda, camisa dos Power Rangers e um tênis que não é possível identificar a marca. O adolescente caminha de forma mecânica, possui um pacote de formato esguio na mão.
Uma e dez da tarde: Manu chega ao Balão da Entrequadra. O cansaço e o insucesso impedem que se concentre no caminho. Esbarra no adolescente. O pacote esguio e o vestido caem ao solo. “Droga”, diz Manu “Não vê por onde anda?”. O adolescente pede desculpas, apanha o vestido do chão e tenta devolvê-lo. “Quer comprá-lo?”, diz Manu. “Que vou fazer com um vestido de noiva?”. Manu diz que ele pode guardá-lo, fazer um quadro, dar para sua namorada, fazer uma fantasia do Spectreman. “Mas eu não tenho dinheiro”. Manu pergunta o que há no pacote. “Uma adaga com cabo de chifre, ganhei do meu padrinho”.

A sala da casa em que Manu morava tinha formato afilado. Duas poltronas individuais e um sofá de três lugares junto a uma pequena mesa de centro no primeiro ambiente. Um pouco além, uma estante com televisão e mais um sofá, com assento estendível e ótimo para esticar as pernas. A mãe estava no primeiro ambiente. Havia posicionado uma das poltronas rente à mesa de centro. Sobre ela, a caixa que Manu colocara na sala pela manhã. Um porta-retratos com foto das irmãs aos cinco anos no circo, um fazedor de bolhas de sabão também com a foto das duas num Dia das Crianças, e o pôster de Frida Kahlo estavam do lado de fora da caixa. Os braços da mãe estavam dentro da caixa. Manu nada falou e torceu para que a mãe fizesse o mesmo. E, assim, foi para seu quarto. As paredes mostravam buracos e contornos, pareciam paredes fantasmas, e os bidês estavam completamente nus.
Manu deitou a adaga por sobre a cama e foi para o banheiro. Levou muita água ao rosto, as mãos em concha enchiam-se e regavam a pele, refrescavam também a língua e a garganta, tentando lavar aquelas horas que pareciam não terminar. Depois, quando não achou mais necessário conduzir água em direção ao rosto, levantou a cabeça e viu-se frente ao espelho. Uma boca entreaberta e úmida que, de vez em quando, recebia um pingo vindo do nariz, a pele firme de quem tinha vinte e um e olhos borrados, parecendo de ressaca. Um pequeno sulco do lado direito, fruto de uma catapora que, espelhado, aparecia do lado esquerdo, dentes bem cuidados e um dedo a guiar a mão inteira na direção do espelho. Ia na velocidade lenta e constante da incerteza, até chocar-se contra a superfície dura. “Léa”, falou, como se as palavras acariciassem a imagem. Então virou-se. Sobre a cama, onde na noite anterior o vestido roçava-lhe a pele, estava a adaga. Olhou mais vez para o espelho, bem nos olhos. “Léa”, repetiu. E caminhou em direção à cama, esperando sentir a pele mais uma vez acariciada, “Só mais uma vez”, pensou.

Contagem: 945 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Os sintomas de depressão da personagem à medida que a irmã gêmea caminha para o fim, assim como as manifestações de sofrimento após sua morte, configuram um cenário psicológico habilmente construído. O vestido, como objeto-símbolo de uma felicidade adiada e que jamais se realizaria; o detalhe dos braços da mãe dentro da caixa; as várias referências ao toque da pele, como que para se assegurar ainda de alguma vitalidade; assim como o progressivo esvaziamento do ambiente, culminam em carícias não mais da realidade física da pele, mas de uma imagem que resta, geradora de insuportável sofrimento. Lavar a pele para lavar as horas, “na velocidade lenta e constante da incerteza”, configura-se como gesto que conduz à negação definitiva da vida. Parabéns pelas sutilezas da construção psicológica do conto! O único aspecto que destoa dessa primorosa construção é a “casualidade” da troca da adaga pelo vestido de noiva. Por que um adolescente que acaba de ganhar de presente uma adaga de seu padrinho iria trocá-la por um vestido de noiva? Eu mudaria o título: a meu ver, a adjetivação utilizada enfraquece o valor do texto.

Allan Vidigal

Achei a história bonita e triste, a ideia boa. Mas não gostei muito de como você contou, da linguagem que escolheu. Beira o pedante em alguns pontos.
“As camadas atingiam diferentes pontos (…)”. Camadas de quê? Pontos de quê? Não entendi.
“(…) possui um pacote de formato esguio na mão.” Tenho algumas implicâncias sérias com algumas coisas. Uma delas é o mau uso do verbo “possuir”.

Ana Vilela

A ideia de construir o conto como se fosse um roteiro é bem legal, mas arriscado, em consequência dos cortes bruscos. Não deixa o texto fluir. Mas você conseguiu concatenar bem. Gosto também do final, do dizer sem dizer: “Léa”, repetiu. E caminhou em direção à cama, esperando sentir a pele mais uma vez acariciada, “Só mais uma vez”, pensou.

Betty Vidigal

O que foi escrito à mão? Uma carta? Um testamento? Não fica claro, também, o que era o pedido feito à irmã sobrevivente. Que usasse o vestido da morta? Assim também outros pontos do conto estão pouco claros.
Isso poderia ser uma técnica de narrativa, deixar os acontecimentos em aberto, ou apenas sugeridos. Mas não foi o que ocorreu aqui. Faltou clareza, mesmo.

Celso Bächtold

O entrecho é ótimo, misterioso e um tanto aterrador. Mas deixa o leitor um pouco confuso, talvez pela intencional diferenciação no uso da pontuação ou por deixar por conta do leitor certas conclusões.

Cinthia Kriemler

Achei as ideias desconectadas demais, como uma colcha de retalhos costurada com dificuldade. Em alguns momentos eu não consegui acompanhar, inclusive, o raciocínio. Todos os elementos do desafio estão aí, mas o conto não empolga.

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Com um bom começo, o conto se perde no ritmo. Senti cortes e falhas.

João Paulo Hergesel

O conto traz algumas ações nas entrelinhas, e isso é ótimo, pois fortalece sua característica de obra literária (aquela que sempre tem uma camada a mais para ser desvelada). O final traz uma surpresa: enquanto o desenvolvimento faz acreditar que a irmã viva só queria se livrar das memórias da irmã morta, o desfecho mostra que ela, na verdade, só queria apagar ela mesma. Muito bem elaborado.

Marco Antunes

Sinceramente, o enredo menos convincente dos sete apresentados. Nada me convenceu dos motivos da ação da personagem. Em especial, pareceu surrealista a troca do vestido por uma adaga. Embora perceba que o autor escreve bem e pode vir a ser um bom narrador, o resultado deste conto foi de uma indizível infelicidade. Nem assunto de interesse para criticar ou ajudar o conto me deu. Não chega ao desatre absoluto do primeiro conto desta rodada, mas andou perto.

Nálu Nogueira

O conto não me convenceu. Não sei se pela escolha do(a) autor(a) ao narrar os acontecimentos, que achei irregulares – primeiro pontuando as horas, recurso que desaparece repentino como surgiu. Não consegui entender porque a personagem deixa a caixa e sai abraçada com o vestido e nem porque quer vendê-lo – mas se quer vendê-lo, por que iria abraçada com ele pela Rua das Noivas? Também me causou desconforto o modo como o narrador se refere aos endereços – ninguém em Brasília se expressa dessa forma, o que talvez tenha contribuído para a minha sensação de inverossimilhança, que culminou na “venda” do vestido de noiva para um adolescente. Não entendi a descrição da caixa, do braço da mãe, do bidê vazio – e no quarto. Nada fez muito sentido para mim nessa história, desde o título (embora eu ainda esteja aqui pensando que essa “metáfora” da bola de neve quer explicar os sentimentos da personagem, num crescendo).

Oswaldo Pullen

Um final hermético em um conto que prima pela capacidade descritiva e marcação temporal.

Paulo Fodra

A narrativa excessivamente fragmentada, com cortes abruptos e inconsistências no tom, não conseguiu em momento algum me capturar ou evocar outros sentimentos além de estranheza. Se o final aberto pretendia sugerir algum tipo de fechamento não escrito, eu também não consegui vislumbrar. Finais desse tipo geralmente exigem uma condução narrativa impecável e bem lapidada para causar o impacto desejado. É um efeito planejado, sutil e particularmente difícil de obter, porque precisa se resolver nas entrelinhas, fechando a história somente na cabeça do leitor. Neste caso em específico, acabou soando apenas sem pé nem cabeça.

Roberto Klotz

Começo bom, poderia ser melhor. Estranhei o pacote com formato esguio e mais ainda o “bidê”. Bidêé um regionalismo que vai criar estranheza a muitos leitores. Ideia criativa e bem desenvolvida, porém em nenhum momento o autor emprega palavra soturna ou sugere o tom de terror de modo que o final quase que não combina com o enredo. O fechamento é sensacional por sugerir. Mas precisei ler duas vezes para entender.

Simone Pedersen

Gostei de uma irmã ter morrido e a história focar na que ficou.
Tem umas passagens inverossímeis:
Um adolescente trocar uma adaga, com cabo de chifre, por um vestido de noiva, é difícil de acreditar.
Esbarrar em um estranho e fazer a troca é uma saída muito simples para introduzir a adaga.
Se a Manu queria se livrar do vestido, ela podia simplesmente doar na igreja mais próxima ou dar para outra pessoa fazê-lo.
Uma gêmea morre e a outra se mata. Faltou algo mais empolgante nessa história.

Wilson Pereira

Atende ao desafio proposto. O conto está bem estruturado, com sequência narrativa e conexão entre os fatos. No entanto falta vigor literário à narrativa. A linguagem não atinge um nível de excelência como ocorre nos melhores contos aqui analisados.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,5
Allan Vidigal 8,0
Ana Vilela  9,5
Betty Vidigal  8,5
Celso Bächtold  9,2
Cinthia Kriemler  7.0
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)  7,5
João Paulo Hergesel 10,0
Marco Antunes  8,2
Nálu Nogueira  8,0
Oswaldo Pullen  9,2
Paulo Fodra  7,5
Roberto Klotz  7,9
Simone Pedersen  8,0
Wilson Pereira  7,5
Total  125,5