Vida Candanga

Enrico

Tinha apenas cinco anos quando sentiu que a água molhava seus pés. Achou divertido. Brincava de casinha com a amiga e havia feito alguns móveis com pedaços de tijolos. Pulava e gostava do barulho que a água fazia. Do nada, sua rotina havia mudado. Saiu de casa para ver como era o mundo sem a secura de sempre. Distraiu-se. Ficou assustada quando viu passar, carregados pela água, seus brinquedos de tijolo. Ouviu a mãe gritar seu nome. Chamava-se Mariana. Conjunção de Maria e Ana, suas madrinhas. A mãe vinha em desespero. Tinha tudo o que possuíam na mão. E era quase nada. Havia urgência. Mariana lembrou-se da amiga, mas não havia mais tempo. A mãe pegou Mariana às pressas. A altura da cheia quase a encobria. Do colo, teve tempo de ver a amiga sendo levada pelas águas. A amiga flutuando em seu vestido vermelho, foi a última imagem que viu da Vila Amaury.
Depois da inundação, Mariana foi morar em outro ajuntamento de operários. A vida seguiu o passo que já conhecia. A mãe e as outras mulheres continuavam recebendo a visita dos candangos. Eles vinham para desaparecer logo em seguida, assim como acontecera com seu pai. Mal lembrava dele, mas tinha o cheiro dos de agora. Era como se todos tivessem o mesmo rosto e a mesma falta de dentes nos sorrisos. O único dia que marcava o antes e o depois na vida de Mariana, foi o da inundação. Ainda menina, decidiu que a vida não a pegaria mais de surpresa. Não era a pobreza que a assustava e sim o imponderável. Em sua imaginação, tinha o poder mágico de ver o futuro. De tanto olhar para tudo e de prestar atenção nas coisas, fez-se capaz de saber dos fatos antes que acontecessem.
Na altura dos seus 11 anos, Mariana notou alguém observando o movimento da casa em que morava. Era um homem baixinho, de andar corredio. Parecia inofensivo e gozava de certo prestígio na vila. Por causa do relativo sucesso, o homem acreditava que um dia seria deputado. Durante as campanhas, era comum vê-lo carregando uma capa de disco do Frank Sinatra debaixo do braço. Dentro da capa, os projetos que no futuro ajudaria a colocar em prática. Trabalhava no escritório de uma empreiteira e passava as horas livres caçando temas para suas leis. Eram tantos os projetos que já havia elaborado, que acabou sendo apelidado de Projeto de Lei. Sua última investida era pelo fim das casas de prostituição. Por isso, sua vigilância em volta da casa das mulheres.
As previsões de Mariana também ganharam popularidade. Era comum as pessoa a procurarem para uma consulta. Aprendera a usar as cartas e desenvolvera a sensibilidade de predizer os dias. No meio de uma realidade tão dura, difícil não ver que, para a maioria, o futuro seria de cartas repetidas. O que salvava era que sempre havia um amor, um filho, algo de bom para construir esperanças.
A nova vila crescia. De um lado com ameaças de demolição, de outro com alguns avanços. E foi assim que Mariana começou a frequentar a escola. Sua fama de cartomante se espalhou entre colegas e professores. Começou a ganhar algum dinheiro. Um dia encontrou com o senhor Projeto. Ele queria uma previsão sobre as eleições. Pediu para que ela mantivesse a conversa em segredo. Explicou que não havia ido à casa dela porque precisava manter a boa imagem de candidato. Ainda que magoada, Mariana lhe disse o que viu. Não, ele ainda não seria eleito. O homem se afastou chamando-a de vigarista como as outras putas que viviam com ela. Havia naquele homem uma alma conturbada numa personalidade perigosa. Foi por causa do que viu, que naquela noite a moça retirou a mãe e todas as outras de casa. Abrigaram-se na marquise de uma construção enquanto viam a casa queimar.
Os tempos seguiram sem que nada fosse descoberto sobre o incêndio. As mulheres da casa tomaram diferentes rumos. Juntas, ficaram apenas Mariana, a mãe e as madrinhas. Viviam das previsões da mais jovem e de alguns serviços domésticos. O habitual candidato e Mariana ganhavam notoriedade além da vila. Ele continuava disputando as eleições. Ela estudou psicologia e aprendeu sobre os Arcanos do Tarô. Ele escrevia sobre o fim dos jogos de adivinhação. A vida de Mariana andava, mas sempre com um Projeto de Lei arrastado em seus passos.
E como havia previsto, chegou o dia em que conheceu Elis. Apaixonaram-se no desvirar de uma carta. E foram tempos felizes, em dias duros. Primeiro morreu Maria. Mariana viu a doença chegando e descobriu a solidão e a impotência. Depois, a enfermidade longa e sofrida da mãe. E por último, Ana, na hora do parto de uma gravidez tardia. Em todas as despedidas contava com a mão firme de Elis. Ficaram com a filha de Ana. Quando as viu com Beatriz no colo, o senhor Projeto correu para datilografar as proibições de adoção.
De tanto conhecer a alma humana, Mariana sabia que do coração não se espera lógica. Sofreu quando viu que o de sua amada trocou de casa. A partida de Elis e a chegada ao poder do pequeno homem, eram o sinal de mudança que havia visto nas cartas. Foi morar com a filha no Pontão. Sentia falta da mãe, das madrinhas e da presença de Elis. Todas as suas previsões não foram capazes de conter as perdas e as dores. Era assim a vida.
A filha a chamou para brincar. Sentou-se em volta da mesa de brinquedo e embalou a boneca que havia feito para ela. Lembrou-se da que a mãe lhe dera sendo levada pelas águas. Olhou para o Paranoá. Dentro dele ainda havia uma Vila e uma menina pobre chorando por sua boneca de vestido vermelho. Abraçou Beatriz e sentiu que lhe sorriam todas as mulheres das quais era feita. O sol se punha em Brasília. Atrás dele, a sequência dos dias que viriam e que, por ora, Mariana não queria adivinhar.

Contagem: 995 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Texto consistente, com uma tensão dramática que me inundou. Personagens muito bem construídos. Excelente tipificação do político, por meio do personagem senhor Projeto. Detalhes inusitados, como o da capa do disco de Sinatra contendo os projetos. Ideias sugestivas, como a de que o futuro seria de “cartas repetidas”. Percebi uma falta de verossimilhança: como a personagem poderia ter visto seus brinquedos de tijolo passar, carregados pela água, se tijolo afunda, já que sua densidade é maior que a da água? O Pontão é um local turístico, não uma zona residencial. Adorei a frase
Abraçou Beatriz e sentiu que lhe sorriam todas as mulheres das quais era feita.

Alexandre Lobão

Texto sensível, emocionante e bonito, com personagens bem construídos e um final bem construído e inesperado. Parabéns!
Uma pequena correção: Em “A partida de Elis e a chegada ao poder do pequeno homem, eram o sinal de mudança” o sujeito e predicado foram separados por vírgula.

Allan Vidigal

Era uma amiga ou uma boneca de vestido vermelho? Para mim ficou muito confuso.
Tem alguns problemas de vírgula (esse tipo de coisa não afeta a nota, para este jurado: é só um toque).
Achei a personagem do Projeto de Lei uma solução original para esse quesito do Desafio desta semana; por outro lado, como personagem da história (independentemente do nome), me pareceu um pouco forçada.
A história é boa e chega a empolgar em alguns momentos, quando você acerta o ritmo. Mas em outros parece que começa a patinar, a coisa não anda, ou anda pouco. Objetivamente, não sei bem explicar como melhorar esse ponto; mais treino, talvez.
Seja lá como for, a história – embora pudesse ser mais bem aproveitada – é boa.

Ana Vilela

O texto é bom, mas há certo exagero no drama e falhas no roteiro. Os moradores foram avisados da inundação, então a cena da menininha sendo levada, mesmo sendo ficção, fica estranha. Como o conto parte de fatos, de situações reais, é necessário estar atento. A não ser que se use de algo completamente fora do contexto. O que não foi o caso.

Betty Vidigal

Há três vírgulas que precisam sair daí. As três antes de verbos. A primeira delas poderia ser uma “questão de estilo”, mas as outras não. Dica: sujeito longo continua sendo sujeito. Não se separa do verbo.
Não é bem um conto o que você produziu com os elementos da provocação.
Final poético.

Celso Bächtold

Numa linguagenm simples e objetiva, o autor passou seu recado e, apesar da falta de diálogos entre os personagens, o fez com maestria.
Achei genial usar a capa de um disco do Frank Sinatra como arquivador de projetos.
Um pequeno detalhe. Na frase “Era comum as pessoa a procurarem para uma consulta.” faltou o plural em “pessoa”.

Cinthia Kriemler

É um conto bonito e triste. Cumpre bem o desafio. A única ressalva é quanto ao alagamento. Quando a Vila Amaury submergiu, tomou-se o cuidado de, primeiro, evacuar as pessoas da área. Muito improvável. Foi um evento programado e não uma enchente súbita. O que compromete a verossimilhança. De resto, é uma história bem contada.

João Paulo Hergesel

A imagem da vila sendo submersa com pessoas vivendo nela parece exagerada; mas funciona como gatilho para o lirismo do desfecho. O conto se utiliza dos elementos-chave de forma magistral. É bem escrito, contém recursos que dão um toque de poeticidade e suas personagens são reais e afetivas.

Marco Antunes

Não é mais hora para correções, nem críticas muito específicas, reservo esta última etapa apenas para alguns conselhos mais de longo prazo e, claro, vou deixar a nota refletir minha emoção ou ausência dela) diante do conto presente. O que mais me agrada em seu estilo são parágrafos estilosos e bem construídos como este: “Era comum as pessoa a procurarem para uma consulta. Aprendera a usar as cartas e desenvolvera a sensibilidade de predizer os dias. No meio de uma realidade tão dura, difícil não ver que, para a maioria, o futuro seria de cartas repetidas. O que salvava era que sempre havia um amor, um filho, algo de bom para construir esperanças.” Aqui vai se dar algo curioso, vou me dar o direito de repetir tudo o que disse ao autor do segundo conto desta rodada, pois se aplica inteiramente a ambos os casos. Então, leia o que ensina o mestre Massaud Moisés: “”O drama nasce quando se dá o choque de duas ou mais personagens, ou de uma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Se tudo estivesse em plena paz e ordem entre as personagens, não haveria conflito, portanto, nem história. E mesmo que se viesse a escrever um conto acerca do bem estar e da tranquilidade de espírito, é certo que não teria interesse algum.” E veja como ele pretende que esse imperativo seja trabalhado pelos bons escritores: “Ao conto aborrece as divagações, digressões, excessos (Moisés, p. 124). É um drama que apresenta um fim em si próprio, com começo, meio e fim, corresponde ao momento mais importante da vida da personagem, sem importar o antes ou o depois. Pode haver uma “síntese dramática”, mas o passado e o futuro possuem pouco ou nenhum significado.” E, acima de tudo: O conto opera com ação e não com “caracteres”. Ele apenas cria situações conflituosas em que todos nós, indistintamente podemos espelhar-nos. Nesse caso as personagens são consideradas como instrumentos da ação.” É aqui que nosso papo fica sério: seu conto carece de ação, de ação direta, acaba parecendo um relato (vá lá um bom relato de uma história) mas está ainda na fase pré-conto, antes de dar a ele ação dramática, vibração e conflito real entre as personagens. Tente lembrar-se disso no futuro.

Nálu Nogueira

Muito delicado e bonito! Para meu gosto pessoal, poderia haver menos ênfase no aspirante a deputado e mais ênfase na vida interior de Mariana. Mas o(a) autor conseguiu elaborar um lindo painel sobre a vida desta mulher.

Oswaldo Pullen

O personagem “Sr. Projeto” é mais rico literariamente do que a protagonista. Por outro lado, o conto se perde em alguns momentos em pieguice e lugar comum.

Paulo Fodra

História tocante e muito bem estruturada. O projeto de lei é objeto e também antagonista. E que antagonista. Um pequeno erro de digitação escapou à revisão, mas nada que tire o brilho do conto. Parabéns.

Roberto Klotz

Percebi que o autor precisou de muito esforço para unir os elementos da provocação. A abertura dá o tom de tristeza do conto marcado pela frase: “Era como se todos tivessem o mesmo rosto e a mesma falta de dentes nos sorrisos”. A história segue monótona, pois o narradornão abriu espaço para os personagens contarem partes da história. A narradora em vez decredenciar com feitos (mostrar), contou que “Sua fama de cartomante se espalhou entre colegas e professores”. O fechamento foi de uma beleza triste de baixar os olhos.Senti falta de pesquisa para sustentar a história em sua época e cenário.

Simone Pedersen

Muito bom. Para mim, é seu melhor conto. Parabéns! Triste e tocante. No começo, eu pensava na amiga que tinha sido levada pela água e ninguém tentou salvá-la…
Os sete finalistas são muito bons. Um conto pode agradar mais que o outro, já que nenhuma produção artística é linear; é um movimento rizomático e rico, que vai e volta, fincando as raízes cada vez com mais força. Parabéns! Continue compartilhando sua escrita com o mundo.

Wilson Pereira

O conto está de acordo com o que propõe o concurso. Trama bem elaborada, com fatos bem encadeados e bem articulados. Há sequenciação e coesão narrativa. A linguagem é bem construída e o conto alcança nível literário elevado.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,5
Alexandre Lobão  9,8
Allan Vidigal  8,5
Ana Vilela  9,0
Betty Vidigal  9,0
Celso Bächtold 9,6
Cinthia Kriemler 9,6
João Paulo Hergesel  9,9
Marco Antunes  8,0
Nálu Nogueira  9,7
Oswaldo Pullen  8,5
Paulo Fodra  10,0
Roberto Klotz 8,8
Simone Pedersen  10,0
Wilson Pereira 9,0
Total  138,9