Vingança ou as passsarelas da Champs Élysées

Cruz e Espada

– Feche a loja.
Ela disse com o nariz empinado e foi nesse momento que tudo ficou escuro. Recuei, estendi a mão para apanhar o peso de papel, avancei três passos, descrevi um arco com o braço direito, acertei no meio da sua cabeça.
Ela fez uma careta de dor, armou-se em posição de defesa, tentou lutar. Mas não permiti qualquer reação. Aproveitei sua fragilidade e desferi a segunda pancada, mais forte dessa vez. Foi como se uma bexiga esvaziasse. Os músculos relaxaram e seu corpo tombou no meio da loja vazia, dedos agarrando o concreto, lábios abertos numa pergunta que nunca chegaria a ser formulada.
O universo de repente se aquietou e quase fiquei surda de tanto silêncio. Minha irmã estava morta. Sua grande boca finalmente tinha se fechado.
Fiquei olhando o cadáver por algum tempo, espantada com a minha reação. Sempre que construía a cena na minha cabeça acabava entre lágrimas, possuída de um horror absoluto. Mas agora que a coisa acontecia de verdade, o que eu experimentava era fascínio. Ajoelhada ao lado do corpo, constatei que nunca havia sentido tanto prazer.
Gastei os primeiros segundos apreciando a paisagem. O rosto mais bonito do mundo, segundo opinião dela e dos seus muitos pretendentes, agora sem vida; o corpo de sereia, que ela não parava de admirar no espelho, rapidamente virando lembrança. Para meu infinito alívio, toda essa perfeição tinha acabado. A partir de agora não haveria mais abusos em forma de brincadeiras: Por que a vida é tão injusta? Umas tão lindas e outras tão horrorosas? Nem expressões de espanto: Mas vocês são irmãs? Gêmeas?
Retomei o controle. A loja ainda estava aberta e o movimento na rua, mesmo pequeno, me deixava vulnerável. Dei um salto, e numa série de gestos rápidos tranquei a porta, desliguei os interruptores e baixei as persianas. Uma penumbra espessa me envolveu. O cadáver virou um vulto no meio do corredor.
Olhei em volta, assustada, como se só agora compreendesse que acabara de cometer um crime. Mas logo me acalmei. A loja era pequena e antiga, não havia empregados nem câmeras de vigilância. Apenas os noivos de fraque e as noivas de tule plantados na vitrine serviam como testemunhas.
Um relâmpago riscou o ar e por uma fração vi os manequins. Iluminadas pela luz coada que vinha de fora, as feições de plástico me fizeram lembrar o sonho mais antigo de minha irmã:
– Um dia vou embora de Brasília. Quero desfilar na França, ficar rica, famosa.
Quantas vezes não ouvi essas frases, acompanhadas por trejeitos exagerados? E quantas vezes não tive que suportar seus olhares de nojo ao deparar comigo depois que os devaneios chegavam ao fim? Para ela eu era o Grande Erro de Deus, o monstro que nascera da mesma carne com a única finalidade de destacar a sua beleza. Minha irmã gêmea. Sempre bebendo champanhe imaginário e gastando o francês que lia nas revistas: Oui, Monsieur. Merci.
Enquanto o pai e a mãe viveram, ela se conteve. Os velhos impunham limites e ela os respeitava, de longe, mais por temor do que por inclinação. Mas depois que eles se foram e nos deixaram a loja como única herança, obrigando-nos a dividir o mesmo espaço, minha irmã se revelou uma verdadeira harpia. As humilhações passaram a acontecer em bases cotidianas e as queixas débeis que eu emitia não eram capazes de impedi-las. Faz isso, faz aquilo, por que você não entra num regime?, por que não aprende a se vestir?
Acumulei ódios e rancores até o dia em que não pude suportar nem uma ofensa a mais. E então o plano tantas vezes pensado se precipitou. Duas pancadas, um corpo. O resto seria técnica e sangue frio.
Fui até o escritório e procurei a adaga que papai comprou numa viagem à Itália, nos tempos em que era um dos poucos lojistas da região e esse negócio de casamento dava muito dinheiro. Era trabalhada em ouro, incrustada de pedras semipreciosas, lâmina afiada, dura que nem rocha. Perfeita para o serviço. Segurei o punho com força e puxei do suporte. O abajur projetou minha sombra na parede. Lá fora o temporal desabou com violência.
Cheguei perto do corpo. Raios estalaram no céu, trovões chacoalharam a cidade. Ninguém ouviu o berro que dei ao levantar a adaga com as duas mãos e descê-la sobre a barriga nua de minha irmã gêmea.
Agora você vai saber, princesinha, o que eu tanto estudava enquanto você sonhava com a glória. Ouça bem, porque enfim vou satisfazer a sua curiosidade. Era taxidermia!
Ao longo da noite usei a experiência da vida inteira para tirar medidas e fazer recortes milimétricos. Arame para fabricar o suporte da pele e material para fazer o estofo era o que mais havia, bastava esticar o braço e pegar os bocados. Em alguns momentos, é verdade, tive que recorrer ao improviso. A máscara mortuária e os moldes de gesso não ficaram muito bons e o congelamento na posição exata exigiu mais esforço do que eu imaginava. Em compensação, a limpeza foi primorosa: decompus ossos e vísceras com ácido até não sobrar uma migalha e usei produtos que a conservariam por décadas.
Terminei o trabalho quando a Rua das Noivas começava a se encher de homens e mulheres esperançosos: Quem sabe com a gente não dá certo?
Coloquei minha irmã em um vestido da nova coleção e a carreguei até a vitrine. Ela estava leve e mantinha um aspecto jovial. Nada da sua beleza havia se perdido. Abri espaço e acomodei-a diante da imensa foto da Torre Eiffel.
Às dez horas apareceram os primeiros clientes. Olharam roupas, acessórios, enfeites. Alguns franziram o cenho ao ver o novo manequim, mas ninguém chegou a suspeitar. Somente no fim do dia alguém perguntou por ela. Abri um sorriso sincero e expliquei:
– Foi ser modelo em Paris.

Contagem: 970 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Logo no início somos de supetão apresentados ao crime. A motivação vem depois, a história do acúmulo de ódios e rancores. Original essa estrutura textual. O clima macabro causou-me arrepios e náuseas, como se estivesse vendo um filme de terror em que o crime é planejado e executado com toda a frieza. Reconheci no conto interessantes elementos cinematográficos: “Um relâmpago riscou o ar e por uma fração vi os manequins. Iluminadas pela luz coada que vinha de fora (…)”. Bastante convincente a descrição do processo da taxidermia. Achei o título muito explicativo. Vingança seria mais incisivo (simplista?). Passarelas dos Champs Élysées seria sugestivo, a meu ver. Mas não o título composto. A propósito, Champs (campos) em francês é um substantivo masculino e está no plural.

Allan Vidigal

Ótimo! Sutil na medida certa, frases curtas, sem excesso de palavras.

Ana Vilela

Ótimos o narrador e o texto. E a frieza da personagem também está muito bem construída, assim como os motivos que a levaram a cometer o assassinato. Texto limpo e direto.
“A máscara mortuária e os moldes de gesso não ficaram muito bons e o congelamento na posição exata exigiu mais esforço do que eu imaginava” – este é o tipo de relato que diz muito da personagem, sem excessos, sem dizer nada, sem explições. Só a ação. Parabéns.
Mas, infelizmente, a história também bate no igual: um gêmeo que tem raiva de outro e tudo terminando em morte.

Betty Vidigal

Uau! Rancor muito bem construído. Final amarradinho com o todo. Ótimo. Uma dúvida que fica: as pessoas q
Detalhe: Adorei você escrever “deparar”, e não “se deparar”, como costumam dizer/escrever.

Celso Bächtold

“PASSSARELAS”, no título: há um “S” a mais.
Muito bom. Usando palavras adequadas às situações descritas, o texto está rico e exuberante.

Cinthia Kriemler

Tenebroso. Por isso mesmo, muito bom. O clima do conto foi, o tempo todo, de vingança, de recalque, de inveja. A obsessão evidenciada. A gente sente o ódio da personagem. Gostei muito também da descrição da noite inteira que ela passou preparando o corpo da irmã. O prazer macabro com que faz tudo. A frase final é muito boa. Os elementos solicitados pelo desafio estão todos lá, mas como pano de fundo, como deve ser, no meu entender; presentes, mas apenas como suporte a história.

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Abertura e final excelentes. Humor negro. O título é quase uma resenha do conto. Era essa a ideia?

João Paulo Hergesel

O conto segue bem, até o momento em que a especialização em taxidermia é revelada. A partir daí, existe um excesso de palavras que distancia o clímax do desfecho, prejudicando o ritmo da narrativa. Talvez fosse mais indicado que o texto omitisse o trecho que vai de “Ao longo da noite (…)” até “(…) não dá certo?”, para emendar a surpresa da revelação com o final macabro. O segundo incômodo é com relação ao “Nada da sua beleza havia se perdido” logo em um conto que se inicia em pancadaria e dois golpes de peso de papel na cabeça da moça. Será que não ficariam as marcas do hematoma? Independentemente disso, o conto posiciona bem as diferenças entre as gêmeas, e a ideia de transformar a irmã em manequim de noiva me fez lembrar a lenda mexicana da Pascualita.

Marco Antunes

“Gastei os primeiros segundos apreciando a paisagem” – Não se trata de paisagem, mas de cena, de quadro. Procure sempre a expressão exata. “Corpo de sereia” – Que tremendo clichê, você faz melhor do que isso! “As humilhações passaram a acontecer em bases cotidianas’ – O uso da palavra “base” foi inadequado nesse contexto. “Até não sobrar uma migalha” – Mais uma vez, noto aqui o uso inadequado de migalha, sinceramente isso é uma bandeira enorme de inexperiência com o estilo da narrativa. Corrija isso! Você tem méritos demais para pecar nesses detalhes. O humor negro me agradou muitíssimo. O entrecho é bem arquitetado e o autor conseguiu fazer um excelente conto de ação interior, mostrando todo o ressentimento e a movimentação anímica da protagonista.

Nálu Nogueira

Este conto me surpreendeu, apesar da má vontade que confesso ter sentido logo na primeira frase, porque o(a) autor(a) cometeu de cara um erro infantil na apresentação da “fala” da personagem (e é tão mais simples usar um discurso indireto quando não se domina a pontuação). Há algumas construções pouco sofisticadas, mas a sacada da taxidermia eu achei muito interessante e curiosa, nada previsível!

Oswaldo Pullen

Pouco verossímel a profissão secreta da personagem. No entanto, o conto se sustenta, com a alegada ida de sua vítima para Paris bem implantada ao longo do desenvolvimento do conto.

Paulo Fodra

Premissa muito interessante das gêmeas nãoidênticas, porém a narrativa perde a força quando deixa de explorar a relação entre elas, se encaminhando para um fechamento forçado que destoa do ótimo início. O título do conto, que reúne um grande clichê com um nome pretensioso, acaba apenas endossando essa impressão.

Roberto Klotz

Com abertura de violência engatilhou uma a história de terror. Vou fazer algumas críticas, mas quero continuar seu amigo. Há algumas frases que enfraqueceram o ótimo conto: “acertei no meio da sua cabeça” ou “deixaram a loja como única herança”. “Única” é desnecessário,transformou a frase em clichê. Evite verbos duplos: “Fiquei olhando” (olhei)“tinha acabado” (se acabara). Em vez de apreciando a “paisagem”, procure a palavra certa: cenário. Se tivesse lido em voz alta teria percebido a cacofonia em V:
“cadáver virou um vulto”. Gostei de “numa pergunta que nunca chegaria a ser formulada”; “luz coada” e “finalidade de destacar a sua beleza”. Com o objeto-chave adaga imaginei que haveria assassinato, jamais história de terror com fechamento de casa de espanto. Terrivelmente bom.

Simone Pedersen

Senti arrepios ao ler esse conto. Uma noite me parece pouco tempo para o processo de taxidermia envolvido. A semelhança do rosto seria notada por quem a conhecesse. O conto é envolvente, bem escrito e criativo. Os detalhes poderiam ser ajustados, mas a ideia central é boa. Fiquei surpresa e envolvida com a história macabra.

Wilson Pereira

Atende ao desafio proposto. O enredo do conto compõe-se de uma trama rica, com personagens bem delineadas psicologicamente, coerentemente com o desenrolar dos fatos. Texto bem desenvolvido e articulado com rara consistência narrativa, apresentando progressão dramática e um desfecho surpreendente. Linguagem bem elaborada, alcançando um elevado teor literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  9,7
Allan Vidigal  10,0
Ana Vilela  9,6
Betty Vidigal  10,0
Celso Bächtold  10,0
Cinthia Kriemler 10,0
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão) 9,5
João Paulo Hergesel 9,0
Marco Antunes  9,8
Nálu Nogueira 9,2
Oswaldo Pullen  9.3
Paulo Fodra 8,5
Roberto Klotz  9,4
Simone Pedersen 9,2
Wilson Pereira 9,3
Total 142,5