Vitrines

Enrico

Fazia algum tempo que Telma quebrara a canela. De onde ela estava, só podia ver um rabo da rua. Sentia saudade de acompanhar o movimento de entra e sai das lojas. Por vezes, vislumbrava o cabelo vermelho da irmã gêmea na esquina. A irmã sempre tão linda em seus vestidos de noiva. À Telma, antes do acidente, só era permitido usar as roupas das madrinhas e das convidadas. Tinha uma diferença de quase um centímetro de uma perna para a outra. Por isso, era necessário um ajuste no pé para que ninguém notasse a imperfeição. Nunca fizera questão de grandes protagonismos. Mas agora a vida lhe dera uma rasteira e colocara poeira em suas horas.
Passava o tempo sobre uma velha cadeira. As primeiras semanas tinham sido mais fáceis e próximas à rotina de antes. Enxergava um lado inteiro da Rua das Noivas e acompanhava o ritmo que lhe era familiar. Isso a confortava. Então, em um dia estranho, teve a vista reduzida ao triângulo do canto esquerdo e inferior da janela. Logo, os acontecimentos de fora passaram a ser um breve trailer de um filme, do qual precisava adivinhar o roteiro. Um biombo que rompera as dobradiças havia sido colocado na sua frente. Depois disso, era outro o cenário que as retinas podiam captar. Em primeiro plano, o pedaço solto da sua perna exibia a sola do pé. Nela estava tatuada a data do seu nascimento. Logo abaixo, o número do lote que havia sido encomendado pela dona da loja, pois queria duas manequins idênticas para colocar nas vitrines. Aqueles algarismos eram feitos tristeza e distanciavam Telma do tempo em que fora feliz.
Ela e a irmã haviam chegado novinhas na loja. Os corpos perfeitos e reluzentes. O fornecedor as entregou usando perucas ruivas. Quando as viu, a dona lhes atribuiu os nomes de Telma e Louise, em homenagem ao seu filme favorito. Cada uma deveria ficar em um lugar de destaque. Louise usaria os modelos clássicos e Telma os vestidos das últimas tendências. A primeira a ir para o expositor foi Louise, que logo atraiu o olhar das moças que passavam. Já Telma não teve a mesma sorte. O defeito foi notado assim que tentaram colocá-la em pé. A proprietária quis substituir a compra, mas o fabricante informou que havia se desfeito do molde. Concordaram, por fim, que parte do valor pago seria devolvido à loja.
A dona ponderou que, com aquela diferença na perna, não seria bom para os negócios colocar Telma numa das vitrines principais. Deveria ser exposta na área reservada aos vestidos das convidadas. No entanto, nada havia na casa que pudesse servir de calço para a mantê-la em pé. Um papel dobrado, algumas moedas empilhadas, nada. Quando estava quase desistindo da ideia, a mulher lembrou de um objeto que guardava bem no fundo da gaveta junto aos recibos das vendas. Uma arma que deixava escondida para a sua proteção. Os tempos andavam difíceis em Brasília. O cabo de madeira da pequena espada caiu como uma luva sob os pés da manequim. Foi assim que, ao final do dia, Telma subiu triunfante no pedestal, usando um longo de costas nuas e equilibrada sobre uma adaga.
Tudo andava bem para as irmãs. Uma na esquina da rua principal e a outra na esquina da rua ao lado. Isso até o momento em que uma funcionária tropeçou na cauda de um vestido e caiu sobre Telma. Quando a manequim foi erguida, um pedaço do corpo ficou no chão. Era a perna mais curta que havia quebrado e agora a adaga não resolveria o problema. Assim, depois da queda, foi deixada no pequeno quarto em frente à loja, onde havia o estoque de roupas e outros acessórios fora de uso. Antes de ser depositada sobre uma velha cadeira, ouviu a promessa de que seria consertada em breve. Na espera, passaram os dias, veio o biombo, veio a saudade e veio a solidão. E então um dia, veio Louise.
A irmã havia sido substituída por uma manequim de aramado em estilo provençal. O vintage era a nova tendência. Ao fim do expediente, a dona da loja entrou no pequeno quarto. Pegou Louise e a sentou de frente para Telma, de costas para a única janela. Assim, explicou para a netinha, as duas bonecas grandes poderiam ficar conversando enquanto tomassem chá. A avó colocou entre elas uma pequena mesinha com umas louças floridas para a neta brincar. Nas horas que eram dispensadas das fantasias da criança, as irmãs falavam sobre o tempo em que ficaram separadas. Louise sentia falta dos dias de glória. Para animar a irmã, Telma narrava tudo o que acontecia lá fora. Quando a poeira acumulada no vidro não permitia mais a visão da rua, Telma passou a inventar narrativas. E assim passou mais um longo tempo. A menina cresceu e já não ligava para elas. A dona envelhecera e raramente vinha até o quarto.
Quando as duas já haviam amontoado muitas histórias e se distanciavam do passado, um bater nas paredes lhes devolveu o fio da realidade. O movimento indicava que a loja havia sido vendida e que o quarto seria esvaziado. Telma ficou espantada com a nova paisagem que viu quando retiraram o biombo da sua frente. Mal lembrava o lugar que outrora via mover-se. Quando deu por si, carregavam Louise. Não demorou para que ela também fosse levada. Na passagem para o caminhão, viu que a loja vendia roupas íntimas para a noite de núpcias. As novas manequins tinham peitos e nádegas grandes. Teve a sensação que despertara para um mundo desconhecido. O único objeto que reconheceu foi a velha adaga que um dia lhe serviu de suporte e que agora se exibia emoldurada num quadro. As irmãs foram deixadas numa fábrica de reciclagem. Por serem feitas do mesmo material, ficaram juntas até o fim. Os olhos de tranquilidade de Telma foram as últimas coisas que Louise viu. E Telma descansou quando o olhar da irmã serenou.

Contagem: 993 palavras

Comentários

Alexandra Rodrigues

Há neste conto uma delicada originalidade, uma deliciosa dimensão lúdica, uma surpreendente e profunda simplicidade, um instigante clima de surpresa. E elementos filosóficos que me encantaram. A vida das coisas retratando a efemeridade da vida humana. O tempo gestando outras formas de ser e estar no espaço social. De estarmos juntos em uma época, como gêmeos de uma civilização, ocupantes temporários da vitrine da existência, rumo a um tempo desconhecido. Parabéns pela sensibilidade do conto!

Allan Vidigal

Acho que foi o mais original que li até agora nesta edição dos Desafios. Tem uma ou outra coisinha que me pareceu meio esquisita (o mais sério, provavelmente, o seu jeito forçadíssimo de enfiar a adaga no conto, que não convenceu nem um pouquinho).
Mas, no geral, muito bom

Ana Vilela

Muito legal a prosopopeia, essa personificação que, no fundo, fala deste momento em que beleza é tudo e qualquer característica fora do padrão parece ser imensa perante os olhos de uma sociedade cada vez mais materialista. Na vida real, ocorre o contrário: uma reificação. O tom de reminiscência, de passagem de tempo, também foi bem desenvolvido.

Betty Vidigal

Original, bem escrita. Um pouco confusas as explicações. Mas não é mesmo simples de explicar, essa estória. Provavelmente com um pouco mais de tempo você consegue uma solução melhor para as descrições.

Celso Bächtold

“No entanto, nada havia na casa que pudesse servir de calço para a mantê-la em pé.”: duplicação do objeto direto “a”.
Talvez pudesse haver mais diálogos, para tornar o texto mais ativo.
Entrecho muito bom! Sensacional as gêmeas serem manequins.

Cinthia Kriemler

Esse conto me surpreendeu sob vários aspectos. Começou bem e seguiu linear por pouco tempo, até deixar que o leitor percebesse que eram duas manequins. Só por isso, por essa sutileza na introdução do realismo, eu já consideraria um texto bem feito. Então, de repente, o autor/a autora introduz todo um lirismo na narrativa. E uma tristeza, e uma nostalgia tomaram conta da minha leitura. Eu imaginei cada cena. E li novamente, percebendo o emblemático dessa história. O culto à juventude, a perfeição física, a velhice, a invisibilidade, o descarte das coisas inúteis. Está tudo nele. Belo, belo conto. Doído e reflexivo.

Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)

Apesar da homenagem cinematográfica, a escolha das manequins gêmeas limitou a possibilidade de ação. A adaga poderia ser um tijolo, um livro ou outro objeto… pareceu forçado o uso dela como um mero apoio.

João Paulo Hergesel

Poesia pura! O autor soube utilizar o tema com originalidade, inovou ao evidenciar personagens não humanas e atingiu níveis altíssimos de afetividade com a descrição das ternuras entre as duas irmãs manequins. Talvez tenha sido o único conto da rodada – será que desta edição do Desafio? – que soube criar um tema totalmente inesperado dentro do que a provocação pede. Nota máxima com louvor!

Marco Antunes

“Aqueles algarismos eram feitos tristeza e distanciavam Telma do tempo em que fora feliz” – Eram feitos de tristeza ou eram feito tristeza? Como está é que não pode. “Para a mantê-la em pé” – Para mantê-la em pé ou para a manter em pé ou de pé. Como está é que não pode ficar. Aqui, a ação haveria de ser necessariamente interna em razão das personagens. O entrecho foi desenvolvido com maestria, Conto impecável.

Nálu Nogueira

Apesar de sempre ver com simpatia a ideia da vida a seres inanimados, não gostei do conto, não achei que a provocação foi atendida. Talvez seja um problema comigo e me falte imaginação, mas ainda que eu “comprasse” a ideia do conto, falta sofisticação nas construções, falta enredo, falta tensão na narrativa, falta um porquê.

Oswaldo Pullen

Surpresa interessante ao meio do conto, que no entanto se perde em um final de pouco realce.

Paulo Fodra

Abordagem muito criativa dos elementos da provocação. A imagem poética evocada pelo fechamento dá corpo ao conto e se revela uma deliciosa recompensa para o leitor.

Roberto Klotz

A construção do conto foi boa, mas tem problemas de estrutura. A demora na revelação de que as gêmeas eram manequins, obrigou-me, para melhor compreensão, a reler o início. A frase “caiu como uma luva sob os pés” foi inadequada. Além do clichê, é inverossímil usar a adaga como apoio. Seria razoável se tivesse empregado “a adaga encaixou-se perfeitamente na ranhura do pé”. Em vários momentos há explicações em demasia como “foi deixada no pequeno quarto em frente à loja, onde havia o estoque de roupas e outros acessórios fora de uso” ou que um dia lhe serviu de suporte”.Gostei da criatividade por usar a adaga para apoiar em vez de matar. Gostei de: “colocara poeira em suas horas”. Gostei do fechamento tristemente poético.

Simone Pedersen

Quando terminei de ler esse conto, verifiquei o tamanho. Parecia menor que os outros. Não é. Eu mergulhei nele e não percebi mais nada. O uso da adaga saiu do seu uso comum. As “gêmeas” são personagens que evocam empatia. No final, senti tristeza e dó das “irmãs”. Um conto ficcional que envolve e surpreende. Indicaria a leitura.

Wilson Pereira

O conto está de acordo com o que foi proposto no desafio. A trama é muito interessante, original mesmo, pois constróicomo personagens dois manequins, que atuam como se fossem seres humanos. Texto bem elaborado, e articulado com progressão dramática coerente e consistente. Domínio da técnica narrativa, linguagem rica, com ótimo nível literário.

Nota

 

Jurados

Nota

Alexandra Rodrigues  10,0
Allan Vidigal 9,5
Ana Vilela  9,8
Betty Vidigal  9,6
Celso Bächtold 9,7
Cinthia Kriemler 10,0
Claudine Duarte (substituindo Alexandre Lobão)  7,5
João Paulo Hergesel  10,0
Marco Antunes 10,0
Nálu Nogueira 8,0
Oswaldo Pullen  8,5
Paulo Fodra 9,7
Roberto Klotz 8,6
Simone Pedersen 10,0
Wilson Pereira 8,8
Total  139,7